quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Conto : A Intercessora

 Conto nº 9

A  INTERCESSORA

(Sequência do conto “Alma à Deriva”)



Sentada à mesa da sua salinha de estar, Eunice, de mãos postas diante de si, de olhos fechados, estava orando a Deus. Concentrada, recolhida, aproveitava esses momentos do dia em que ninguém lhe batia à porta. Todos sabiam, na aldeia, que, depois do almoço, Eunice gostava de estar a sós com Deus, e que esses seus momentos eram para ela sagrados. Noutras horas do dia, muitas vezes lhe batiam à porta. Umas vezes para lhe pedir ajuda ou conselhos. Outras, para ir ajudá-la em algumas coisas de que ela necessitasse. Também lhe traziam peixe fresco, já amanhado, da pesca diária, ou algum cozinhado que houvessem acabado de confeccionar. Todos na aldeia eram seus amigos e a tratavam  com carinho. O respeito pela sua idade avançada também lhes incutia ajudá-la em tudo quanto ela necessitasse. Os mais jovens  tributavam-lhe uma admiração e reverência profundas.
Nessa hora de recolhimento, Eunice estava derramando a sua alma em preces. Falava a Jesus de si mesma.  Sabia que Deus lhe proporcionara uma vida longa, trabalhosa, mas dedicada. Cumprira o melhor que soubera com tudo o que lhe surgira para fazer, ao longo da sua extensa vida, e seguia cumprindo. Sabia que algum dia teria de partir, e que a sua hora final neste mundo soaria. Não a afligia o facto por si mesma. Mas sabia que ia deixar vago um lugar que mais ninguém, naquela terrinha humilde, teria capacidade para ocupar. E afligia-a ter de deixar, a partir daí, sem auxílio, sem conselho, os seus amigos aldeões.
Marinela e Túlia eram visitas diárias, habituais.1 Marinella ajudava nos afazeres da casa. Túlia, a sua amiga cigana, viúva, trazia-lhe as compras necessárias.2 Ambas eram mulheres entre os quarenta e os cinquenta anos. Eunice já ia nos seus oitenta e muitos... Lúcida, ainda que já com menos energia, Eunice saía, de forma limitada, embora diariamente. Andava um pouco,  pela estrada principal da aldeia. Descia devagar os degraus de pedra que levavam à praia. Havia, perto da sua casa, um miradouro onde ela gostava de sentar-se, algumas vezes, junto ao farol,  e olhar para o mar.
Às vezes, via Marinela descer por ali, passear, dar voltas sobre si própria, cantando e fazendo gestos de palco. Marinela havia sofrido muito, mas estava quase completamente restabelecida. Eunice ajudara-a o quanto havia podido. E seguia orando por ela. Marinela ainda gostava, também, de vir a sua casa.  Compreendiam-se ambas muito bem. Túlia também se dava muito com ambas. Entre Eunice e Túlia, crentes convictas em Deus, haviam ajudado Marinela a encontrar o seu verdadeiro caminho.3 Mas antes disso, muito antes, Eunice  tivera muitas  almas pelas quais interceder, com oração e súplica, diante de Deus. Quantas almas aflitas  não encaminhara Eunice? Por quantas não implorara a Misericórdia Divina? Não desistia de ninguém, nem negava assistência a quem quer que fosse. E quando o mar se tornava  em furiosa tempestade,  quanto intercedera ela pelos desafortunados pescadores, que arriscavam a vida, para ir para a sua faina marítima?!
Eunice só aceitava pequenos e modestos presentes, nunca pagamentos monetários. Ficava feliz tão somente de vê-los voltar às suas casas, sãos e salvos. Pois regozijava-se em saber que as suas preces eram atendidas.
Quantas noites se pusera ela de joelhos, intercedendo por qualquer daqueles que sabia estarem em aflição?!
Houvera o caso de Olinda,  uma jovem mulher da aldeia, que quase morrera de parto, havia poucos anos. E que as súplicas e os esforços, a nível profissional, de Eunice, haviam contribuído para que se salvasse. Houvera também dois pescadores desaparecidos, que todos julgavam já mortos, afogados, e que, por milagre, haviam regressado a casa, após terem ficado retidos num ilhéu das proximidades, até a maré baixar, e serem encontrados, passadas algumas horas, quase a morrer de frio, mas ainda assim, vivos!
E tantos outros casos!... Crianças em perigo de morte, com doenças para as quais ainda não havia vacinas... Sempre de joelhos, de mãos postas, Eunice, fechada em sua casinha, no promontório vizinho da praia, perto do farol, orava:
- Senhor meu Deus, tem Misericórdia! Não te peço nada para mim! Sei que me cuidas! Mas te peço por esta pessoa.... (E citava a criança, o homem ou a mulher, e até mesmo a família em aflição)... O certo, é que Deus ouvia-a! E lhe respondia com a Misericórdia, a Justiça, o Amor que ela esperava d’Ele.
Todos, na aldeia, a conheciam como a “Grande Irmã”, uma espécie de “Madre Teresa de Calcutá” local.4
A alta e  esbelta figura de Eunice, como por milagre, se mantinha direita, apesar dos anos. A sua farta e comprida cabeleira ruiva, sempre penteada do mesmo modo, com um carrapito, que em espanhol se chama “moño”, e que formava como que um caracol enrolado e preso na nuca, fora ficando totalmente branca, com o passar dos anos. A sua pele fina e muito branca fora ficando marcada de sulcos e finas rugas. Só os olhos azuis claros haviam conservado a sua luz alegre e viva. Eunice era uma pessoa viva e alegre. Tinha um espírito jovem.
Mas, afinal, quem era esta mulher tão singular? Eunice era uma pessoa que havia feito um voto de celibato perante Deus. Não professara como freira. Não concordava, pessoalmente, com a existência de vida conventual. Para ela, não era necessário ser freira para dedicar-se aos outros. Em nova, havia sido enfermeira. Pronunciara, de todo o coração, o juramento de Florence Nightingale,  grande pioneira das enfermeiras, ao começar a sua carreira profissional5. E mantivera-se fiel a esse juramento. Havia, assim, sido enfermeira, desde a sua juventude, até à sua reforma. Cumprira tudo isso, muito séria e dedicadamente, como um apostolado. Depois de reformar-se, retirara-se para aquela aldeia, de onde a sua família era natural. Os seus parcos recursos financeiros, devido à sua vida simples  e pacata, bastavam-lhe para viver.  Tinha apenas algo de diferente  em relação a qualquer mulher daquele lugar: sendo um tanto excêntrica, usava vestidos de sevilhana, garridos, em tons alegres.
- Porque hei-de usar roupas escuras, se eu não gosto de cores escuras? – Perguntava a quem lhe falasse em tal assunto. – A vida deve ser alegre! Eu gosto de cores alegres e vivas, como tudo o que existe na Natureza!
-Ai... e tal... a Senhora já não tem idade para essas roupas...- aventurara-se uma das aldeãs a dizer-lhe, quando ela, com sessenta anos, ainda aparecia vestida de azul claro e branco. A pessoa em questão era mais nova do que Eunice, e vestia-se de cores pardacentas e trajes antiquados, sem graça nenhuma.
Alegremente, Eunice insurgira-se contra tamanho preconceito da sua interlocutora:
- Não tenho idade? Que conversa vem a ser essa? Quantos anos tem o Céu? E o mar? E não continuam  a ser tão azuis como sempre foram?  E as flores? E as ervas do campo? Acaso não continuam a nascer nas mesmas cores? Eu sou como elas: uma criação de Deus! Não há idades para uso desta ou daquela côr!
 E com este discurso lógico e simplista, calara a outra, a qual nunca mais lhe fizera tal conversa. Ao longo dos anos, todos os habitantes da aldeia se haviam acostumado a vê-la com os seus vestidos compridos, de cores alegres, e os seus xailes  a combinar. E não estranhavam: Eunice era assim mesmo!  E não eram vestidos velhos, os que ela usava: Eunice sabia costurar. Herdara uma antiga máquina de costura de sua mãe. E comprava tecidos belos, quando, de vez em quando, levada de boleia no carro de alguma daquelas famílias da aldeia, se deslocava à cidade, a fazer compras. Confeccionava ela própria as suas belas roupas, que sempre estavam ajustadas ao seu corpo esbelto.
Havia frequentemente um sorriso, naquele rosto marcado pelo tempo, mas belo. Os seus vivos olhos azuis sorriam tanto como os seus lábios finos. Sorria aos jovens, às crianças, aos mais velhos... Todos gostavam de Eunice naquele lugarejo.  Todos a veneravam e acatavam as suas opiniões,  como sendo as de uma pessoa sábia, experiente.  Os jovens, quando regressavam da escola, ao fim de cada tarde, não perdiam tempo a expôr dúvidas a seus pais: Eunice era a pessoa certa para os elucidar nalguma dúvida que tivessem.  Pois sabiam  que Eunice estudara, na sua juventude. Possuía conhecimentos de que mais ninguém, na aldeia, era detentor. E respondia sempre com muito agrado a qualquer pergunta que lhe fosse feita. Eunice não tinha falsos pudores, e ensinava também as raparigas da aldeia, no tocante a tudo o que dissesse respeito a assuntos íntimos femininos. Tornara-se a confidente ideal de algumas das jovens que, com propensões românticas próprias da adolescência, lhe submetiam os seus primeiros poemas... Falavam-lhe dos seus diários íntimos, iniciados havia pouco tempo, dos seus namoros, das suas ansiedades de jovens... Eunice dava conselhos a todas as que lhos pedissem... E gratificava-as sempre com um sorriso gentil. Não julgava ninguém, pois afirmava sempre que, para julgar, está Deus. E que a missão dela era simplesmente ajudar, na medida das suas capacidades.
Em toda a aldeia, não havia uma adolescente ou jovem mais velha que não visitasse Eunice, levando-lhe frequentemente um ramo de flores campestres (coisa que Eunice adorava), e que não se sentasse  à sua mesa, diante de uma boa chávena de chá, acompanhada de bolinhos que elas próprias confeccionavam, ou compravam, e levavam-lhe de bom coração. Eunice aceitava isso muito naturalmente. Essas sessões de tomada de chá, entre mulheres, eram muito bem vindas de sua parte, e incentivava-as a voltar a sua casa, sempre que o desejassem ou necessitassem.
As adultas da aldeia, mulheres sofridas, pediam-lhe, muita vez, mezinhas antigas, caseiras, ou algum outro remédio para as suas maleitas; uma gravidez inicialmente indesejada passava a ser algo digno de festa. A alegria e o espírito positivo de Eunice derrubava o mau humor, a tristeza, os receios... Ervas aromáticas diversas, que ela lhes fornecia, fervidas em chá,  davam remédio a dores de barriga, períodos atrasados, e outras coisas do mesmo estilo. Eunice ralhava-lhes bondosamente, incutindo-lhes mais fé! Nunca incentivara nenhuma delas a abortar, bem pelo contrário! Ela celebrava alegremente a vida, embora nunca tivesse sido mãe. Falava-lhes da Palavra de Deus, e demonstrava-lhes, com Ela, a Vontade Divina, em relação  a esses assuntos. Havia sabedoria em suas palavras.
Até os homens da aldeia sabiam que podiam confiar em Eunice, sabendo também, desde havia muito tempo, que dali só seriam ouvidos conselhos sábios e de pura e genuína amizade. Por isso, Eunice era amada e respeitada por todos eles, naquele lugar onde vivia.
Voltemos, no entanto,  a essa tarde em que Eunice, a sós com Deus, derramava a sua alma perante Ele.
Depois de orar algum tempo, Eunice, de posse de algumas respostas  da parte de Deus, decidiu pedir uma reunião com todos os moradores da aldeia. Vendo que Eunice avisara de que se tratava de algo muito sério, acorreram todos prontamente, tanto jovens como gente mais velha.
-Meus queridos amigos – diz Eunice, diante de todos eles ali reunidos – Vou ser directa. Todos vós sabeis que a minha idade já vai bastante avançada. Entendo, pois, que devo tomar certas disposições antes de partir deste mundo. Há coisas que, certamente, deverão constar de um testamento. Não tenho já nenhuma parentela, como sabeis, tendo sido filha única de meus pais.  Mas há coisas que preciso deixar escritas perante um notário...
-Amiga Eunice, se quiser, chamamos cá o notário, e ele vem cá!- Opina um dos pescadores, de nome Mário.
- Podem também levar-me lá ao cartório, nalgum dos vossos carrinhos, que eu pago a despesa, e ainda será melhor! – Replica Eunice.
-Claro, claro! E ele há-de lhe prestar todo o esclarecimento e toda a informação que fôr preciso!- responde Zé, outro dos pescadores mais velhos.
- Quero tomar disposições, enquanto ainda estou viva, quanto a esta casa. Se possível, para que fique como um lugar de acolhimento e socorro de quem o necessite. Ou até, e também, para reuniões, para todos vocês, quando houver coisas a decidir entre todos!
- Belíssima ideia!- Opina Túlia. – E podemos decidir, também, assim, quem cuidará desta sua casinha!
- Isso, vocês todas, com a concordância dos homens da aldeia, podereis decidi-lo em conjunto.- Responde Eunice. -Peço-vos, portanto, que continueis a vir aqui, e podereis cá orar; podereis aqui acolher quem seja necessário acolher!
Durante alguma conversa mais,  Eunice  indagou às mais jovens da aldeia sobre quais delas estariam de acordo em herdar os seus vestidos sevilhanos, os seus xailes e colares, que ela desejava que não fossem levados dali, nem jogados fora. Todas concordaram em receber pelo menos um cada uma. Mesmo que não os vestissem, ou usassem, guardá-los-iam com todo o carinho nos seus baús, como recordação.
Havia também um belo espólio, de livros, uns mais antigos, outros mais recentes,  e de discos  de música clássica. Ficaria ali tudo isso, à disposição de todos, para ser utilizado pela comunidade, sempre que quisessem ou disso necessitassem. Podiam ficar ali, a ler, o tempo que fosse preciso, ou a escutar a música, quando assim o determinassem.
Dias depois, Eunice preparou, com ajuda do notário da cidade  mais cercana, o seu testamento.
A sua casinha, quando ela partisse, passaria a pertencer à comunidade de pescadores, a quem ela a legava, assim como todo o seu conteúdo. Com a condição de que mantivessem a casinha cuidada e limpa, e formassem quanto antes uma associação, também ela reconhecida no notário.  A essa próxima associação, Eunice legava fundos monetários, provenientes das suas economias, após retirar apenas o necessário para o seu funeral, para quando esse ocorresse. E deviam ficar dois ou três dos pescadores como responsáveis pelo cumprimento dessa cláusula. Eunice deixava como última vontade sua que o seu funeral teria de ser algo humilde e simples, querendo que os seus restos mortais fossem para o chão. Nada de luxos.
- Flores, por favor, prometam-me que as deixam aqui, em jarras! Para que esta casinha continue alegre, como sempre! Façam-no em minha memória! Não precisa florir campas no cemitério! Sabem que detesto isso!
-Prometido, querida Irmã! Foram várias vozes unânimes a responder-lhe  em coro.
- E venham tomar chá aqui, entre vários de vocês, sempre que assim o entendam!- Pediu ela.
Tudo foi tratado e disposto conforme Eunice desejava...
 Até que um dia, alguns meses depois, Eunice foi espiritualmente avisada de que estava chegando a hora. Já que queria despedir-se dos seus amigos, Deus mandou  que os chamasse. Eunice assim fez.  Quis sair para o terraço, rodeada por todos eles, velhos e novos. Estava bem vestida e composta. Era aquela a roupa com que deveria ficar. Estava pronta.
Sentada no terraço, rodeada por todos eles, cuja maioria tinha a expressão séria ou até lágrimas a assomar nos olhos, ela sorria-lhes, animava-os: Não os queria ver tristes naquela despedida! Viu então dois anjos de vestes resplandecentes, saindo de uma viatura que parou ao lado da sua porta.  Tinha sentido a sua proximidade ainda antes de vê-los. Formulou uma prece em voz baixa. Marinela apercebeu-se da situação também, tal como Túlia.
- Meus queridos: chegou a hora! Já sabem o que têm a fazer quando eu deixar o corpo! Não chorem por mim! Fui muito feliz, tive uma vida longa! Obrigada a todos pelo vosso carinho, respeito e amizade! Mas está na hora de partir! Adeus, meus queridos! Pensem em mim, e sigam o meu exemplo! Continuem sendo unidos! Eu vou continuar a ser feliz, lá com Deus! Adeus! Adeus!
Marinela, então viu: os anjos ampararam por instantes Eunice, cuja alma deixou o corpo, com um leve estremecimento deste. Havia agora duas Eunices: uma sorridente, de pé, apoiada nos anjos que a rodeavam, e  a qual lhes acenava, sorridente, indo embora devagarinho, dali para a viatura celestial, e coberta de uma linda túnica alva e resplandecente. Toda ela brilhava. A outra Eunice, corpo já sem vida, com o seu vestido de sevilhana garrido, e tornando-se rapidamente duro, recostada na cadeira, com a cabeça pendida para um lado.
Marinela sorriu tristemente, tal como Túlia. A sua grande amiga e irmã Eunice deixara-os!
Eunice partiu assim, para a Eternidade, rumo ao seu Eterno Lar, ao encontro de Jesus, que lá a esperava  de braços abertos! Ela cumprira integralmente o seu longo apostolado. Agora, estava na hora de receber a sua recompensa, a sua coroa de Glória!
A comunidade de pescadores e aldeões subsiste ainda. Tudo tem sido feito como Eunice havia disposto. E a sua linda memória continua viva, naquela aldeia, e naquela casinha do promontório junto ao farol.

FIM


Nely, 16 de Agosto 2017


Anotações :
1)    e 2) :Ambas as personagens, assim como a personagem Eunice, fazem parte do conto escrito e apresentado anteriormente, intitulado “Alma à deriva”.
3): Conforme descrito no conto “Alma à Deriva”, em que Marinela é a personagem principal.
4) Pormenor referido no conto “Alma à Deriva”.
5) Florence Nightingale, célebre pioneira originária de famílias ricas inglesas, criou e instituiu esse juramento, que era obrigatório e ritual no início de carreira de qualquer enfermeira antigamente, tal como os médicos proferiam o juramento de Hipócrates.
           ver : https://pt.wikipedia.org/wiki/Florence_Nightingale
Advertência: Tal como o conto precedente, esta história é ficção integral, na sua totalidade.

sábado, 22 de julho de 2017

Escrever - Prosa Poética

Escrever

Escrever…Gesto da mão que, mais do que ao cérebro, acompanha a alma, no seu mais profundo sentir!
Traçar,qual passe de magia, caracteres e palavras, frases, no papel…
Sublime acção que nos projecta em direcção de outrem!
Desnudar do mais íntimo de nós, que se chama comunicar…
Comungar de ideias e sentimentos… Sentir que, como uma ponte lançada, há algo que nos leva ao encontro dos outros…
Algo que eu mesma construo, que tu mesmo constróis. Cada qual um bocado…É assim!
Escrever…Transformar em arte, das mais perfeitas, o trabalho que se tem com as palavras, a cada espaço… Resultando em mensagem, em harmonia e em beleza, no seu mais elevado conceito!
Mas, acima de tudo, escrever é dar-se, partilhar! Quanto mais não seja,tudo o que nos sufoca, para que deixe de o fazer! Mas também, ofertar, com alegria, aquilo que nos é dado!
Para que essa alegria possa florescer em sorriso aberto, do outro lado dessa ponte…
E assim, então, sim! Nasce a comunicação!
Então, sim, teremos alcançado a nossa verdadeira meta!
Nely

(Do meu livro de prosas poéticas "Vibrações")

segunda-feira, 3 de julho de 2017

PODES - Prosas Poéticas

PODES

Podes semear de flores o caminho por onde seguires... flores que serão os sorrisos que distribuas, qual semeador, ao teu redor...
Se os teus sorrisos saírem do mais  profundo do teu coração...
Podes transmitir paz e alegria com o teu olhar... E, se o teu olhar  souber transmitir calor, podes contribuir para a felicidade de quem o captar!
Podes estender a mão a quem necessita de um gesto, apenas...
Podes ser luz, brilho e felicidade...
Podes ser estrela, no firmamento de alguém!
E podes, no Mundo, fazer tu a diferença!



Nely,
03/ 07/ 2017

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Se Quiseres

Se quiseres, poderás ver nascer em tua vida a amizade... Poderás deslumbrar-te com momentos puros de felicidade inesperada!
Se quiseres, poderás viver instantes mais belos do que quaisquer sonhos!
Se quiseres... o arco-íris brilhará no teu coração!
Basta quereres construir a ponte que te leva até ao outro lado do rio da Vida, empenhando-te em fazer chegar a outrem  essa ponte!
Se quiseres, podes atravessar o rio e ir ter com aqueles que esperam por ti!
Se quiseres, basta que abras o teu coração, e que nele sintas o fluir do carinho e da alegria por aqueles que se abeirem de ti!
Se quiseres, poderás ser feliz!

Manuela Helena
(Nely)
29/06/2017

Eydie Gormé - De corazon a corazon

Camilo Sesto - Déjame participar en tu juego (TaT)

Camilo Sesto Sin Remedio

domingo, 25 de junho de 2017

Il Divo - Quién Será

Il Divo La Vida Sin Amor

Scorpions - Rhythm Of Love

Scorpions - No one like you (lyrics)

Scorpions - When You Came Into My Life (Lyrics)

Santana - Flor de Luna

EUROPA - Santana

R.E.M. - Losing My Religion (Official Music Video)

terça-feira, 30 de maio de 2017

GIANNI MORANDI - Per una notte no

Cantar de Amigos - Ricardo Néné -cantou "Bailar Pegados" 4 de Novembro d...

♫ Gianni Morandi ♪ Chimera (Live TV Show) ♫ Video & Audio Restaurati HD

ESC 1970 03 - Italy - Gianni Morandi - Occhi Di Ragazza

♫ Gianni Morandi ♪ Non Son Degno Di Te ♫ Video & Audio Restaurati

Pino Donaggio - Io Che Non Vivo Senza Te

Chitarra Suona Più Piano - Nicola Di Bari

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conto : À DESCOBERTA DO MUNDO INVISÍVEL

Ao meu filho, Marcos Carlos:

À DESCOBERTA DO MUNDO INVISÍVEL


Valnice e Pedro são mãe e filho. Ela, na casa dos quarenta; ele, na casa dos vinte... Podem, à primeira vista, parecer uma mono-família normal... Mas são bem mais do que isso: Ambos desenvolveram uma relação que vai mais além da simples relação de mãe e filho: são profundamente amigos. Tratam-se ambos pelos nomes próprios. Falam de tudo e mais alguma coisa. Não têm preconceitos, quanto à linguagem, nem quanto aos temas a abordar. O respeito e o carinho, no entanto, são fortes e mantêem-se entre os dois. Saem quase sempre os dois juntos, e para todo o lado. Ambos aprendem um com o outro, constantemente. Vivem numa vila à beira-mar.
Os dois andam pela praia local, numa certa noite. É um hábito que ambos criaram, há algum tempo. Resolveram, desta vez, e de comum acordo, vir dar uma volta, afim de que Valnice possa ali fazer um pequeno treino de concentração... É o início do Outono, e as noites à beira-mar já vão sendo bastante frescas. Eles passam por uma zona da praia em que há uma passadeira elevada, com um restrito espaço de descanso, com alguns bancos. Nesse momento, está tudo deserto. Costuma ser uma zona sossegada, boa para isso. Descem a passadeira, e dirigem-se perto da água. Está bastante escuro, nessa zona, e a luz do luar é fraquinha. Valnice concentra-se, agora, diante do mar... Olha para a água, fixamente, durante o máximo de tempo que consegue. Várias formas estranhas, como peixes e baleias pequenas, e como sereias, se erguem, em transparência subtil, na rebentação...  São presenças espirituais... O ruído das ondas torna-se o ruído das vozes desses milhares de seres espirituais marinhos, desconhecidos de Valnice até à data, e que parecem estar em guerra uns contra os outros, ou contra quem esteja na praia, ali mesmo ao pé da água... Parece uma manifestação contra eles... Mas não é... Valnice sente intuitivamente que  é apenas um aviso: Perigo! Algo está para dar-se... Há um quê de inquietação no ar... Valnice nunca presenciara nada igual... Quem havia de dizer que nas águas se agitava todo esse mundo desconhecido?
Pedro interpela a mãe, em voz baixa:
- Então, Val? Estás a conseguir ver alguma coisa?
Ela, alerta, responde-lhe no mesmo tom. Pois, nunca se sabe quem pode andar por ali, e eles não querem que ninguém partilhe a conversa deles:
- Ó Pedro! Sim! E nunca vi nada igual! Nunca pensei!
- Concentraste-te bem, Val?
- Sim! O máximo possível! Mas ainda tenho alguma dificuldade... No entanto, vi uma grande mistura de coisas ou seres a erguer-se da rebentação, em transparência e em sombra!
- Isso foi só uma amostra! Se continuares, todos os dias, um pouco, a treinar a tua visão espiritual, vais descobrir muita coisa  com que nem sonhas! Não só aqui ao pé do mar! Noutros locais também!
- Pois, calculo que assim seja! Em toda a parte deve haver muito que descobrir! Até porque já, tanto tu como eu, sentimos presenças estranhas, e falta de forças nas pernas, dores de cabeça, em hipermercados e outras lojas grandes! Deves estar lembrado, que já tínhamos falado nisso!
- Tens toda a razão! Agora, se não te importas, vamos, rápido, pois estou a sentir alterações no ambiente...
-Há algo de inquietação, de alerta no ar! Uma sensação de perigo...
 - Sim! Ainda bem que te apercebeste, Val! Temos de voltar a passar pela passadeira elevada... e vamos ter companhia desta vez... já os estou a sentir aproximar-se...
-Como sabes? Quem são?
-  Sei, pelas ondas de energia negativa que se aproximam e que consegui captar... Quem são, não sei... Não é coisa boa, é só o que te posso confirmar! Mas não tenhas medo! Deus está connosco! Quando passarmos pela passadeira, não te desvies de mim, nem fales, e não olhes sequer para os lados! Dás-me apenas a mão e segues-me, ok? Agora, Senhor, que o sangue de Jesus Cristo nos cubra!
-Está bem!Amén!
Tudo isto foi dito em voz baixa, em tom de murmúrio segredado. Não lhes convém serem ouvidos.
Vão de volta, e não há iluminação alguma no passadiço de madeira. Pelo contrário, surgiu também,  agora, uma espécie de neblina densa e estranha, nesse local onde eles são forçados a passar, e não têem como a evitar. Num pequeno banco dessa passagem, vêem-se duas formas, supostamente humanas, como que envoltas ainda nessa forte neblina, que agora se está dissipando, mas das quais não se distinguem traços de rosto. Essas presenças estão sentadas, observando-os, enquanto eles passam, mudos e de mãos dadas. Avançam o mais rápido que conseguem, sem olhar para os lados, como combinaram, e sem se deterem. À passagem por esse perímetro da passadeira de madeira, sobre as dunas, quase rente a essas personagens estranhas, sentem um frio gélido inusual. Na praia, há pouco, não fazia frio, apesar da leve brisa marítima que se fazia sentir. Descem da passadeira. Os estrambólicos seres desapareceram de novo.
Valnice e Pedro seguem rapidamente pelo caminho pedestre, saindo da praia. Quando já estão junto à estrada, e aos primeiros prédios da povoação, Valnice interroga Pedro, falando ainda baixinho:
- Que personagens eram aquelas, pá? Até senti um frio gélido! E surgiram do nada!
- Não te avisei? Eu também senti esse frio! Provinha deles! Não sei quem eram, mas de humanos, só tinham o disfarce da forma...
- Nem se lhes via rosto algum! Que estranho!
-Também me apercebi disso! Estavam a tentar camuflar-se inicialmente!
- Primeiro, havia como que uma espécie de nevoeiro, ali no sítio onde eles surgiram...
-Sim! Eram eles a tentar ficar invisíveis para connosco... A ideia deles era passarem despercebidos, mesmo! Mas captámo-los, e eles ficaram assim, pois não tiveram tempo para mais...
-Apre! Que encontro mais estranho! Parecia que nos estavam espiando!
- Sim! Estavam mesmo!
- Credo! Se já nem se pode vir dar um passeio, num sítio tão pacato!
-Tu nem fazes ideia do que há de personagens dessas por aí! E é um sítio pacato, tal como dizes! Nas cidades, deve ser mil vezes pior!
- Dispenso encontros desses! Chiça!
- Também eu, podes crer! Mas mesmo de dia, em qualquer lado, nos cruzamos com “gente dessa”! Enfim: coisas estrambólicas com forma de gente, se me faço entender! Assim como nós captamos as ondas negativas, o lado da maldade deles, e as más intenções, eles também dão por nós! Inimigos mortais: vida e morte! Mal e Bem! Eles são do lado do Mal, podes ter a certeza!
- Não tenho mesmo dúvidas! Vamos até casa?
- Sim! Chega de cenas estranhas por hoje!
Valnice e Pedro vão efectivamente para sua casa, onde a luz deixada acesa na entrada os acolhe, e a atmosfera morna do ambiente os reconforta. É o início do Outono, e embora não faça propriamente frio, o sucedido deixou-os com vontade de tomar algo quente, reconfortante. Depressa, Valnice prepara uma caneca de leite quente para cada um deles.
Sentados à mesa, na cozinha, conversam ainda:
-Agora a seguir, vou dar um duche, ou melhor dizendo, um banho de descarrego!- Lembra-se Valnice.
-Até eu preciso dar um! – Responde Pedro, com um gesto de concordância.
- Creio que sim! Vamos aliviar-nos desse mau encontro, dessas energias negativas que tentaram colar-se a nós!- Responde Valnice, convicta.
- Mas lembra-te de que em tudo, há um lado positivo: esta noite, certamente, aprendeste algo mais, sobre o mundo invisível que nos rodeia!
- Não tenhas dúvidas que aprendi! A aprendizagem é sempre útil!
- Neste caso, ainda mais! Mas ainda vais ter de aprender a defender-te e a proteger-te eficazmente contra esse tipo de forças maléficas! Se não te protegeres, sugam-te a energia num ápice! E nunca sabes quando isso pode suceder!
- Mesmo!
- E não só se dedicam a roubar a energia, como a neutralizar-nos, combater-nos, fazerem-nos mal! Há que ser previdente e saber evitar os ataques deles! Esta é uma batalha constante, que afecta o mundo físico visível, mas é sempre travada no invisível!
-Bem sei! O mundo espiritual é bem grande e desconhecido! E além disso, misterioso!
- Pois é! Há, no entanto, coisas que nos vão sendo reveladas, e há maneiras de nos treinarmos, de nos protegermos contra todas essas forças desconhecidas e maléficas! A praia, de dia, é óptima para ajudar a nossa mente a limpar-se, acalmar os nervos, treinar a concentração, respirar fundo!
- Já vi gente a fazer Reiki na praia!
- Também eu! Bom: vais tu primeiro ao banho, ou vou eu?
- Vai lá tu primeiro, Pedro! Eu já vou! Vou prepar a água quente com sal para ti, e depois para mim! E as roupas para vestirmos depois do banho!
- Certo!
Valnice fica arrumando a cozinha, prepara um pequeno jarro com água morna e sal grosso, levando-o para a casa de banho, onde Pedro já se encontra, a descalçar-se.
- Aqui tens a água com sal para deitares por cima!
-Obrigada, Val!
Valnice sai da casa de banho, para a cozinha novamente, e prepara outra vazilha pequena com água  bem quente e sal grosso. Depois, ruma ao quarto do filho, a preparar a roupa de dormir que ele vai vestir depois desse banho.
Entretanto, Pedro sai ele próprio da casa de banho, envolto num roupão de banho, e ruma ao seu  quarto, para vestir um pijama. Seguidamente, ela faz o mesmo no seu próprio quarto e dirige-se finalmente à casa de banho, levando  a água com sal que preparou para si.
O dia a seguir vai ter mais actividades, programadas já com antecedência, para esses dois familiares que se adoram e preparam tudo em comum. Combinaram ir às compras juntos, por exemplo, como fazem sempre que disso necessitam.
Alguns dias depois, Pedro e Valnice vão a um serviço público. Várias pessoas se encontram ali, umas sentadas, outras de pé,  e Valnice repara numa mulher, ainda jovem, que frequentemente, olha para ela  e para Pedro, com um olhar estranho. Pedro também capta o olhar da desconhecida. E fixa nela o seu olhar. A outra, incomodada, desvia o seu... várias vezes, a cena repete-se. Quando saem dali, Pedro fala:
- Viste  a tipa aquela?
- Sim! Que raio? Não parava de olhar, ora para mim, ora para ti... Que raio?
-Uma feiticeira! Captei-lhe os pensamentos! Falámos ambos com o olhar.
- Por isso ela não te tirava os olhos de cima!
- Ela estava curiosa a meu respeito! Apercebeu-se de que sou uma pessoa  de personalidade forte!  Mandei-lhe um recado: - Não te metas comigo! Captei a tua jogada!
-E ela?
-Revelou ser uma feiticeira que ficou espantada por eu ser um ser humano transmissor de luz! E por a ter descoberto!
- Eh, pá!
- Dessa aí, não tenho medo! Ela não se atreve comigo! Sou mais forte!
- Ainda bem! Mudando de assunto: Reparei numa coisa... havia uma planta sobre um móvel, nessa divisão... sem gota de água... e ainda há dias, que ali vim, a planta estava viçosa! Se continuar assim, murcha!
- Também reparei na planta! Aquilo ali, é um serviço público! Sempre têm quem faça a limpeza e deite água nas plantas... Ela não tem falta de água, digo-te eu!
- Então, que se passa?
- Sugaram as forças à planta, com o olhar! Alguém estaria, por ali, com certeza, com défice de energia. Chuparam-lhe a energia quase toda! Pobre planta! E não me admirava nada que tivesse sido a tipa aquela... ou alguma das “aves raras” com que cruzamos, e que costumam ser aquilo que se chama de “vampiros psíquicos”! Enquanto o fazem a uma planta, não o fazem a nenhum de nós!
- Safa! Mesmo! Já ouvi falar desses sugadores de energia alheia, sim!
- Mas, olha, Val: Aí tens outro exercício de concentração que podes praticar! E lembra-te de que os nossos pensamentos também emitem vibrações! Se conseguires concentrar-te  a olhar para uma planta  e falar mentalmente com ela, ela capta a vibração energética do teu pensamento! E se lhe falares audivelmente, também! Se necessitares de um pouco de energia, porque te sintas mesmo sem forças, e estiveres ao pé de uma planta viçosa, pede-lhe gentilmente, em pensamento, mas olhando para ela, que te conceda um pouco da sua energia vital! Ela depois, logo recupera! Verás que a planta vai vibrar quase imperceptivelmente, e vais sentir regressar a tua própria energia daí a pouco!
- Verdade? Que fascinante! Há quem diga que falar com as plantas as deixa mais viçosas! Não sabia até que ponto isso era possível... mas vejo que tem uma base lógica! E sabes que também adoro plantas, porque elas conferem mais beleza e vida, mais harmonia a qualquer ambiente!
-Sim: ao fim ao cabo, nós somos energia! E elas também! Junto ao nosso corpo físico, temos um envoltório energético, dividido em várias partes, a que se chama chackras. Quando andamos em baixo de forma, ou nervosos, por exemplo, ou doentes, é porque algum, ou mais do que um, desses chackras está ou estão descontrolados, desequilibrados!
- As coisas que tu sabes, Pedro! Meu Deus!
- Tu também já sabes muitas coisas, Val!
- Pois sim, mas talvez não sejam as mesmas!
- Nem sempre coincidimos nos nossos conhecimentos, é verdade! Mas podemos aprender um com o outro, e preenchermos ambos essas lacunas!
- Com efeito!Torna-se um saudável intercâmbio! Sabes porque existe o “fosso entre gerações”? Precisamente porque as pessoas, em família e não só, não têm a humildade de reconhecer que todos precisamos uns dos outros, e todos podemos aprender algo, uns com os outros!
- Tens toda a razão! E esse tal “fosso” é sobretudo espiritual! Voltando ao tema dos chackras,  vou mostrar-te uns sites interessantes, com matérias que podes ler, quando quiseres, ou que tenhas um pouco de tempo disponível... Vais aprender mais umas coisas, se estiveres de acordo!
- Boa! Esse tema dos chackras interessa-me e bastante!
- É fascinante, vais ver! Vais gostar, de certeza!
O dia a dia desses dois familiares continua, num quotidiano que poderá parecer vulgar a quem os conhece de vista, mas não priva com eles.
Numa outra noite em que eles estão em casa, Pedro sente algo estranho no ar, e sai para o terraço, para indagar. Valnice segue-o curiosa, como sempre que Pedro detecta anormalidades espirituais no ambiente. O espectáculo que ela vê nos ares é minimamente estranho:
Formas etéreas, em formato de trapézio, movem-se. Pedro faz sinal a Valnice, silenciosamente, pondo um indicador sobre a própria boca fechada, e não pára de observar aquilo, concentradamente. Algumas dessas formas vão reduzindo o seu tamanho, outras aumentam. Algumas desaparecem misteriosamente, tal como apareceram... Passado um longo e silencioso momento, Pedro faz sinal a Valnice, e voltam para dentro de casa. Aí, conversam sobre esse estranho fenómeno.
-Que coisas estrambólicas eram aquelas, Pedro? Percebeste alguma coisa?
- Tu só conseguiste ver formas estrambólicas, Val?
- Sim! Pareciam trapézios de nuvens a lutar uns contra os outros, ou algo do estilo...
- Eram dragões! Potências espirituais! Captaram-me, e estavam a tentar aproximar-se, mas com o olhar, mandei-os embora, e desistiram... Não notaste que enfraqueceram?
- Sim!
-Porque queriam vir atacar-me, mas a minha protecção espiritual, visível para eles, os desencorajou logo! Viram que estou guardado, acompanhado e rodeado da protecção angelical que Deus tem posto ao meu redor!
- Boa! Mas essas coisas metem um bocado de respeito, pá!
- Mas com os escolhidos de Deus, não se metem! Não têm sequer permissão para tal! - Ora, ainda bem! Pois olha que é a primeira vez, na vida, que assisto a tal espectáculo, e nem sequer estava a compreender o que era, porque só via aquelas formas...
- Isso é porque tu ainda não tens a tua visão espiritual suficientemente desenvolvida, para conseguires discernir as verdadeiras formas. Por isso vês as coisas tipo transparente, ou tipo nublado, ainda!
- Deve ser isso! Ainda bem que te tenho a ti para me explicares esses pormenores dessas cenas estranhas!
- Claro! É sempre bom termos por perto quem saiba mais do que nós, tenha capacidade para ver, sentir, captar e discernir as coisas do mundo invisível, e que nos ajude a entendê-las, e também que nos aconselhe em como lidar com todo esse aprendizado, todas essas descobertas!
- Por isso, muita gente, sem discernimento, mete-se com o mundo espiritual, e faz asneiras...
-Sim! Asneiras graves que podem custar-lhes a própria vida, ou prejudicar as dos outros!
-Outro dia, a nossa amiga Armanda estava a falar comigo acerca de coisas dessas, e ela contou-me que Deus lhe deu um recado para outra pessoa. Deus disse-lhe que os seres humanos não sabem o que existe no mundo oculto, no mundo invisível. E que não devem provocar esse mundo e as forças diversas que nele exitem! Pois muita gente tem feito disparates, ao não respeitar o mundo espiritual! Ela disse que Deus até lhe alterou a voz, e o que saíu dela foi a voz do Espírito Santo, que estava bastante zangado!
-Ela tem razão no que te disse! E se esse recado veio mesmo de Deus, como eu também creio, melhor será que respeitem a Sua admoestação! Com Deus não se brinca! A Justiça Divina pode ser implacável, se fôr preciso!
- Cá por mim, o melhor é não desobedecer a Deus! Se o Senhor  manda ter cuidado, é porque Ele sabe todas as coisas, e nos quer poupar  em relação a problemas grandes, e a terríveis consequências de interferir com o oculto!
- Pois claro! Por isso, tudo o que fizermos teremos de o fazer com cautela, e muito a sério! E quando tivermos a absoluta certeza que Deus está connosco no que empreendermos! Há que adquirir conhecimento suficiente que nos ajude a defender-nos do nosso inimigo, que é espiritual. Mas de modo comedido, com cautela, e sob a protecção de Deus!
Muitas das vezes, a vida destas duas pessoas é um decorrer de dias rotineiros, mas de vez em quando, há coisas que lhes sucedem, ou coisas que presenciam que os fazem dialogar sobre elas, para além do que compõe o seu quotidiano. E assim, certa noite, ao regressar de um pequeno passeio com dois amigos seus, Pedro vem um bocado alterado.
- Val! Nem sonhas o que eu e o João vimos, há poucos minutos!
- Que foi, Pedro?
- Vimos ambos uma nave espacial a desandar a toda a velocidade mesmo à nossa frente! Eu vi,  e ele também!
- E não estamos a fantasiar!- Corrobora João, que é um ano mais velho do que Pedro.
-Se vocês o dizem! Quem sou eu para duvidar!
-Ainda bem que você acredita em nós, Valnice! Se fossem os nossos pais, iam dizer logo que andamos  a fantasiar ou a gozar com a cara deles!- Diz Anselmo, o outro amigo de Pedro.
- Nem toda a gente acredita nessas coisas, como vocês sabem! Mas eu acredito, porque também já vi algumas coisas estranhas desse género, no céu, e bem perto!- Responde Valnice. – Além disso, há pais que acham que, se os rapazes andam todos juntos, a tendência deles é quererem pregar partidas aos pais ou a outras pessoas que os escutem e lhes dêem crédito!
- Mas eu juro, Val, que nós não estamos gozando!- Continua Pedro, com ar sério e convicto. – Quantas coisas já temos presenciado juntos, tu e eu?
- Por isso mesmo é que eu acredito no que vocês me estão dizendo! Sei bem que há presenças e fenómenos estranhos ao nosso redor, e em toda a parte! E que por vezes, isso é visível e perceptível!
-E também sabemos que há malta que realmente, leva o tempo a pregar partidas e inventar coisas, só para se armarem em bons, e rir da cara e da credulidade de outros, inclusive dos próprios pais!- Diz João, com um sorriso. – Ao fim ao cabo, já topei com malta dessa, e mandei-os bugiar, porque estava na cara que eles estavam gozando!
- Pois! Bem sei quem são esses! Só sabem armar confusão, com essa mania dessas brincadeiras descabidas! A mim também tentaram fazê-lo e mandei-os ver se chovia!- Exclama Anselmo.
 -Bom, o que é facto, é que estávamos há pouco os três juntos, aqui perto, e vimos como que um foguete a voar à nossa frente, a grande velocidade! – Diz Pedro.
- Sim! Todos três ficámos como que pregados ao chão ao ver isso! – Responde ainda Anselmo.
- Como todos nós aqui presentes sabemos, não estamos sós no Universo, nós, seres humanos! Há outras criaturas para além das terrestres, ao redor do Planeta Terra e não só!
Os jovens concordaram, e cada qual dizia o que pensava e o que julgava saber a esse respeito, o que lera ou ouvira dizer...
A conversa continuou nesse tom, enquanto os dois jovens ficaram sentados ao pé de Valnice e de Pedro, e estes dois, jantavam, para depois os jovens irem todos juntos dar uma volta. Valnice preferiu ficar em casa, pois no dia a seguir, teria muito trabalho, e necessitava descansar.
Muitas outras coisas desse género são vistas e discutidas, amiúde, entre mãe e filho, pois eles sabem que o mundo invisível, por vezes, se torna não só visível mas cognoscível para eles e para muitas outras pessoas  como eles.
Dia a dia, continuam a partilhar experiências, a discutir casos e assuntos que tanto têm cariz espiritual como outros que o não têm. Mas que os interessam a ambos. Ambos gostam de expôr um ao outro o seu parecer, trocar ideias, aprofundar assuntos e temas das mais variadas esferas: sociais, políticos, desportivos, espirituais, e inclusive do mundo das artes  plásticas e da música. Todas essas coisas os unem e consolidam a amizade e a relação profunda, entre mãe e filho, de ambos.


FIM




Nely, Maio 2017


domingo, 7 de maio de 2017

Conto: UMA NOVA VIDA

“A Vida só é possível reinventada.”- Cecília Meireles
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.”- Jesus*


UMA  NOVA  VIDA

Eugénia passeia lentamente, à beira-mar... Perturbada ainda com o que lhe sucedeu há cerca de dois meses, saiu de casa, com o intuito de espairecer um pouco. Resolve sentar-se, momentaneamente, um pouco mais acima, na areia seca. Dá assim meia-volta, e vem para o lugar pretendido. O mar está esplêndido, com o radiante sol primaveril a brilhar, sem o obstáculo de qualquer nuvem.
Eugénia gosta imenso da Primavera. Tudo, nessa estação do ano, é renovação. Ela fica olhando para o mar por bastante tempo. Não há, na praia, senão uns escassos turistas, que nem sequer estão perto... Melhor assim! Nada interrompe os seus pensamentos.  Duas horas passam, assim, sem que ela dê por isso... As ondas, rasteirinhas, vêm morrer na areia, com o seu habitual ruído cavo, perpetuando a canção do mar. O sol refulge espectacularmente nas águas. Ao longe, alguém se aventurou num barquinho à vela, que, por momentos, se mantém ao alcance da vista, minúsculo e poético vulto triangular... Uma ligeira e agradável brisa remexe os cabelos negros, lisos e curtos de Eugénia...
Em que pensa Eugénia, tão absorvida?  Pensa que, efectivamente, aquilo que lhe têm dito várias pessoas, acerca do mar, bate certo com o que, agora, ela experiência: O mar, com todas as suas reconhecidas características, produz, na pessoa que junto a ele permaneça, por pouco tempo que seja, o salutar efeito de acalmar e ajudar a esvaziar a mente, ou até, meditar, inspirar-se... Quantas canções há, que falam do mar?! Quantos poetas sobre ele escrevem?! Quantos pintores o retratam?!
Nesses momentos, a paisagem marítima e os seus sons naturais falam-lhe de eternidade, continuidade, paz, beleza... falam-lhe de Deus, esse Deus para ela ainda um tanto desconhecido, Criador dessa Natureza no meio da qual ela se sente aliviada dos seus medos, mágoas, tristezas...
No meio da sua meditação, pensa ainda:
- Como será, vir aqui, de noite? Certamente, não deve cá vir ninguém! Quem se aventura, de noite, a chegar-se perto do mar? Só pescadores, certamente... E será que eles ainda partem, para a pesca, aqui da praia? Deve ser interessante passear ao luar, rente às ondas...
Mais calma, reflecte acerca do rumo a dar à  sua vida... Com vinte e nove anos, solteira, podia ter uma vida melhor... Mas, porém, dá-se agora conta de a que ponto foi ingénua, e demasiado confiante em quem tinha por perto... Podia ter evitado a situação em que se encontra actualmente... Bem diz o povo que “é melhor estar só do que mal acompanhado”!  Terá de ser cautelosa daí em diante, na forma de se relacionar com as pessoas à sua volta, para não voltar a envolver-se com ninguém que a possa ludibriar e prejudicar. Está aprendendo, a esse custo, uma dura lição!
Teve, até agora, duas opções, pela frente: partir daquele lugar, onde lhe aconteceram coisas desagradáveis, viajando para algum outro sítio, onde não seja conhecida... Onde possa encontrar paz... Ou ficar, e enfrentar, novamente, talvez, e com a possibilidade de insucesso, e consequentemente, de mais sofrimento, quem a levou à situação péssima a que chegou...
Experimentou, antes desses acontecimentos desagradáveis, tentar guiar-se pela religião de sua família. Encontrou, em si mesma, um vazio que os gestos  e práticas rituais não preencheram. Ela buscou em vários lugares,  em congregações diversas, uma resposta. Falaram-lhe de uma verdade que os comportamentos ao seu redor desmentiram... Ficou com pouca ou nenhuma vontade de se aventurar em congregações religiosas de qualquer espécie. Onde se encontra, então, a única, a autêntica Verdade? Certamente, não deve ser em nenhum desses lugares! Pareceu-lhe, há pouco, que a Natureza lhe queria falar dessa Verdade inefável, e notou que isso lhe adoçou, por algum tempo, a disposição... Dizia o célebre escritor português, Raul Brandão, numa das suas obras, e que Eugénia havia lido havia já algum tempo, que “talvez a poesia íntima, e ignorada, seja a mais bela, a que Deus escuta”1... Então, essa sinfonia das ondas, que ela escuta, ao passear e sentar-se à beira-mar, é poesia pura! Grandiosa! Eugénia sorri: É também a voz do Verdadeiro Deus a falar-lhe! Ainda lhe falta descobrir mais algumas coisas, para sentir-se liberta, pensa ela. Falta-lhe, também, e sobretudo, saber como expressar-se, diante dessa grandeza que a Natureza lhe revela...
Mas as coisas desagradáveis que lhe sucederam há pouco tempo levam-na a perguntar-se a si mesma: -Porque é que Deus não interferiu com algo, para impedir os acontecimentos que lhe provocaram tanta comoção? Porque teve ela que passar por experiências tão dolorosas e assustadoras? -Interroga-se  ainda Eugénia.
 Depois do vazio e frustração de uma religião que nada de bom lhe trouxe, a constante necessidade de encontrar paz interior  a levou a envolver-se  em outras práticas que, ao princípio, lhe  provocavam curiosidade... Foi assim adentrando-se  e familiarizando-se com ambientes como o de um terreiro  de  candomblé2, onde chegou a apanhar, em certa sessão, um valente susto: Há forças malévolas e superiores à do ser humano manifestando-se  nesses lugares...  E ela presenciou uma dessas manifestações por primeira vez na vida. Assustou-se realmente. Não gostou, obviamente, e quis ir embora... Não sentiu, por isso, paz, evidentemente, nem obteve qualquer resposta às suas grandes interrogações existenciais. Mas o companheiro, que estava lá com ela, forçou Eugénia  a assistir até ao fim, e quis depois, servir-se dela, para uma pseudo-sessão de espiritismo, já em casa, usando de violência: Ela negou-se a tal prática e revoltou-se. Ele agrediu-a. De tal forma que ela, agredida e posta de imediato, por esse companheiro,  na rua, da casa onde vivia com ele, foi parar ao hospital, com a bondosa e providencial ajuda de pessoas conhecidas, que iam passando na rua e se disponibilizaram de imediato em socorrê-la....
Depois da saída do hospital, passados alguns dias, Eugénia necessitou de tratamento psicológico, e de repouso absoluto, afim de recompôr-se das traumatizantes experiências vividas.
Abílio, esse seu temporário companheiro, foi  embora para  algum outro sítio. Desapareceu, sem deixar rasto, enquanto Eugénia  estava hospitalizada. Ela, por precaução,  preferiu e conseguiu, com ajuda de conhecidos, mudar de casa, após recuperar os seus pertences. Também foi aconselhada pelas autoridades, e por algum do  pessoal de serviço, no próprio hospital, a fazê-lo, e, se possível, ir embora daquela terra, sem revelar a ninguém o novo paradeiro. Isso, para despistar esse ex-companheiro que a maltratou.
Quanto ao seu trabalho, também teve de deixá-lo, e tendo tentado ficar de baixa, isso não foi aceite pela entidade patronal. Foi compulsivamente levada a rescindir o contrato que a ligava àquela empresa. Agora, quer dar um rumo diferente à sua vida, mas além do mais, teme o reaparecimento de Abílio. Já não quer voltar a vê-lo.  Sente  repulsa por ele. Sabe que ele foi indiciado pelas autoridades como indivíduo violento por aquilo que lhe fez,  e que a polícia  anda a procurá-lo. É natural, pois, que ele tenha fugido, ou, até, que se tenha escondido.
Quanto a ela própria, necessita, a longo prazo, de tempo de qualidade, a sós consigo mesma, para reencontrar-se, e tentar descobrir o que quer, ao certo, para a sua vida.
Eugénia sente-se, actualmente, de alma perdida, desorientada. Sabe que não se encontra em condições de ficar só,  e também, que precisa de ajuda, nesse momento difícil da sua vida. Sabe que não pode contar com a sua família. Os seus familiares repudiaram-na, por preconceitos e não aceitação da sua maneira de ser e de estar na vida. Deixaram, em seu coração, de contar para ela como o necessário apoio, como aquilo que deveriam ser. E apenas a proximidade da Natureza tem um salutar efeito sobre ela!
-Deus! Jesus Cristo! –Murmura Eugénia. -  Não te conheço devidamente, nem sei como falar contigo! Mas, se me ouves, por misericórdia, ajuda-me! Ajuda-me, Jesus! Será que me vais acudir? A quem mais vou eu pedir ajuda? Se não tenho ninguém!
Será que Jesus me ouviu?- Interroga-se ela. –Seria tão bom, se Ele me ajudasse!... Mas como vou saber a resposta a esse pedido? Será que Ele quer que Lhe falem como eu acabei de Lhe falar? De que maneira me poderia Ele ajudar? Ó Jesus! Onde estás? Acode-me, Jesus!- De joelhos na areia, mãos apertadas, em desespero, cabeça inclinada, de frente para o mar, ela fica, um longo momento, em atitude de espera...
Mas ao reerguer a cabeça, sente-se mais aliviada. Sente que o facto de ter implorado o auxílio divino a  aligeirou de alguma forma do seu fardo. Espera algo, não sabe bem o quê. Talvez obtenha alguma resposta... - pensa
 Apesar do seu sorriso de há pouco, agora, ao reerguer-se da areia branquinha, para regressar a casa,  e com o sol a pôr-se, há, todavia, nos olhos verdes de Eugénia, uma tristeza bastante notória, reflexo da grande mágoa que ainda lhe habita o coração...
Ao chegar a casa, Eugénia recebe, um convite, via telefone, de uma amiga, para ir passar uma temporada no campo. Esse convite já lhe havia sido feito cerca de um mês antes. Mas só agora é que ela se decidiu a aceitá-lo.  Ela percebe, de repente, que essa é a resposta de Deus à prece desesperada dela, de há pouco, frente ao mar!
- Obrigada, Jesus! Se esse convite é mesmo a tua resposta, ó Deus! Obrigada!- Agradece ela, subitamente animada. Algo novo, uma centelha de esperança, lhe faz bater o coração mais fortemente.   Felizmente, Abílio continua desaparecido. Ela se tem sentido perdida e desorientada, e tem tido também medo de ficar ali, na cidade, sozinha, sujeita ao reaparecimento, súbito e sem aviso, de Abílio, e a mais problemas. Com a aceitação desse convite, que lhe chega na hora certa, como um milagre, uma nova saída, um escape, ela tem a possibilidade de mudar de localidade, para bem longe, excluindo, assim, a hipótese de reencontros desagradáveis. Sabe que, lá onde Matilde vive, poderá ir passear, ter tempo para descansar o corpo e a mente, sem sobressaltos, meditar, e inclusive, fazer uma vida e uma alimentação diferentes.  E que todas essas coisas, juntas, a irão ajudar a curar-se física e mentalmente. Ela aceita, portanto, a proposta, de imediato. E parte, assim,  no dia a seguir, bem cedo, para a terra onde vive essa sua amiga, a Matilde, a cerca de  duzentos quilómetros de distância. Parte sem pena alguma do que deixa para trás. Nada mais a prende àquele lugar. Prefere procurar emprego, lá onde Matilde vive... Quem sabe, ela não arranja, por lá, algo em que goste de trabalhar, e possa assim ganhar a sua vida de modo mais agradável? Durante a viagem, Eugénia vai recordando como ela e Matilde se tornaram amigas, há alguns anos atrás... Apesar de Matilde ser mais velha do que ela, alguns anos, são muito amigas. Conheceram-se no Algarve, durante umas férias em que Eugénia e seus familiares se deslocaram ao sul do País, durante cerca de um mês. Matilde também havia vindo do centro do País, tal como eles, e ficara numa pequena vivenda, naquela localidade aprazível, sossegada. Na época, Matilde estava lá com familiares seus, na vizinhança mais próxima da casa que ocupavam Eugénia e seus pais e irmãos. Ali travaram conhecimento, e ficaram sendo amigas chegadas. Desde essa data, nunca mais deixaram de contactar uma com a outra. Quando não o fazem ambas por telefone, um postal, ou uma pequena carta, de ambas partes, mantém o seu contacto em dia. Para Eugénia, Matilde é como que uma sua irmã mais velha, com quem tem imensas coisas em comum.
Matilde é solteira, quarentona. Não muito alta, magrinha e vivaça. Usa roupas de estilo jovem, garridas, ao seu próprio estilo, não convencional. Dona de um sorriso rasgado e constante, é comunicativa e alegre. Tem cabelos encaracolados, castanhos aruivados, que usa agora semi-curtos, e uns olhos castanhos expressivos. Vive actualmente sozinha, nessa mesma pequena vila do interior, no meio da serra algarvia... Trabalha por conta própria, numa sua pequena loja de artesanato. Trata-se de uma pessoa extremamente positiva, dinâmica, sempre bem disposta, amiga de ajudar quem necessita... Quando Eugénia ali chega, algumas horas depois, e desce do autocarro, tem a amiga à espera.
- Até que enfim! – diz Matilde, sorrindo abertamente, e abraçando de imediato Eugénia, efusivamente. - Lá te decidiste, Geninha! Fizeste boa viagem?
-Um pouco cansativa, mas correu tudo bem! A hospedeira da camioneta foi  impecável comigo! Uma pessoa muito simpática!
- Ora, ainda bem! Deves vir com fome, suponho!
- Comi umas sandes na camioneta, e bebi uns sumos, mas agora, já tenho alguma fome, novamente, confesso!
- Ora, bem! Daqui a pouco, vais jantar comigo, pois já tenho o jantar feito.  Depois, descansas à tua vontade!
Vão andando, e rumam à sua casa, não muito longe dali. Quando lá chegam ambas, Eugénia  é muito bem recebida, com carinho e simplicidade. Matilde guia-a pela casinha humilde adentro, mostrando-lhe cada peça.
-Anda ver o teu quarto, e deixar lá as tuas coisas! Aqui, como vês, é a cozinha, com esta salinha ao lado. E cá está o corredor, e o acesso aos quartos. Aqui é a casa de banho, e já te preparei tudo o que é preciso, para tomares um bom banho, se e quando o desejares!
- Obrigada, Matilde! Tu és impecável!
-  De nada! E o teu quarto é este!- diz Matilde, sorrindo e abrindo, de facto, uma das portas, naquele pequeno corredor. Um típico quarto campestre, decorado de forma rústica e simples, mas alegre, surge diante dos olhos de Eugénia. Ela sorri também, ao ver um lindo e singelo ramo de flores do campo dentro de uma pequena jarra de loiça antiga, sobre uma pequena cómoda. Um pormenor amoroso, de que ela não estava à espera.
Eugénia sente-se, de repente, como se estivesse em sua própria casa, nessa pequena mas acolhedora divisão da casa da amiga. Sente um à-vontade que há muito não experimentava, nos vários lugares onde habitara... Uma sensação reconfortante.
- Ó Matilde! Como te poderei agradecer tudo o que estás a fazer por mim? Eu já andava a sentir-me perdida... Se não fosse o teu convite, feito de novo, confesso que não sabia onde me metesse, nem o que fizesse!
- Ainda bem que falámos ao telefone! Eu tive um palpite de que te deveria voltar a convidar para vires cá passar uma temporada! Estava, e ainda estou, a precisar de um pouco de companhia!
- Foi um palpite excelente! Na hora certa! Acho que foi a resposta d’Ele à minha súplica aflita de ontem à tarde! Obrigada, mais uma vez!
- O melhor agradecimento que me podes dar, é ficares por cá o tempo que te apeteça, e pores-te boa totalmente! Mas penso que deverias agradecer principalmente a Deus! Ele é que me deu esse palpite!
- Também acho! Agradeci-lhe  logo assim que me convidaste! Mas eu e Deus não somos propriamente muito chegados... Eu nem sei orar a Ele como deve ser... Há coisas, na religião, que me fazem muita confusão... Mas que Ele me ouviu, lá isso, não há dúvida!
-Pois falaremos de todas essas coisas nas nossas conversas, menina! Estou aqui eu, somos amigas, e posso ajudar-te a esclarecer todas as dúvidas que tenhas...
-Tu és religiosa, Matilde?
- Não! Eu sou crente em Deus!
-E não é a mesma coisa?
- Não! Já reparaste que não há quadros com imagens religiosas aqui em casa? E nem imagens de escultura!
- Realmente, não vejo cá nada disso!
- Pois não, porque eu não faço uso disso! Não preciso de imagens para adorar a Deus! Isso é religião, e eu apenas sou uma seguidora de Jesus Cristo, uma discípula d’Ele!
- Ah, bom! Assim, já gosto mais! E como sabes o que fazer, como orar, como adorar a Deus, a esse Deus, esse Jesus de que me falas?
- Em primeiro lugar, devo dizer-te que leio a Bíblia! Através dela, Deus fala à minha consciência, ao meu coração e ao meu entendimento!
- A mim, acho que Ele me fala através da Natureza!
- Sim! Também a mim! É bom que já tenhas essa sensibilidade, para que Ele te fale através da Natureza! Mas, quando - e se - quiseres, arranjar-te-ei uma Bíblia, para que possas lê-la, e instruir-te-ei como fazê-lo de modo correcto!
- Agradeço! Pois nunca ninguém me ajudou com isso!
- Vá, Geninha! Anda lá, então, jantar, que enquanto comemos, continuamos a conversa... Mas, não queres, agora, tomar primeiro um banho?
- Não! Fá-lo-ei de manhã, se não te importas! Hoje estou mesmo cansada!
 As duas amigas estão agora na cozinha e Matilde põe sobre a mesa uma frigideira cheia de ovos mexidos com tomate, e outra com cogumelos grandes, salteados... Tudo acabadinho de fazer! Um odor apetitoso invade o espaço de refeições. Uma larga tigela transparente, contendo uma salada de rúcula fresca com maçã, laranja, e frutos secos, acompanha os restantes ingredientes. Uma bela refeição campestre, para elas. Depois, para sobremesa, um doce caseiro, preparado por Matilde. Enquanto se sentam e se preparam para comer, Eugénia repara numa gatinha cinzenta tigrada, muito linda, que vem ter com Matilde, e a quem esta última faz festas e fala com voz de mimo. Depois, apresenta a gata a Eugénia:
- Esta é a Pérola! A minha bichinha de estimação!
- Tão linda! Vejo que também gostas de gatos, tal como eu!
- Adoro! Se gostas de gatos, estarás de bem com ela! Ela sente quando gostam dela, sabes?
- Claro! Os animais sentem essas coisas! São tão intuitivos, os gatos!
-Por isso mesmo é que gosto tanto deles! Também são uma das mais belas criações de Deus!
- Concordo!
- Olha, ó Geninha: antes de comer, se não te importas, vamos agradecer a Deus por esta refeição!
- Certo!
Matilde fecha então os olhos, baixa reverentemente a cabeça, e Eugénia olha-a, atenta, em silêncio. Nunca viu ninguém fazer tal coisa. Mas o respeito por esse momento, e pela sua amiga, a faz permanecer calada, enquanto Matilde ora, em voz audível:
- Senhor Deus, Pai Celestial, agradeço-te pelos alimentos que me permitiste pôr sobre esta mesa, e pelo facto de poder partilhá-los com a minha amiga Eugénia, aqui presente, ó Pai! Agradeço-Te, também, pela sua companhia, nesta hora, e por todas as Tuas Bençãos, e o Teu Amor, ó Pai! Abençoa esta refeição, Senhor! Amén.
- Amén! – Concorda Eugénia, maravilhada com a simplicidade e abertura de espírito com que Matilde dirigiu a Deus a sua prece. Ela própria, até àquele momento, só ouvira preces complicadas, repetidas de modo mecanizado, papagueadas de forma vazia, sem convicção. Ou ladainhas longas e sem graça, cheias de repetições... Agora, acabou de ouvir Matilde falar com Deus, como se, de facto, fosse alguém a falar com seu próprio pai. Matilde apercebe-se da surpresa de Eugénia e pergunta-lhe, sorrindo:
- Que foi? Porque estás assim tão surpresa? Nunca ouviste ninguém orar a Deus?
- Dessa forma tão directa e tão simples, nunca! Só ouvi ladainhas cansativas e rezas repetitivas, sem sentimento, que para mim, não faziam nenhum sentido!
- Ainda bem que não faziam nenhum sentido, porque é para não fazerem mesmo! Deus já te permitiu chegares a essa conclusão e isso é bom! Assim, vais certamente, e depressa, aprender como Deus gosta que oremos! Com as nossas próprias palavras, com o que nos sai do coração!
- Ena! Ainda agora aqui cheguei, e já estou a receber várias informações que, para mim, já são respostas a perguntas que fazia a mim mesma, há muito tempo!
- Que bom, Geninha! Que bom!
A refeição decorre animada, entre as duas amigas... Ambas conversam sobre o tema que ocupa a mente de Eugénia:
- Disseste que tinhas a Bíblia. Podes emprestar-ma?
- Vou mesmo dar-te uma, se quiseres. Era de uma familiar minha que aqui viveu. A ela devo o facto de ter-me tornado crente em Jesus há vários anos. Ela havia de ficar contente por eu ta oferecer. Pelo menos, essa Bíblia ainda seguirá sendo útil!
-Aceito! Mas vou precisar de orientação para começar a lê-la...
- Não te preocupes! Eu dou-te umas dicas, que a mim também me foram dadas. Assim, vais ver que lhe vais tomar o gosto. Se quiseres, lemos juntas, nas primeiras vezes, para ires-te habituando ao manuseio da Bíblia!
-Boa ideia! Aqui é um bom sítio, calminho, para aprender... Sem pressas e sem ninguém a interferir.
-Exactamente! E os únicos horários a respeitar cá em casa, são os das refeições, e o deitar e levantar. Esses horários ajudar-te-ão, tal como me ajudam a mim, a ter uma sã disciplina de vida! Verás! Faz-nos bem!
-Acredito! Tu tens um belo ar saudável!
Depois da refeição, arrumam rapidamente a cozinha, entre as duas, e ficam sentadas, ao pé da  lareira acesa, porque as noites ainda são frescas ali naquela zona, e naquela época do ano. Ali se mantêm, ambas, por algum tempo, conversando.
Matilde trouxe, para aquele espaço, a prometida Bíblia, e ensina Eugénia a utilizá-la de forma metódica. Começam por explorar o índice, e consultar uma passagem do “Evangelho Segundo S. Mateus”3. Finalmente, as coisas começam a fazer sentido para Eugénia. Matilde oferece-lhe aquela Bíblia, e um caderno novo, afim de que a amiga possa fazer anotações, durante a leitura.
Espantada, Eugénia descobre, durante esse serão, que a famosa oração “Pai-Nosso” está integrada num relato bíblico, e é, afinal, um exemplo e modelo de oração facultado por Jesus aos seus discípulos3. Afinal, não é apenas mais uma reza monótona, para papaguear! Fica feliz por analisar esse trecho e concluir que cada palavra desse exemplo de oração tem um alcance e um significado profundos, que deveriam ser meditados a preceito.
Como, apesar de todo o interesse por ela  manifestado, em relação ao tema que debatem, Eugénia dá mostras, já, de bastante cansaço, Matilde resolve parar a lição bíblica.
- Amanhã, voltaremos a pegar nesse tema!- Promete ela, sorrindo. - Vejo que te interessa bastante, mas esse assunto tem “pano para mangas”! Fico, desde já, feliz de ver como encaras todo este ensino! Mas estás muito cansada e tens tempo para ires aprendendo! Será melhor, agora, ires já descansar!
Matilde repara, também, que, durante aquela entusiástica conversa, Eugénia abriu o caderno e fez algumas anotações, que lhe mostrou:
Data, tema escolhido, referências bíblicas, versículos bíblicos. Inclusive, ela copiou o texto da oração, escrevendo como cabeçalho:
«“Pai-Nosso”: Modelo de oração – como nos devemos dirigir a Deus, nas nossas orações.»
Matilde aprova, satisfeita: a amiga está já bem encaminhada. Para um primeiro contacto com o Livro Sagrado, deu um passo enorme, avançou bastante.
Eugénia dorme melhor, nessa noite, do que em meses seguidos, alguma vez, conseguiu... O sossego daquele lugar; as energias positivas daquela casa; daquele quarto acolhedor; a segurança de estar agora a salvo de más surpresas; a satisfação das descobertas acerca da Palavra de Deus; Todas essas coisas trouxeram- lhe a paz suficiente para dormir maravilhosamente.
No dia seguinte, acorda cedo, sentindo-se fresca e repousada. No espelho da casa de banho, vê o seu rosto, já sem olheiras. Sorri para si mesma, e mete-se no banho, cantando, coisa que também há muito tempo não fazia. A vida de Eugénia está literalmente a mudar da noite para o dia.
Vestida com roupas simples e confortáveis, como é seu costume, dirige-se à cozinha, onde Matilde já se encontra, preparando coisas para o pequeno almoço de ambas.
-Então, amiga, que tal dormiste?
- Maravilhosamente!  Até cantei no duche, vê lá tu!
- Eu ouvi-te! Eh! Eh! Eh! Fico feliz de te ver assim, bem-disposta, fresquinha, alegre! Dá gosto ver a tua mudança!
- E a mim, sabe-me tão bem sentir-me assim!
- Queres vir comigo, um pouco, agora, à minha lojinha?
-Sim! Quero! Tenho curiosidade de ver o que lá vendes...
- Artesanato produzido por mim, e por outros artesãos daqui...
-E isso vende bem?
- Razoavelmente! Eu consigo viver disso! Sou a única a ter uma loja destas, cá! Ao princípio, tive de investir algum do meu dinheiro, é claro! Mas agora, já recuperei algum desse capital...
-Eu vinha na viagem pensando que talvez fosse bom eu procurar trabalho cá por estas bandas...  Assim, cortava de vez com aquele ambiente de onde estive, e com a possibilidade  de aquele idiota me voltar a molestar! Achas que consigo?
Matilde olha para Eugénia, aprovando com um sinal afirmativo de cabeça, e tendo uma ideia súbita, expõe-a de imediato, espontânea como é:
- Ouve lá, ó Geninha! Diz-me uma coisa: -Gostas de artesanato? Se soubesses produzir algo artesanal que desse para ser vendido na minha loja, podias trabalhar comigo! Acaba de me ocorrer esta ideia!
- Se gosto? Adoro artesanato! Há que tempos que não faço nada dessas coisas! Mas sei fazer costura, aprendi a fazer bonecos de pano, em tempos... Poderia fazer alguns engraçados!
-Olha, isso era fantástico, se conseguisses voltar a fazer alguns!... Eu tenho máquina de costura... facilitava-te! E na biblioteca local, há alguns livrinhos ensinando a fazê-los... Podemos ir lá, requisitar até três livros, copiar alguns modelos básicos, e moldes, para te orientares inicialmente, e depois, fazes os bonecos com sobras de tecidos que cá tenho, dos meus próprios trabalhos,  lãs, e outros preparos... o que gostares mais!
- Boa! Assim que pudermos, então!
Já na lojinha, Eugénia fica encantada com a simplicidade de tudo o que lá encontra. Mas nota que, realmente, não há bonecos de pano ali, à venda. O que Matilde fabrica, são malas e sacolas em todo o tipo de tecidos. Matilde explica também que a sua loja é a única do género, e ninguém, que ela tenha conhecimento, produz nenhuns bonecos de pano, na vila, por enquanto. É a oportunidade de Eugénia que surge, assim, de trabalhar em algo de que gosta, sem nenhuma concorrência.
Matilde liga o seu aparelho leitor de CD, tendo introduzido um CD com temas antigos de Roberto Carlos. Começa-se a ouvir então uma música sobejamente conhecida do famosíssimo cantor, falando de Jesus: “Ele está p’ra chegar”4.
Eugénia reage acompanhando a canção que conhece bastante bem, cantando um pouco do refrão ela mesma. Matilde sorri.
Eugénia comenta:
- Até a música Deus está a usar, para falar comigo! É espantoso! Obrigada, meu Deus! Obrigada, Jesus!
Matilde responde:
- Sim! Deus usa a música também, amiga! O Senhor tem inúmeros recursos para tratar connosco! Creio que isso é um sinal inequívoco de Deus, Geninha! Aqui tens a proposta  de um caminho a seguir!  De um trabalho para fazer! E de que gostas! Mas, só se quiseres, pois Deus não força ninguém, e nem eu te imponho nada! És livre!
- Deus fala  e responde-nos de forma estranha, mesmo! Mas, no entanto, maravilhosa, Matilde!
- Sim! É verdade! Deus conhece-te bem, porque te criou. Ele sabe do que gostas, o que necessitas para a tua vida, o que te pode fazer feliz! Só precisas de entregar-lhe a tua vida, e deixar que Ele cuide de ti, à Sua sábia maneira! Deus quer que tu sejas feliz, porque Ele te ama, Geninha!
- Falas com tanta convicção, que estou a acreditar no que dizes! Porque também estou comprovando que, realmente, Ele se importa comigo, e me está a ajudar muito, nos últimos dias!
- Claro que sim! Vamos a isso, então?
- Vamos!
Assim, as duas amigas associam-se a partir daquele dia, no trabalho artesanal, cuja preparação lhes ocupa, inicialmente, duas ou três manhãs, por semana, em casa. De tarde, Matilde e Eugénia vão até à loja, durante um par de horas, e depois, se necessário, vão às compras juntas, regressando então a casa, para preparar a sua refeição da noite, que comem, enquanto conversam e fazem planos entre as duas. Depois, durante cerca de duas horas, dedicam-se, cada noite, ao estudo e leitura da Palavra de Deus, lendo a Bíblia, e escrevendo Eugénia as suas anotações, tirando dúvidas... Matilde responde conforme sabe e conforme o que ambas encontram registado na Bíblia.
Eugénia aprende, nessas meditações, que Deus não nos dá espírito de medo (temor), mas sim de fortaleza.5 Compreende, assim, que o medo que antes sentiu era algo oriundo das trevas em que viveu mergulhada, antes de começar a ler a Palavra. Numa dessas primeiras noites, depois de jantar, Eugénia faz, com a ajuda de Matilde, uma oração sentida, de entrega de sua vida a Jesus Cristo, recebendo o Senhor em sua vida, como  Senhor e Salvador pessoal. Nessa mesma noite, Eugénia tem um sonho em que vê Jesus, e em que Ele lhe fala. Ao acordar, recorda perfeitamente o sonho, contando-o a Matilde.
-Jesus está mesmo a cuidar de ti, e a chamar a tua atenção!- Replica Matilde ao ouvir o relato desse sonho de Eugénia. –Digo-te mais: não foi um sonho!
- Não? Então? Como  o sabes?
- Foi algo real, só que o Senhor aproveitou um momento específico de receptividade da tua mente,  e do teu espírito, entre o sono profundo e a vigília,  o qual é designado por “estado alfa”6, pelos especialistas,  e esteve contigo, nesse momento, falou-te de maneira que pudesses lembrar-te disso!
-Sabes tantas coisas, Matilde! Como consegues?- Diz Eugénia, sequiosa de conhecimento, olhando para a amiga com olhar ansioso.
- Leio bastante! E a leitura é uma prática que, bem orientada, nos ensina muito! Ando a estudar o funcionamento da mente humana. As coisas que já descobri esclarecem-me muito, em relação a fenómenos como esse, desse suposto sonho teu!
- Deve ser uma questão de saber que livros ler, certamente...
- Sim, claro! Podes ler qualquer um dos que se encontram na estante da salinha! Tens ali bastante escolha. Desde livros de auto-ajuda, de que eu própria já necessitei, há tempos atrás, a livros de psicologia, se gostares do tema, e livros de meditações evangélicas, ou católicas carismáticas, entre outros... Alguns desses livros são realmente uma benção! Também ali tenho alguns que são relatos de testemunhos marcantes, que nos edificam realmente!
-Combinado! Deitarei uma olhadela, e começarei pelo que mais me desperte a atenção! Obrigada!
Eugénia assim faz, e passa, então, a ter, na cabeceira, livros para ir lendo todas as noites, ou em momentos do dia em que lhe apeteça fazer uma pausa... Inclusive, tendo-se inscrito como leitora na Biblioteca local, traz, de vez em quando, algum que lhe agrade.
Apesar de colaborar com Matilde, na produção de artesanato para a loja, ela tem a liberdade  de tirar, de vez em quando, um tempinho só para si. Matilde sabe quão fraco ainda é o equilíbrio psicológico de Eugénia. Não a força, por conseguinte, a fazer seja o que fôr. Está ali para ajudar a amiga, e sabe que na sua missão em relação a Eugénia, ainda tem bastante que fazer. Porém, a nível oficial, e para ajudar a amiga a resolver questões práticas, ofereceu-lhe o trabalho de colaboradora, e fez-lhe um contrato de part-time, relativo a esse trabalho. É um trabalho remunerado oficialmente, com todos os aspectos legalizados.
Aconselhou também a amiga a mudar de número de telemóvel, afim de que ninguém a aborreça com chamadas indevidas, principalmente aquele ex-companheiro que pode lembrar-se de a molestar novamente...
Eugénia seguiu o conselho de Matilde, e mudou de cartão e número de telemóvel, sentindo-se, assim, mais descansada em relação a esse assunto.
Assim passam alguns meses, em que a companhia  e ajuda de Matilde são preciosas para Eugénia.
A mudança de ambiente também foi salutar. Eugénia já não parece a mesma. Inclusive, ao dedicar-se ao seu novo trabalho, fez, para si mesma, por gosto, uma linda boneca de pano, de tamanho suficiente para se ver bem,  e que depôs sobre a cama.  A boneca tem os cabelos encaracolados, castanhos, apanhados no topo por um lacinho do mesmo tecido estampado de flores  do vestido que ostenta,  os olhos risonhos, castanhos, também, e um lindo sorriso. Chama-se Tilda, em homenagem a Matilde. Há muito que Eugénia sonhava fazer isso, e conseguiu-o na perfeição, com a ajuda da máquina de costura de Matilde, e o aproveitamento de materiais que sobejam dos artesanatos têxteis desta.
Uma manhã, à mesa do pequeno almoço, Matilde está a conversar, a respeito dessa mudança, com Eugénia:
- Estás tão diferente de quando aqui chegaste, Geninha! Até ganhaste algum peso, tens melhor aspecto, agora! Bravo!
-Graças a ti, Matilde! E graças a Jesus!
-Sobretudo graças a Jesus, e à tua decisão acertada de vires para cá!
-Só Deus, mesmo, podia ajudar-me desse modo maravilhoso! E utilizar-te a ti, que considero, actualmente, como mais do que uma amiga! Tornaste-te a irmã que eu nunca tive, e a família que substitui a minha família consanguínea!
- Como dizia a saudosa escritora Fernanda de Castro, “os amigos são a família que escolhemos”!7
- Sem dúvida, Matilde! É uma grande verdade!
-Queres continuar por cá, Geninha?
- Quero pois!
- Estás à vontade, então! A tua companhia tem sido preciosa para mim!
- A tua também o tem sido para mim!
- Mudando de assunto, Geninha: Já pensaste em orar ao Senhor, no sentido de te ajudar a perdoar os teus familiares, e tentares voltar a contactá-los?
- Penso muitas vezes nisso! Mas é tão difícil perdoar, Matilde!
-É mesmo! Ninguém diz que é fácil, realmente! Custa muito, por vezes! Mas lembra-te do modelo de oração do Pai-Nosso, Geninha! Devemos perdoar, para sermos perdoados!
- Bem sei!
- Ora ao Senhor sobre esse assunto! Bem sabes que Jesus não nega ajuda a ninguém!
- Tens razão, Matilde! Fá-lo-ei!
-Lembra-te de um pormenor, Geninha: Falta de perdão, mágoas, ressentimentos, são, na nossa vida, como lastro excessivo e inútil num barco. E esse lastro é mesmo prejudicial, em certas ocasiões da nossa vida! A vida de cada ser humano é como uma travessia de um rio ou de um mar, e há que saber quando largar, borda fora, o lastro excessivo, e retirar assim o peso, o fardo que impede o barco de navegar mais facilmente!
-Gosto da forma como explicas as coisas! É tremenda!
- É Jesus que me inspira a forma de falar, e  o que dizer, quando é preciso, Geninha!8
-Graças a Deus! Agradeço a Jesus por ter-te como amiga, e pela tua preciosa ajuda! Sem ti, onde é que eu estaria?
-Apenas faço a vontade do meu Mestre! E gosto de poder ser útil!
- Do nosso Mestre! Agora, eu também já sou discípula de Jesus!
- E eu  fico feliz por tudo isso! É gratificante ver o resultado da minha obediência a Jesus, actuando na tua vida! E o resultado da tua disposição em mudar de vida e querer aceitar o domínio de Jesus sobre ti!
- Eu estou muito feliz, Matilde! Nunca pensei que a minha vida poderia mudar tanto e de eu vir a ser tão feliz como sou actualmente!
Eugénia vai, a pouco e pouco, por meio de oração e atitude humilde diante de Deus, conseguindo uma feliz mudança em seu viver. Perdoou e contactou os seus familiares, que, a princípio, estavam duvidosos sobre a modificação sofrida por Eugénia. Mas, algum tempo depois, foram-se convencendo da realidade: Eugénia telefona-lhes. Envia-lhes fotos suas, da loja de Matilde onde continua a trabalhar. Dos seus trabalhos, que estão a obter bastante sucesso. Das feiras em que participam ambas. Fala-lhes de Jesus, a quem deve essa grande mudança. Em troca, eles mostram-se satisfeitos, e dão-lhe, inclusive, a notícia de que Abílio foi apanhado, finalmente, pela polícia.  Está preso, desde há pouco tempo, tendo usado de violência contra outra mulher, que também o denunciou às autoridades.
-Falta-te perdoar em teu coração, a essa pessoa! – Diz-lhe Matilde, quando Eugénia lhe transmite a notícia recebida.
-Perdoar? Mas mesmo que ele saia da prisão, nada mais quero com ele!
- Claro que não, Geninha! Mas vais ver que te vais sentir mais leve! Deus manda-nos perdoar os nossos inimigos, e aqueles que andam vivendo desordenadamente. Mas não devemos, sequer, voltar a acompanhar com eles, mas sim desviar-nos! Porém, ao perdoar, estamos a ficar mais limpos de coração, e isso agrada a Jesus!
- Dessa maneira, sim, de acordo! Que Deus me ajude a perdoar e esquecer o Abílio!
- E deverias orar, ainda,  para que a vida dele se modifique! Quem sabe, na prisão, ele não tem uma oportunidade de mudar?
- Achas mesmo?
- E porque não? Não sei se sabes, mas há pastores e missionários, que vão periodicamente visitar os presos, e pregar-lhes a Palavra de Deus, tocando assim nas consciências dessas pessoas. E alguns convertem-se mesmo!
-Ainda bem para eles!
-O principal, aqui entre nós, e no que te diz respeito, é que tu própria tenhas já o coração aberto aos ensinamentos de Deus, e  a disposição para os pôr em prática! Isso faz toda a diferença em ti, na tua personalidade, na tua maneira de estar na vida, na tua felicidade!
-Abençoado o dia em que aceitei Jesus como Salvador!
-Amén!
E assim, Eugénia mudou de vida, e segue sendo feliz, vivendo ainda,  e colaborando, com Matilde, como irmãs em Cristo, e como artesãs profissionais. De vez em quando, Eugénia recebe a visita de familiares seus. Fizeram as pazes com ela. No entanto, para seu próprio bem, e de acordo com eles, ela não pretende voltar à terra onde vivia antes. Mas, junto de Matilde, nessa pequena vila do interior da Serra Algarvia, está em paz, e segue aprendendo, como discípula do Senhor Jesus.


FIM
Notas:
* Ev.S. João, cap.14, vers. 6 – (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida).
 1) Extraído da obra “Os Pescadores” de Raul Brandão.
2) O candomblé é uma religião de origem brasileira/africana.
3)Ver o Ev. S. Mateus, cap. 6:1-18 (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida).
4)“Ele Está P’ra Chegar”- Tema de Roberto Carlos.
5) Ver a 2ª Epístola de  S. Paulo a Timóteo, cap.1, vers. 7 (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida). “Deus não nos tem dado espírito de temor, mas sim de fortaleza, e de amor, e de moderação.”
6)Conforme  nos diz Lauro Trevisan em “O Poder da Mente”.
7)Fernanda de Castro, em “Ao Fim Da Memória”.
8) Inspiração dada por Deus, para falarmos aos outros: Ev. S. Mateus, cap.10, vers.19, 20. (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida)