quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conto : À DESCOBERTA DO MUNDO INVISÍVEL

Ao meu filho, Marcos Carlos:

À DESCOBERTA DO MUNDO INVISÍVEL


Valnice e Pedro são mãe e filho. Ela, na casa dos quarenta; ele, na casa dos vinte... Podem, à primeira vista, parecer uma mono-família normal... Mas são bem mais do que isso: Ambos desenvolveram uma relação que vai mais além da simples relação de mãe e filho: são profundamente amigos. Tratam-se ambos pelos nomes próprios. Falam de tudo e mais alguma coisa. Não têm preconceitos, quanto à linguagem, nem quanto aos temas a abordar. O respeito e o carinho, no entanto, são fortes e mantêem-se entre os dois. Saem quase sempre os dois juntos, e para todo o lado. Ambos aprendem um com o outro, constantemente. Vivem numa vila à beira-mar.
Os dois andam pela praia local, numa certa noite. É um hábito que ambos criaram, há algum tempo. Resolveram, desta vez, e de comum acordo, vir dar uma volta, afim de que Valnice possa ali fazer um pequeno treino de concentração... É o início do Outono, e as noites à beira-mar já vão sendo bastante frescas. Eles passam por uma zona da praia em que há uma passadeira elevada, com um restrito espaço de descanso, com alguns bancos. Nesse momento, está tudo deserto. Costuma ser uma zona sossegada, boa para isso. Descem a passadeira, e dirigem-se perto da água. Está bastante escuro, nessa zona, e a luz do luar é fraquinha. Valnice concentra-se, agora, diante do mar... Olha para a água, fixamente, durante o máximo de tempo que consegue. Várias formas estranhas, como peixes e baleias pequenas, e como sereias, se erguem, em transparência subtil, na rebentação...  São presenças espirituais... O ruído das ondas torna-se o ruído das vozes desses milhares de seres espirituais marinhos, desconhecidos de Valnice até à data, e que parecem estar em guerra uns contra os outros, ou contra quem esteja na praia, ali mesmo ao pé da água... Parece uma manifestação contra eles... Mas não é... Valnice sente intuitivamente que  é apenas um aviso: Perigo! Algo está para dar-se... Há um quê de inquietação no ar... Valnice nunca presenciara nada igual... Quem havia de dizer que nas águas se agitava todo esse mundo desconhecido?
Pedro interpela a mãe, em voz baixa:
- Então, Val? Estás a conseguir ver alguma coisa?
Ela, alerta, responde-lhe no mesmo tom. Pois, nunca se sabe quem pode andar por ali, e eles não querem que ninguém partilhe a conversa deles:
- Ó Pedro! Sim! E nunca vi nada igual! Nunca pensei!
- Concentraste-te bem, Val?
- Sim! O máximo possível! Mas ainda tenho alguma dificuldade... No entanto, vi uma grande mistura de coisas ou seres a erguer-se da rebentação, em transparência e em sombra!
- Isso foi só uma amostra! Se continuares, todos os dias, um pouco, a treinar a tua visão espiritual, vais descobrir muita coisa  com que nem sonhas! Não só aqui ao pé do mar! Noutros locais também!
- Pois, calculo que assim seja! Em toda a parte deve haver muito que descobrir! Até porque já, tanto tu como eu, sentimos presenças estranhas, e falta de forças nas pernas, dores de cabeça, em hipermercados e outras lojas grandes! Deves estar lembrado, que já tínhamos falado nisso!
- Tens toda a razão! Agora, se não te importas, vamos, rápido, pois estou a sentir alterações no ambiente...
-Há algo de inquietação, de alerta no ar! Uma sensação de perigo...
 - Sim! Ainda bem que te apercebeste, Val! Temos de voltar a passar pela passadeira elevada... e vamos ter companhia desta vez... já os estou a sentir aproximar-se...
-Como sabes? Quem são?
-  Sei, pelas ondas de energia negativa que se aproximam e que consegui captar... Quem são, não sei... Não é coisa boa, é só o que te posso confirmar! Mas não tenhas medo! Deus está connosco! Quando passarmos pela passadeira, não te desvies de mim, nem fales, e não olhes sequer para os lados! Dás-me apenas a mão e segues-me, ok? Agora, Senhor, que o sangue de Jesus Cristo nos cubra!
-Está bem!Amén!
Tudo isto foi dito em voz baixa, em tom de murmúrio segredado. Não lhes convém serem ouvidos.
Vão de volta, e não há iluminação alguma no passadiço de madeira. Pelo contrário, surgiu também,  agora, uma espécie de neblina densa e estranha, nesse local onde eles são forçados a passar, e não têem como a evitar. Num pequeno banco dessa passagem, vêem-se duas formas, supostamente humanas, como que envoltas ainda nessa forte neblina, que agora se está dissipando, mas das quais não se distinguem traços de rosto. Essas presenças estão sentadas, observando-os, enquanto eles passam, mudos e de mãos dadas. Avançam o mais rápido que conseguem, sem olhar para os lados, como combinaram, e sem se deterem. À passagem por esse perímetro da passadeira de madeira, sobre as dunas, quase rente a essas personagens estranhas, sentem um frio gélido inusual. Na praia, há pouco, não fazia frio, apesar da leve brisa marítima que se fazia sentir. Descem da passadeira. Os estrambólicos seres desapareceram de novo.
Valnice e Pedro seguem rapidamente pelo caminho pedestre, saindo da praia. Quando já estão junto à estrada, e aos primeiros prédios da povoação, Valnice interroga Pedro, falando ainda baixinho:
- Que personagens eram aquelas, pá? Até senti um frio gélido! E surgiram do nada!
- Não te avisei? Eu também senti esse frio! Provinha deles! Não sei quem eram, mas de humanos, só tinham o disfarce da forma...
- Nem se lhes via rosto algum! Que estranho!
-Também me apercebi disso! Estavam a tentar camuflar-se inicialmente!
- Primeiro, havia como que uma espécie de nevoeiro, ali no sítio onde eles surgiram...
-Sim! Eram eles a tentar ficar invisíveis para connosco... A ideia deles era passarem despercebidos, mesmo! Mas captámo-los, e eles ficaram assim, pois não tiveram tempo para mais...
-Apre! Que encontro mais estranho! Parecia que nos estavam espiando!
- Sim! Estavam mesmo!
- Credo! Se já nem se pode vir dar um passeio, num sítio tão pacato!
-Tu nem fazes ideia do que há de personagens dessas por aí! E é um sítio pacato, tal como dizes! Nas cidades, deve ser mil vezes pior!
- Dispenso encontros desses! Chiça!
- Também eu, podes crer! Mas mesmo de dia, em qualquer lado, nos cruzamos com “gente dessa”! Enfim: coisas estrambólicas com forma de gente, se me faço entender! Assim como nós captamos as ondas negativas, o lado da maldade deles, e as más intenções, eles também dão por nós! Inimigos mortais: vida e morte! Mal e Bem! Eles são do lado do Mal, podes ter a certeza!
- Não tenho mesmo dúvidas! Vamos até casa?
- Sim! Chega de cenas estranhas por hoje!
Valnice e Pedro vão efectivamente para sua casa, onde a luz deixada acesa na entrada os acolhe, e a atmosfera morna do ambiente os reconforta. É o início do Outono, e embora não faça propriamente frio, o sucedido deixou-os com vontade de tomar algo quente, reconfortante. Depressa, Valnice prepara uma caneca de leite quente para cada um deles.
Sentados à mesa, na cozinha, conversam ainda:
-Agora a seguir, vou dar um duche, ou melhor dizendo, um banho de descarrego!- Lembra-se Valnice.
-Até eu preciso dar um! – Responde Pedro, com um gesto de concordância.
- Creio que sim! Vamos aliviar-nos desse mau encontro, dessas energias negativas que tentaram colar-se a nós!- Responde Valnice, convicta.
- Mas lembra-te de que em tudo, há um lado positivo: esta noite, certamente, aprendeste algo mais, sobre o mundo invisível que nos rodeia!
- Não tenhas dúvidas que aprendi! A aprendizagem é sempre útil!
- Neste caso, ainda mais! Mas ainda vais ter de aprender a defender-te e a proteger-te eficazmente contra esse tipo de forças maléficas! Se não te protegeres, sugam-te a energia num ápice! E nunca sabes quando isso pode suceder!
- Mesmo!
- E não só se dedicam a roubar a energia, como a neutralizar-nos, combater-nos, fazerem-nos mal! Há que ser previdente e saber evitar os ataques deles! Esta é uma batalha constante, que afecta o mundo físico visível, mas é sempre travada no invisível!
-Bem sei! O mundo espiritual é bem grande e desconhecido! E além disso, misterioso!
- Pois é! Há, no entanto, coisas que nos vão sendo reveladas, e há maneiras de nos treinarmos, de nos protegermos contra todas essas forças desconhecidas e maléficas! A praia, de dia, é óptima para ajudar a nossa mente a limpar-se, acalmar os nervos, treinar a concentração, respirar fundo!
- Já vi gente a fazer Reiki na praia!
- Também eu! Bom: vais tu primeiro ao banho, ou vou eu?
- Vai lá tu primeiro, Pedro! Eu já vou! Vou prepar a água quente com sal para ti, e depois para mim! E as roupas para vestirmos depois do banho!
- Certo!
Valnice fica arrumando a cozinha, prepara um pequeno jarro com água morna e sal grosso, levando-o para a casa de banho, onde Pedro já se encontra, a descalçar-se.
- Aqui tens a água com sal para deitares por cima!
-Obrigada, Val!
Valnice sai da casa de banho, para a cozinha novamente, e prepara outra vazilha pequena com água  bem quente e sal grosso. Depois, ruma ao quarto do filho, a preparar a roupa de dormir que ele vai vestir depois desse banho.
Entretanto, Pedro sai ele próprio da casa de banho, envolto num roupão de banho, e ruma ao seu  quarto, para vestir um pijama. Seguidamente, ela faz o mesmo no seu próprio quarto e dirige-se finalmente à casa de banho, levando  a água com sal que preparou para si.
O dia a seguir vai ter mais actividades, programadas já com antecedência, para esses dois familiares que se adoram e preparam tudo em comum. Combinaram ir às compras juntos, por exemplo, como fazem sempre que disso necessitam.
Alguns dias depois, Pedro e Valnice vão a um serviço público. Várias pessoas se encontram ali, umas sentadas, outras de pé,  e Valnice repara numa mulher, ainda jovem, que frequentemente, olha para ela  e para Pedro, com um olhar estranho. Pedro também capta o olhar da desconhecida. E fixa nela o seu olhar. A outra, incomodada, desvia o seu... várias vezes, a cena repete-se. Quando saem dali, Pedro fala:
- Viste  a tipa aquela?
- Sim! Que raio? Não parava de olhar, ora para mim, ora para ti... Que raio?
-Uma feiticeira! Captei-lhe os pensamentos! Falámos ambos com o olhar.
- Por isso ela não te tirava os olhos de cima!
- Ela estava curiosa a meu respeito! Apercebeu-se de que sou uma pessoa  de personalidade forte!  Mandei-lhe um recado: - Não te metas comigo! Captei a tua jogada!
-E ela?
-Revelou ser uma feiticeira que ficou espantada por eu ser um ser humano transmissor de luz! E por a ter descoberto!
- Eh, pá!
- Dessa aí, não tenho medo! Ela não se atreve comigo! Sou mais forte!
- Ainda bem! Mudando de assunto: Reparei numa coisa... havia uma planta sobre um móvel, nessa divisão... sem gota de água... e ainda há dias, que ali vim, a planta estava viçosa! Se continuar assim, murcha!
- Também reparei na planta! Aquilo ali, é um serviço público! Sempre têm quem faça a limpeza e deite água nas plantas... Ela não tem falta de água, digo-te eu!
- Então, que se passa?
- Sugaram as forças à planta, com o olhar! Alguém estaria, por ali, com certeza, com défice de energia. Chuparam-lhe a energia quase toda! Pobre planta! E não me admirava nada que tivesse sido a tipa aquela... ou alguma das “aves raras” com que cruzamos, e que costumam ser aquilo que se chama de “vampiros psíquicos”! Enquanto o fazem a uma planta, não o fazem a nenhum de nós!
- Safa! Mesmo! Já ouvi falar desses sugadores de energia alheia, sim!
- Mas, olha, Val: Aí tens outro exercício de concentração que podes praticar! E lembra-te de que os nossos pensamentos também emitem vibrações! Se conseguires concentrar-te  a olhar para uma planta  e falar mentalmente com ela, ela capta a vibração energética do teu pensamento! E se lhe falares audivelmente, também! Se necessitares de um pouco de energia, porque te sintas mesmo sem forças, e estiveres ao pé de uma planta viçosa, pede-lhe gentilmente, em pensamento, mas olhando para ela, que te conceda um pouco da sua energia vital! Ela depois, logo recupera! Verás que a planta vai vibrar quase imperceptivelmente, e vais sentir regressar a tua própria energia daí a pouco!
- Verdade? Que fascinante! Há quem diga que falar com as plantas as deixa mais viçosas! Não sabia até que ponto isso era possível... mas vejo que tem uma base lógica! E sabes que também adoro plantas, porque elas conferem mais beleza e vida, mais harmonia a qualquer ambiente!
-Sim: ao fim ao cabo, nós somos energia! E elas também! Junto ao nosso corpo físico, temos um envoltório energético, dividido em várias partes, a que se chama chackras. Quando andamos em baixo de forma, ou nervosos, por exemplo, ou doentes, é porque algum, ou mais do que um, desses chackras está ou estão descontrolados, desequilibrados!
- As coisas que tu sabes, Pedro! Meu Deus!
- Tu também já sabes muitas coisas, Val!
- Pois sim, mas talvez não sejam as mesmas!
- Nem sempre coincidimos nos nossos conhecimentos, é verdade! Mas podemos aprender um com o outro, e preenchermos ambos essas lacunas!
- Com efeito!Torna-se um saudável intercâmbio! Sabes porque existe o “fosso entre gerações”? Precisamente porque as pessoas, em família e não só, não têm a humildade de reconhecer que todos precisamos uns dos outros, e todos podemos aprender algo, uns com os outros!
- Tens toda a razão! E esse tal “fosso” é sobretudo espiritual! Voltando ao tema dos chackras,  vou mostrar-te uns sites interessantes, com matérias que podes ler, quando quiseres, ou que tenhas um pouco de tempo disponível... Vais aprender mais umas coisas, se estiveres de acordo!
- Boa! Esse tema dos chackras interessa-me e bastante!
- É fascinante, vais ver! Vais gostar, de certeza!
O dia a dia desses dois familiares continua, num quotidiano que poderá parecer vulgar a quem os conhece de vista, mas não priva com eles.
Numa outra noite em que eles estão em casa, Pedro sente algo estranho no ar, e sai para o terraço, para indagar. Valnice segue-o curiosa, como sempre que Pedro detecta anormalidades espirituais no ambiente. O espectáculo que ela vê nos ares é minimamente estranho:
Formas etéreas, em formato de trapézio, movem-se. Pedro faz sinal a Valnice, silenciosamente, pondo um indicador sobre a própria boca fechada, e não pára de observar aquilo, concentradamente. Algumas dessas formas vão reduzindo o seu tamanho, outras aumentam. Algumas desaparecem misteriosamente, tal como apareceram... Passado um longo e silencioso momento, Pedro faz sinal a Valnice, e voltam para dentro de casa. Aí, conversam sobre esse estranho fenómeno.
-Que coisas estrambólicas eram aquelas, Pedro? Percebeste alguma coisa?
- Tu só conseguiste ver formas estrambólicas, Val?
- Sim! Pareciam trapézios de nuvens a lutar uns contra os outros, ou algo do estilo...
- Eram dragões! Potências espirituais! Captaram-me, e estavam a tentar aproximar-se, mas com o olhar, mandei-os embora, e desistiram... Não notaste que enfraqueceram?
- Sim!
-Porque queriam vir atacar-me, mas a minha protecção espiritual, visível para eles, os desencorajou logo! Viram que estou guardado, acompanhado e rodeado da protecção angelical que Deus tem posto ao meu redor!
- Boa! Mas essas coisas metem um bocado de respeito, pá!
- Mas com os escolhidos de Deus, não se metem! Não têm sequer permissão para tal! - Ora, ainda bem! Pois olha que é a primeira vez, na vida, que assisto a tal espectáculo, e nem sequer estava a compreender o que era, porque só via aquelas formas...
- Isso é porque tu ainda não tens a tua visão espiritual suficientemente desenvolvida, para conseguires discernir as verdadeiras formas. Por isso vês as coisas tipo transparente, ou tipo nublado, ainda!
- Deve ser isso! Ainda bem que te tenho a ti para me explicares esses pormenores dessas cenas estranhas!
- Claro! É sempre bom termos por perto quem saiba mais do que nós, tenha capacidade para ver, sentir, captar e discernir as coisas do mundo invisível, e que nos ajude a entendê-las, e também que nos aconselhe em como lidar com todo esse aprendizado, todas essas descobertas!
- Por isso, muita gente, sem discernimento, mete-se com o mundo espiritual, e faz asneiras...
-Sim! Asneiras graves que podem custar-lhes a própria vida, ou prejudicar as dos outros!
-Outro dia, a nossa amiga Armanda estava a falar comigo acerca de coisas dessas, e ela contou-me que Deus lhe deu um recado para outra pessoa. Deus disse-lhe que os seres humanos não sabem o que existe no mundo oculto, no mundo invisível. E que não devem provocar esse mundo e as forças diversas que nele exitem! Pois muita gente tem feito disparates, ao não respeitar o mundo espiritual! Ela disse que Deus até lhe alterou a voz, e o que saíu dela foi a voz do Espírito Santo, que estava bastante zangado!
-Ela tem razão no que te disse! E se esse recado veio mesmo de Deus, como eu também creio, melhor será que respeitem a Sua admoestação! Com Deus não se brinca! A Justiça Divina pode ser implacável, se fôr preciso!
- Cá por mim, o melhor é não desobedecer a Deus! Se o Senhor  manda ter cuidado, é porque Ele sabe todas as coisas, e nos quer poupar  em relação a problemas grandes, e a terríveis consequências de interferir com o oculto!
- Pois claro! Por isso, tudo o que fizermos teremos de o fazer com cautela, e muito a sério! E quando tivermos a absoluta certeza que Deus está connosco no que empreendermos! Há que adquirir conhecimento suficiente que nos ajude a defender-nos do nosso inimigo, que é espiritual. Mas de modo comedido, com cautela, e sob a protecção de Deus!
Muitas das vezes, a vida destas duas pessoas é um decorrer de dias rotineiros, mas de vez em quando, há coisas que lhes sucedem, ou coisas que presenciam que os fazem dialogar sobre elas, para além do que compõe o seu quotidiano. E assim, certa noite, ao regressar de um pequeno passeio com dois amigos seus, Pedro vem um bocado alterado.
- Val! Nem sonhas o que eu e o João vimos, há poucos minutos!
- Que foi, Pedro?
- Vimos ambos uma nave espacial a desandar a toda a velocidade mesmo à nossa frente! Eu vi,  e ele também!
- E não estamos a fantasiar!- Corrobora João, que é um ano mais velho do que Pedro.
-Se vocês o dizem! Quem sou eu para duvidar!
-Ainda bem que você acredita em nós, Valnice! Se fossem os nossos pais, iam dizer logo que andamos  a fantasiar ou a gozar com a cara deles!- Diz Anselmo, o outro amigo de Pedro.
- Nem toda a gente acredita nessas coisas, como vocês sabem! Mas eu acredito, porque também já vi algumas coisas estranhas desse género, no céu, e bem perto!- Responde Valnice. – Além disso, há pais que acham que, se os rapazes andam todos juntos, a tendência deles é quererem pregar partidas aos pais ou a outras pessoas que os escutem e lhes dêem crédito!
- Mas eu juro, Val, que nós não estamos gozando!- Continua Pedro, com ar sério e convicto. – Quantas coisas já temos presenciado juntos, tu e eu?
- Por isso mesmo é que eu acredito no que vocês me estão dizendo! Sei bem que há presenças e fenómenos estranhos ao nosso redor, e em toda a parte! E que por vezes, isso é visível e perceptível!
-E também sabemos que há malta que realmente, leva o tempo a pregar partidas e inventar coisas, só para se armarem em bons, e rir da cara e da credulidade de outros, inclusive dos próprios pais!- Diz João, com um sorriso. – Ao fim ao cabo, já topei com malta dessa, e mandei-os bugiar, porque estava na cara que eles estavam gozando!
- Pois! Bem sei quem são esses! Só sabem armar confusão, com essa mania dessas brincadeiras descabidas! A mim também tentaram fazê-lo e mandei-os ver se chovia!- Exclama Anselmo.
 -Bom, o que é facto, é que estávamos há pouco os três juntos, aqui perto, e vimos como que um foguete a voar à nossa frente, a grande velocidade! – Diz Pedro.
- Sim! Todos três ficámos como que pregados ao chão ao ver isso! – Responde ainda Anselmo.
- Como todos nós aqui presentes sabemos, não estamos sós no Universo, nós, seres humanos! Há outras criaturas para além das terrestres, ao redor do Planeta Terra e não só!
Os jovens concordaram, e cada qual dizia o que pensava e o que julgava saber a esse respeito, o que lera ou ouvira dizer...
A conversa continuou nesse tom, enquanto os dois jovens ficaram sentados ao pé de Valnice e de Pedro, e estes dois, jantavam, para depois os jovens irem todos juntos dar uma volta. Valnice preferiu ficar em casa, pois no dia a seguir, teria muito trabalho, e necessitava descansar.
Muitas outras coisas desse género são vistas e discutidas, amiúde, entre mãe e filho, pois eles sabem que o mundo invisível, por vezes, se torna não só visível mas cognoscível para eles e para muitas outras pessoas  como eles.
Dia a dia, continuam a partilhar experiências, a discutir casos e assuntos que tanto têm cariz espiritual como outros que o não têm. Mas que os interessam a ambos. Ambos gostam de expôr um ao outro o seu parecer, trocar ideias, aprofundar assuntos e temas das mais variadas esferas: sociais, políticos, desportivos, espirituais, e inclusive do mundo das artes  plásticas e da música. Todas essas coisas os unem e consolidam a amizade e a relação profunda, entre mãe e filho, de ambos.


FIM




Nely, Maio 2017


domingo, 7 de maio de 2017

Conto: UMA NOVA VIDA

“A Vida só é possível reinventada.”- Cecília Meireles
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.”- Jesus*


UMA  NOVA  VIDA

Eugénia passeia lentamente, à beira-mar... Perturbada ainda com o que lhe sucedeu há cerca de dois meses, saiu de casa, com o intuito de espairecer um pouco. Resolve sentar-se, momentaneamente, um pouco mais acima, na areia seca. Dá assim meia-volta, e vem para o lugar pretendido. O mar está esplêndido, com o radiante sol primaveril a brilhar, sem o obstáculo de qualquer nuvem.
Eugénia gosta imenso da Primavera. Tudo, nessa estação do ano, é renovação. Ela fica olhando para o mar por bastante tempo. Não há, na praia, senão uns escassos turistas, que nem sequer estão perto... Melhor assim! Nada interrompe os seus pensamentos.  Duas horas passam, assim, sem que ela dê por isso... As ondas, rasteirinhas, vêm morrer na areia, com o seu habitual ruído cavo, perpetuando a canção do mar. O sol refulge espectacularmente nas águas. Ao longe, alguém se aventurou num barquinho à vela, que, por momentos, se mantém ao alcance da vista, minúsculo e poético vulto triangular... Uma ligeira e agradável brisa remexe os cabelos negros, lisos e curtos de Eugénia...
Em que pensa Eugénia, tão absorvida?  Pensa que, efectivamente, aquilo que lhe têm dito várias pessoas, acerca do mar, bate certo com o que, agora, ela experiência: O mar, com todas as suas reconhecidas características, produz, na pessoa que junto a ele permaneça, por pouco tempo que seja, o salutar efeito de acalmar e ajudar a esvaziar a mente, ou até, meditar, inspirar-se... Quantas canções há, que falam do mar?! Quantos poetas sobre ele escrevem?! Quantos pintores o retratam?!
Nesses momentos, a paisagem marítima e os seus sons naturais falam-lhe de eternidade, continuidade, paz, beleza... falam-lhe de Deus, esse Deus para ela ainda um tanto desconhecido, Criador dessa Natureza no meio da qual ela se sente aliviada dos seus medos, mágoas, tristezas...
No meio da sua meditação, pensa ainda:
- Como será, vir aqui, de noite? Certamente, não deve cá vir ninguém! Quem se aventura, de noite, a chegar-se perto do mar? Só pescadores, certamente... E será que eles ainda partem, para a pesca, aqui da praia? Deve ser interessante passear ao luar, rente às ondas...
Mais calma, reflecte acerca do rumo a dar à  sua vida... Com vinte e nove anos, solteira, podia ter uma vida melhor... Mas, porém, dá-se agora conta de a que ponto foi ingénua, e demasiado confiante em quem tinha por perto... Podia ter evitado a situação em que se encontra actualmente... Bem diz o povo que “é melhor estar só do que mal acompanhado”!  Terá de ser cautelosa daí em diante, na forma de se relacionar com as pessoas à sua volta, para não voltar a envolver-se com ninguém que a possa ludibriar e prejudicar. Está aprendendo, a esse custo, uma dura lição!
Teve, até agora, duas opções, pela frente: partir daquele lugar, onde lhe aconteceram coisas desagradáveis, viajando para algum outro sítio, onde não seja conhecida... Onde possa encontrar paz... Ou ficar, e enfrentar, novamente, talvez, e com a possibilidade de insucesso, e consequentemente, de mais sofrimento, quem a levou à situação péssima a que chegou...
Experimentou, antes desses acontecimentos desagradáveis, tentar guiar-se pela religião de sua família. Encontrou, em si mesma, um vazio que os gestos  e práticas rituais não preencheram. Ela buscou em vários lugares,  em congregações diversas, uma resposta. Falaram-lhe de uma verdade que os comportamentos ao seu redor desmentiram... Ficou com pouca ou nenhuma vontade de se aventurar em congregações religiosas de qualquer espécie. Onde se encontra, então, a única, a autêntica Verdade? Certamente, não deve ser em nenhum desses lugares! Pareceu-lhe, há pouco, que a Natureza lhe queria falar dessa Verdade inefável, e notou que isso lhe adoçou, por algum tempo, a disposição... Dizia o célebre escritor português, Raul Brandão, numa das suas obras, e que Eugénia havia lido havia já algum tempo, que “talvez a poesia íntima, e ignorada, seja a mais bela, a que Deus escuta”1... Então, essa sinfonia das ondas, que ela escuta, ao passear e sentar-se à beira-mar, é poesia pura! Grandiosa! Eugénia sorri: É também a voz do Verdadeiro Deus a falar-lhe! Ainda lhe falta descobrir mais algumas coisas, para sentir-se liberta, pensa ela. Falta-lhe, também, e sobretudo, saber como expressar-se, diante dessa grandeza que a Natureza lhe revela...
Mas as coisas desagradáveis que lhe sucederam há pouco tempo levam-na a perguntar-se a si mesma: -Porque é que Deus não interferiu com algo, para impedir os acontecimentos que lhe provocaram tanta comoção? Porque teve ela que passar por experiências tão dolorosas e assustadoras? -Interroga-se  ainda Eugénia.
 Depois do vazio e frustração de uma religião que nada de bom lhe trouxe, a constante necessidade de encontrar paz interior  a levou a envolver-se  em outras práticas que, ao princípio, lhe  provocavam curiosidade... Foi assim adentrando-se  e familiarizando-se com ambientes como o de um terreiro  de  candomblé2, onde chegou a apanhar, em certa sessão, um valente susto: Há forças malévolas e superiores à do ser humano manifestando-se  nesses lugares...  E ela presenciou uma dessas manifestações por primeira vez na vida. Assustou-se realmente. Não gostou, obviamente, e quis ir embora... Não sentiu, por isso, paz, evidentemente, nem obteve qualquer resposta às suas grandes interrogações existenciais. Mas o companheiro, que estava lá com ela, forçou Eugénia  a assistir até ao fim, e quis depois, servir-se dela, para uma pseudo-sessão de espiritismo, já em casa, usando de violência: Ela negou-se a tal prática e revoltou-se. Ele agrediu-a. De tal forma que ela, agredida e posta de imediato, por esse companheiro,  na rua, da casa onde vivia com ele, foi parar ao hospital, com a bondosa e providencial ajuda de pessoas conhecidas, que iam passando na rua e se disponibilizaram de imediato em socorrê-la....
Depois da saída do hospital, passados alguns dias, Eugénia necessitou de tratamento psicológico, e de repouso absoluto, afim de recompôr-se das traumatizantes experiências vividas.
Abílio, esse seu temporário companheiro, foi  embora para  algum outro sítio. Desapareceu, sem deixar rasto, enquanto Eugénia  estava hospitalizada. Ela, por precaução,  preferiu e conseguiu, com ajuda de conhecidos, mudar de casa, após recuperar os seus pertences. Também foi aconselhada pelas autoridades, e por algum do  pessoal de serviço, no próprio hospital, a fazê-lo, e, se possível, ir embora daquela terra, sem revelar a ninguém o novo paradeiro. Isso, para despistar esse ex-companheiro que a maltratou.
Quanto ao seu trabalho, também teve de deixá-lo, e tendo tentado ficar de baixa, isso não foi aceite pela entidade patronal. Foi compulsivamente levada a rescindir o contrato que a ligava àquela empresa. Agora, quer dar um rumo diferente à sua vida, mas além do mais, teme o reaparecimento de Abílio. Já não quer voltar a vê-lo.  Sente  repulsa por ele. Sabe que ele foi indiciado pelas autoridades como indivíduo violento por aquilo que lhe fez,  e que a polícia  anda a procurá-lo. É natural, pois, que ele tenha fugido, ou, até, que se tenha escondido.
Quanto a ela própria, necessita, a longo prazo, de tempo de qualidade, a sós consigo mesma, para reencontrar-se, e tentar descobrir o que quer, ao certo, para a sua vida.
Eugénia sente-se, actualmente, de alma perdida, desorientada. Sabe que não se encontra em condições de ficar só,  e também, que precisa de ajuda, nesse momento difícil da sua vida. Sabe que não pode contar com a sua família. Os seus familiares repudiaram-na, por preconceitos e não aceitação da sua maneira de ser e de estar na vida. Deixaram, em seu coração, de contar para ela como o necessário apoio, como aquilo que deveriam ser. E apenas a proximidade da Natureza tem um salutar efeito sobre ela!
-Deus! Jesus Cristo! –Murmura Eugénia. -  Não te conheço devidamente, nem sei como falar contigo! Mas, se me ouves, por misericórdia, ajuda-me! Ajuda-me, Jesus! Será que me vais acudir? A quem mais vou eu pedir ajuda? Se não tenho ninguém!
Será que Jesus me ouviu?- Interroga-se ela. –Seria tão bom, se Ele me ajudasse!... Mas como vou saber a resposta a esse pedido? Será que Ele quer que Lhe falem como eu acabei de Lhe falar? De que maneira me poderia Ele ajudar? Ó Jesus! Onde estás? Acode-me, Jesus!- De joelhos na areia, mãos apertadas, em desespero, cabeça inclinada, de frente para o mar, ela fica, um longo momento, em atitude de espera...
Mas ao reerguer a cabeça, sente-se mais aliviada. Sente que o facto de ter implorado o auxílio divino a  aligeirou de alguma forma do seu fardo. Espera algo, não sabe bem o quê. Talvez obtenha alguma resposta... - pensa
 Apesar do seu sorriso de há pouco, agora, ao reerguer-se da areia branquinha, para regressar a casa,  e com o sol a pôr-se, há, todavia, nos olhos verdes de Eugénia, uma tristeza bastante notória, reflexo da grande mágoa que ainda lhe habita o coração...
Ao chegar a casa, Eugénia recebe, um convite, via telefone, de uma amiga, para ir passar uma temporada no campo. Esse convite já lhe havia sido feito cerca de um mês antes. Mas só agora é que ela se decidiu a aceitá-lo.  Ela percebe, de repente, que essa é a resposta de Deus à prece desesperada dela, de há pouco, frente ao mar!
- Obrigada, Jesus! Se esse convite é mesmo a tua resposta, ó Deus! Obrigada!- Agradece ela, subitamente animada. Algo novo, uma centelha de esperança, lhe faz bater o coração mais fortemente.   Felizmente, Abílio continua desaparecido. Ela se tem sentido perdida e desorientada, e tem tido também medo de ficar ali, na cidade, sozinha, sujeita ao reaparecimento, súbito e sem aviso, de Abílio, e a mais problemas. Com a aceitação desse convite, que lhe chega na hora certa, como um milagre, uma nova saída, um escape, ela tem a possibilidade de mudar de localidade, para bem longe, excluindo, assim, a hipótese de reencontros desagradáveis. Sabe que, lá onde Matilde vive, poderá ir passear, ter tempo para descansar o corpo e a mente, sem sobressaltos, meditar, e inclusive, fazer uma vida e uma alimentação diferentes.  E que todas essas coisas, juntas, a irão ajudar a curar-se física e mentalmente. Ela aceita, portanto, a proposta, de imediato. E parte, assim,  no dia a seguir, bem cedo, para a terra onde vive essa sua amiga, a Matilde, a cerca de  duzentos quilómetros de distância. Parte sem pena alguma do que deixa para trás. Nada mais a prende àquele lugar. Prefere procurar emprego, lá onde Matilde vive... Quem sabe, ela não arranja, por lá, algo em que goste de trabalhar, e possa assim ganhar a sua vida de modo mais agradável? Durante a viagem, Eugénia vai recordando como ela e Matilde se tornaram amigas, há alguns anos atrás... Apesar de Matilde ser mais velha do que ela, alguns anos, são muito amigas. Conheceram-se no Algarve, durante umas férias em que Eugénia e seus familiares se deslocaram ao sul do País, durante cerca de um mês. Matilde também havia vindo do centro do País, tal como eles, e ficara numa pequena vivenda, naquela localidade aprazível, sossegada. Na época, Matilde estava lá com familiares seus, na vizinhança mais próxima da casa que ocupavam Eugénia e seus pais e irmãos. Ali travaram conhecimento, e ficaram sendo amigas chegadas. Desde essa data, nunca mais deixaram de contactar uma com a outra. Quando não o fazem ambas por telefone, um postal, ou uma pequena carta, de ambas partes, mantém o seu contacto em dia. Para Eugénia, Matilde é como que uma sua irmã mais velha, com quem tem imensas coisas em comum.
Matilde é solteira, quarentona. Não muito alta, magrinha e vivaça. Usa roupas de estilo jovem, garridas, ao seu próprio estilo, não convencional. Dona de um sorriso rasgado e constante, é comunicativa e alegre. Tem cabelos encaracolados, castanhos aruivados, que usa agora semi-curtos, e uns olhos castanhos expressivos. Vive actualmente sozinha, nessa mesma pequena vila do interior, no meio da serra algarvia... Trabalha por conta própria, numa sua pequena loja de artesanato. Trata-se de uma pessoa extremamente positiva, dinâmica, sempre bem disposta, amiga de ajudar quem necessita... Quando Eugénia ali chega, algumas horas depois, e desce do autocarro, tem a amiga à espera.
- Até que enfim! – diz Matilde, sorrindo abertamente, e abraçando de imediato Eugénia, efusivamente. - Lá te decidiste, Geninha! Fizeste boa viagem?
-Um pouco cansativa, mas correu tudo bem! A hospedeira da camioneta foi  impecável comigo! Uma pessoa muito simpática!
- Ora, ainda bem! Deves vir com fome, suponho!
- Comi umas sandes na camioneta, e bebi uns sumos, mas agora, já tenho alguma fome, novamente, confesso!
- Ora, bem! Daqui a pouco, vais jantar comigo, pois já tenho o jantar feito.  Depois, descansas à tua vontade!
Vão andando, e rumam à sua casa, não muito longe dali. Quando lá chegam ambas, Eugénia  é muito bem recebida, com carinho e simplicidade. Matilde guia-a pela casinha humilde adentro, mostrando-lhe cada peça.
-Anda ver o teu quarto, e deixar lá as tuas coisas! Aqui, como vês, é a cozinha, com esta salinha ao lado. E cá está o corredor, e o acesso aos quartos. Aqui é a casa de banho, e já te preparei tudo o que é preciso, para tomares um bom banho, se e quando o desejares!
- Obrigada, Matilde! Tu és impecável!
-  De nada! E o teu quarto é este!- diz Matilde, sorrindo e abrindo, de facto, uma das portas, naquele pequeno corredor. Um típico quarto campestre, decorado de forma rústica e simples, mas alegre, surge diante dos olhos de Eugénia. Ela sorri também, ao ver um lindo e singelo ramo de flores do campo dentro de uma pequena jarra de loiça antiga, sobre uma pequena cómoda. Um pormenor amoroso, de que ela não estava à espera.
Eugénia sente-se, de repente, como se estivesse em sua própria casa, nessa pequena mas acolhedora divisão da casa da amiga. Sente um à-vontade que há muito não experimentava, nos vários lugares onde habitara... Uma sensação reconfortante.
- Ó Matilde! Como te poderei agradecer tudo o que estás a fazer por mim? Eu já andava a sentir-me perdida... Se não fosse o teu convite, feito de novo, confesso que não sabia onde me metesse, nem o que fizesse!
- Ainda bem que falámos ao telefone! Eu tive um palpite de que te deveria voltar a convidar para vires cá passar uma temporada! Estava, e ainda estou, a precisar de um pouco de companhia!
- Foi um palpite excelente! Na hora certa! Acho que foi a resposta d’Ele à minha súplica aflita de ontem à tarde! Obrigada, mais uma vez!
- O melhor agradecimento que me podes dar, é ficares por cá o tempo que te apeteça, e pores-te boa totalmente! Mas penso que deverias agradecer principalmente a Deus! Ele é que me deu esse palpite!
- Também acho! Agradeci-lhe  logo assim que me convidaste! Mas eu e Deus não somos propriamente muito chegados... Eu nem sei orar a Ele como deve ser... Há coisas, na religião, que me fazem muita confusão... Mas que Ele me ouviu, lá isso, não há dúvida!
-Pois falaremos de todas essas coisas nas nossas conversas, menina! Estou aqui eu, somos amigas, e posso ajudar-te a esclarecer todas as dúvidas que tenhas...
-Tu és religiosa, Matilde?
- Não! Eu sou crente em Deus!
-E não é a mesma coisa?
- Não! Já reparaste que não há quadros com imagens religiosas aqui em casa? E nem imagens de escultura!
- Realmente, não vejo cá nada disso!
- Pois não, porque eu não faço uso disso! Não preciso de imagens para adorar a Deus! Isso é religião, e eu apenas sou uma seguidora de Jesus Cristo, uma discípula d’Ele!
- Ah, bom! Assim, já gosto mais! E como sabes o que fazer, como orar, como adorar a Deus, a esse Deus, esse Jesus de que me falas?
- Em primeiro lugar, devo dizer-te que leio a Bíblia! Através dela, Deus fala à minha consciência, ao meu coração e ao meu entendimento!
- A mim, acho que Ele me fala através da Natureza!
- Sim! Também a mim! É bom que já tenhas essa sensibilidade, para que Ele te fale através da Natureza! Mas, quando - e se - quiseres, arranjar-te-ei uma Bíblia, para que possas lê-la, e instruir-te-ei como fazê-lo de modo correcto!
- Agradeço! Pois nunca ninguém me ajudou com isso!
- Vá, Geninha! Anda lá, então, jantar, que enquanto comemos, continuamos a conversa... Mas, não queres, agora, tomar primeiro um banho?
- Não! Fá-lo-ei de manhã, se não te importas! Hoje estou mesmo cansada!
 As duas amigas estão agora na cozinha e Matilde põe sobre a mesa uma frigideira cheia de ovos mexidos com tomate, e outra com cogumelos grandes, salteados... Tudo acabadinho de fazer! Um odor apetitoso invade o espaço de refeições. Uma larga tigela transparente, contendo uma salada de rúcula fresca com maçã, laranja, e frutos secos, acompanha os restantes ingredientes. Uma bela refeição campestre, para elas. Depois, para sobremesa, um doce caseiro, preparado por Matilde. Enquanto se sentam e se preparam para comer, Eugénia repara numa gatinha cinzenta tigrada, muito linda, que vem ter com Matilde, e a quem esta última faz festas e fala com voz de mimo. Depois, apresenta a gata a Eugénia:
- Esta é a Pérola! A minha bichinha de estimação!
- Tão linda! Vejo que também gostas de gatos, tal como eu!
- Adoro! Se gostas de gatos, estarás de bem com ela! Ela sente quando gostam dela, sabes?
- Claro! Os animais sentem essas coisas! São tão intuitivos, os gatos!
-Por isso mesmo é que gosto tanto deles! Também são uma das mais belas criações de Deus!
- Concordo!
- Olha, ó Geninha: antes de comer, se não te importas, vamos agradecer a Deus por esta refeição!
- Certo!
Matilde fecha então os olhos, baixa reverentemente a cabeça, e Eugénia olha-a, atenta, em silêncio. Nunca viu ninguém fazer tal coisa. Mas o respeito por esse momento, e pela sua amiga, a faz permanecer calada, enquanto Matilde ora, em voz audível:
- Senhor Deus, Pai Celestial, agradeço-te pelos alimentos que me permitiste pôr sobre esta mesa, e pelo facto de poder partilhá-los com a minha amiga Eugénia, aqui presente, ó Pai! Agradeço-Te, também, pela sua companhia, nesta hora, e por todas as Tuas Bençãos, e o Teu Amor, ó Pai! Abençoa esta refeição, Senhor! Amén.
- Amén! – Concorda Eugénia, maravilhada com a simplicidade e abertura de espírito com que Matilde dirigiu a Deus a sua prece. Ela própria, até àquele momento, só ouvira preces complicadas, repetidas de modo mecanizado, papagueadas de forma vazia, sem convicção. Ou ladainhas longas e sem graça, cheias de repetições... Agora, acabou de ouvir Matilde falar com Deus, como se, de facto, fosse alguém a falar com seu próprio pai. Matilde apercebe-se da surpresa de Eugénia e pergunta-lhe, sorrindo:
- Que foi? Porque estás assim tão surpresa? Nunca ouviste ninguém orar a Deus?
- Dessa forma tão directa e tão simples, nunca! Só ouvi ladainhas cansativas e rezas repetitivas, sem sentimento, que para mim, não faziam nenhum sentido!
- Ainda bem que não faziam nenhum sentido, porque é para não fazerem mesmo! Deus já te permitiu chegares a essa conclusão e isso é bom! Assim, vais certamente, e depressa, aprender como Deus gosta que oremos! Com as nossas próprias palavras, com o que nos sai do coração!
- Ena! Ainda agora aqui cheguei, e já estou a receber várias informações que, para mim, já são respostas a perguntas que fazia a mim mesma, há muito tempo!
- Que bom, Geninha! Que bom!
A refeição decorre animada, entre as duas amigas... Ambas conversam sobre o tema que ocupa a mente de Eugénia:
- Disseste que tinhas a Bíblia. Podes emprestar-ma?
- Vou mesmo dar-te uma, se quiseres. Era de uma familiar minha que aqui viveu. A ela devo o facto de ter-me tornado crente em Jesus há vários anos. Ela havia de ficar contente por eu ta oferecer. Pelo menos, essa Bíblia ainda seguirá sendo útil!
-Aceito! Mas vou precisar de orientação para começar a lê-la...
- Não te preocupes! Eu dou-te umas dicas, que a mim também me foram dadas. Assim, vais ver que lhe vais tomar o gosto. Se quiseres, lemos juntas, nas primeiras vezes, para ires-te habituando ao manuseio da Bíblia!
-Boa ideia! Aqui é um bom sítio, calminho, para aprender... Sem pressas e sem ninguém a interferir.
-Exactamente! E os únicos horários a respeitar cá em casa, são os das refeições, e o deitar e levantar. Esses horários ajudar-te-ão, tal como me ajudam a mim, a ter uma sã disciplina de vida! Verás! Faz-nos bem!
-Acredito! Tu tens um belo ar saudável!
Depois da refeição, arrumam rapidamente a cozinha, entre as duas, e ficam sentadas, ao pé da  lareira acesa, porque as noites ainda são frescas ali naquela zona, e naquela época do ano. Ali se mantêm, ambas, por algum tempo, conversando.
Matilde trouxe, para aquele espaço, a prometida Bíblia, e ensina Eugénia a utilizá-la de forma metódica. Começam por explorar o índice, e consultar uma passagem do “Evangelho Segundo S. Mateus”3. Finalmente, as coisas começam a fazer sentido para Eugénia. Matilde oferece-lhe aquela Bíblia, e um caderno novo, afim de que a amiga possa fazer anotações, durante a leitura.
Espantada, Eugénia descobre, durante esse serão, que a famosa oração “Pai-Nosso” está integrada num relato bíblico, e é, afinal, um exemplo e modelo de oração facultado por Jesus aos seus discípulos3. Afinal, não é apenas mais uma reza monótona, para papaguear! Fica feliz por analisar esse trecho e concluir que cada palavra desse exemplo de oração tem um alcance e um significado profundos, que deveriam ser meditados a preceito.
Como, apesar de todo o interesse por ela  manifestado, em relação ao tema que debatem, Eugénia dá mostras, já, de bastante cansaço, Matilde resolve parar a lição bíblica.
- Amanhã, voltaremos a pegar nesse tema!- Promete ela, sorrindo. - Vejo que te interessa bastante, mas esse assunto tem “pano para mangas”! Fico, desde já, feliz de ver como encaras todo este ensino! Mas estás muito cansada e tens tempo para ires aprendendo! Será melhor, agora, ires já descansar!
Matilde repara, também, que, durante aquela entusiástica conversa, Eugénia abriu o caderno e fez algumas anotações, que lhe mostrou:
Data, tema escolhido, referências bíblicas, versículos bíblicos. Inclusive, ela copiou o texto da oração, escrevendo como cabeçalho:
«“Pai-Nosso”: Modelo de oração – como nos devemos dirigir a Deus, nas nossas orações.»
Matilde aprova, satisfeita: a amiga está já bem encaminhada. Para um primeiro contacto com o Livro Sagrado, deu um passo enorme, avançou bastante.
Eugénia dorme melhor, nessa noite, do que em meses seguidos, alguma vez, conseguiu... O sossego daquele lugar; as energias positivas daquela casa; daquele quarto acolhedor; a segurança de estar agora a salvo de más surpresas; a satisfação das descobertas acerca da Palavra de Deus; Todas essas coisas trouxeram- lhe a paz suficiente para dormir maravilhosamente.
No dia seguinte, acorda cedo, sentindo-se fresca e repousada. No espelho da casa de banho, vê o seu rosto, já sem olheiras. Sorri para si mesma, e mete-se no banho, cantando, coisa que também há muito tempo não fazia. A vida de Eugénia está literalmente a mudar da noite para o dia.
Vestida com roupas simples e confortáveis, como é seu costume, dirige-se à cozinha, onde Matilde já se encontra, preparando coisas para o pequeno almoço de ambas.
-Então, amiga, que tal dormiste?
- Maravilhosamente!  Até cantei no duche, vê lá tu!
- Eu ouvi-te! Eh! Eh! Eh! Fico feliz de te ver assim, bem-disposta, fresquinha, alegre! Dá gosto ver a tua mudança!
- E a mim, sabe-me tão bem sentir-me assim!
- Queres vir comigo, um pouco, agora, à minha lojinha?
-Sim! Quero! Tenho curiosidade de ver o que lá vendes...
- Artesanato produzido por mim, e por outros artesãos daqui...
-E isso vende bem?
- Razoavelmente! Eu consigo viver disso! Sou a única a ter uma loja destas, cá! Ao princípio, tive de investir algum do meu dinheiro, é claro! Mas agora, já recuperei algum desse capital...
-Eu vinha na viagem pensando que talvez fosse bom eu procurar trabalho cá por estas bandas...  Assim, cortava de vez com aquele ambiente de onde estive, e com a possibilidade  de aquele idiota me voltar a molestar! Achas que consigo?
Matilde olha para Eugénia, aprovando com um sinal afirmativo de cabeça, e tendo uma ideia súbita, expõe-a de imediato, espontânea como é:
- Ouve lá, ó Geninha! Diz-me uma coisa: -Gostas de artesanato? Se soubesses produzir algo artesanal que desse para ser vendido na minha loja, podias trabalhar comigo! Acaba de me ocorrer esta ideia!
- Se gosto? Adoro artesanato! Há que tempos que não faço nada dessas coisas! Mas sei fazer costura, aprendi a fazer bonecos de pano, em tempos... Poderia fazer alguns engraçados!
-Olha, isso era fantástico, se conseguisses voltar a fazer alguns!... Eu tenho máquina de costura... facilitava-te! E na biblioteca local, há alguns livrinhos ensinando a fazê-los... Podemos ir lá, requisitar até três livros, copiar alguns modelos básicos, e moldes, para te orientares inicialmente, e depois, fazes os bonecos com sobras de tecidos que cá tenho, dos meus próprios trabalhos,  lãs, e outros preparos... o que gostares mais!
- Boa! Assim que pudermos, então!
Já na lojinha, Eugénia fica encantada com a simplicidade de tudo o que lá encontra. Mas nota que, realmente, não há bonecos de pano ali, à venda. O que Matilde fabrica, são malas e sacolas em todo o tipo de tecidos. Matilde explica também que a sua loja é a única do género, e ninguém, que ela tenha conhecimento, produz nenhuns bonecos de pano, na vila, por enquanto. É a oportunidade de Eugénia que surge, assim, de trabalhar em algo de que gosta, sem nenhuma concorrência.
Matilde liga o seu aparelho leitor de CD, tendo introduzido um CD com temas antigos de Roberto Carlos. Começa-se a ouvir então uma música sobejamente conhecida do famosíssimo cantor, falando de Jesus: “Ele está p’ra chegar”4.
Eugénia reage acompanhando a canção que conhece bastante bem, cantando um pouco do refrão ela mesma. Matilde sorri.
Eugénia comenta:
- Até a música Deus está a usar, para falar comigo! É espantoso! Obrigada, meu Deus! Obrigada, Jesus!
Matilde responde:
- Sim! Deus usa a música também, amiga! O Senhor tem inúmeros recursos para tratar connosco! Creio que isso é um sinal inequívoco de Deus, Geninha! Aqui tens a proposta  de um caminho a seguir!  De um trabalho para fazer! E de que gostas! Mas, só se quiseres, pois Deus não força ninguém, e nem eu te imponho nada! És livre!
- Deus fala  e responde-nos de forma estranha, mesmo! Mas, no entanto, maravilhosa, Matilde!
- Sim! É verdade! Deus conhece-te bem, porque te criou. Ele sabe do que gostas, o que necessitas para a tua vida, o que te pode fazer feliz! Só precisas de entregar-lhe a tua vida, e deixar que Ele cuide de ti, à Sua sábia maneira! Deus quer que tu sejas feliz, porque Ele te ama, Geninha!
- Falas com tanta convicção, que estou a acreditar no que dizes! Porque também estou comprovando que, realmente, Ele se importa comigo, e me está a ajudar muito, nos últimos dias!
- Claro que sim! Vamos a isso, então?
- Vamos!
Assim, as duas amigas associam-se a partir daquele dia, no trabalho artesanal, cuja preparação lhes ocupa, inicialmente, duas ou três manhãs, por semana, em casa. De tarde, Matilde e Eugénia vão até à loja, durante um par de horas, e depois, se necessário, vão às compras juntas, regressando então a casa, para preparar a sua refeição da noite, que comem, enquanto conversam e fazem planos entre as duas. Depois, durante cerca de duas horas, dedicam-se, cada noite, ao estudo e leitura da Palavra de Deus, lendo a Bíblia, e escrevendo Eugénia as suas anotações, tirando dúvidas... Matilde responde conforme sabe e conforme o que ambas encontram registado na Bíblia.
Eugénia aprende, nessas meditações, que Deus não nos dá espírito de medo (temor), mas sim de fortaleza.5 Compreende, assim, que o medo que antes sentiu era algo oriundo das trevas em que viveu mergulhada, antes de começar a ler a Palavra. Numa dessas primeiras noites, depois de jantar, Eugénia faz, com a ajuda de Matilde, uma oração sentida, de entrega de sua vida a Jesus Cristo, recebendo o Senhor em sua vida, como  Senhor e Salvador pessoal. Nessa mesma noite, Eugénia tem um sonho em que vê Jesus, e em que Ele lhe fala. Ao acordar, recorda perfeitamente o sonho, contando-o a Matilde.
-Jesus está mesmo a cuidar de ti, e a chamar a tua atenção!- Replica Matilde ao ouvir o relato desse sonho de Eugénia. –Digo-te mais: não foi um sonho!
- Não? Então? Como  o sabes?
- Foi algo real, só que o Senhor aproveitou um momento específico de receptividade da tua mente,  e do teu espírito, entre o sono profundo e a vigília,  o qual é designado por “estado alfa”6, pelos especialistas,  e esteve contigo, nesse momento, falou-te de maneira que pudesses lembrar-te disso!
-Sabes tantas coisas, Matilde! Como consegues?- Diz Eugénia, sequiosa de conhecimento, olhando para a amiga com olhar ansioso.
- Leio bastante! E a leitura é uma prática que, bem orientada, nos ensina muito! Ando a estudar o funcionamento da mente humana. As coisas que já descobri esclarecem-me muito, em relação a fenómenos como esse, desse suposto sonho teu!
- Deve ser uma questão de saber que livros ler, certamente...
- Sim, claro! Podes ler qualquer um dos que se encontram na estante da salinha! Tens ali bastante escolha. Desde livros de auto-ajuda, de que eu própria já necessitei, há tempos atrás, a livros de psicologia, se gostares do tema, e livros de meditações evangélicas, ou católicas carismáticas, entre outros... Alguns desses livros são realmente uma benção! Também ali tenho alguns que são relatos de testemunhos marcantes, que nos edificam realmente!
-Combinado! Deitarei uma olhadela, e começarei pelo que mais me desperte a atenção! Obrigada!
Eugénia assim faz, e passa, então, a ter, na cabeceira, livros para ir lendo todas as noites, ou em momentos do dia em que lhe apeteça fazer uma pausa... Inclusive, tendo-se inscrito como leitora na Biblioteca local, traz, de vez em quando, algum que lhe agrade.
Apesar de colaborar com Matilde, na produção de artesanato para a loja, ela tem a liberdade  de tirar, de vez em quando, um tempinho só para si. Matilde sabe quão fraco ainda é o equilíbrio psicológico de Eugénia. Não a força, por conseguinte, a fazer seja o que fôr. Está ali para ajudar a amiga, e sabe que na sua missão em relação a Eugénia, ainda tem bastante que fazer. Porém, a nível oficial, e para ajudar a amiga a resolver questões práticas, ofereceu-lhe o trabalho de colaboradora, e fez-lhe um contrato de part-time, relativo a esse trabalho. É um trabalho remunerado oficialmente, com todos os aspectos legalizados.
Aconselhou também a amiga a mudar de número de telemóvel, afim de que ninguém a aborreça com chamadas indevidas, principalmente aquele ex-companheiro que pode lembrar-se de a molestar novamente...
Eugénia seguiu o conselho de Matilde, e mudou de cartão e número de telemóvel, sentindo-se, assim, mais descansada em relação a esse assunto.
Assim passam alguns meses, em que a companhia  e ajuda de Matilde são preciosas para Eugénia.
A mudança de ambiente também foi salutar. Eugénia já não parece a mesma. Inclusive, ao dedicar-se ao seu novo trabalho, fez, para si mesma, por gosto, uma linda boneca de pano, de tamanho suficiente para se ver bem,  e que depôs sobre a cama.  A boneca tem os cabelos encaracolados, castanhos, apanhados no topo por um lacinho do mesmo tecido estampado de flores  do vestido que ostenta,  os olhos risonhos, castanhos, também, e um lindo sorriso. Chama-se Tilda, em homenagem a Matilde. Há muito que Eugénia sonhava fazer isso, e conseguiu-o na perfeição, com a ajuda da máquina de costura de Matilde, e o aproveitamento de materiais que sobejam dos artesanatos têxteis desta.
Uma manhã, à mesa do pequeno almoço, Matilde está a conversar, a respeito dessa mudança, com Eugénia:
- Estás tão diferente de quando aqui chegaste, Geninha! Até ganhaste algum peso, tens melhor aspecto, agora! Bravo!
-Graças a ti, Matilde! E graças a Jesus!
-Sobretudo graças a Jesus, e à tua decisão acertada de vires para cá!
-Só Deus, mesmo, podia ajudar-me desse modo maravilhoso! E utilizar-te a ti, que considero, actualmente, como mais do que uma amiga! Tornaste-te a irmã que eu nunca tive, e a família que substitui a minha família consanguínea!
- Como dizia a saudosa escritora Fernanda de Castro, “os amigos são a família que escolhemos”!7
- Sem dúvida, Matilde! É uma grande verdade!
-Queres continuar por cá, Geninha?
- Quero pois!
- Estás à vontade, então! A tua companhia tem sido preciosa para mim!
- A tua também o tem sido para mim!
- Mudando de assunto, Geninha: Já pensaste em orar ao Senhor, no sentido de te ajudar a perdoar os teus familiares, e tentares voltar a contactá-los?
- Penso muitas vezes nisso! Mas é tão difícil perdoar, Matilde!
-É mesmo! Ninguém diz que é fácil, realmente! Custa muito, por vezes! Mas lembra-te do modelo de oração do Pai-Nosso, Geninha! Devemos perdoar, para sermos perdoados!
- Bem sei!
- Ora ao Senhor sobre esse assunto! Bem sabes que Jesus não nega ajuda a ninguém!
- Tens razão, Matilde! Fá-lo-ei!
-Lembra-te de um pormenor, Geninha: Falta de perdão, mágoas, ressentimentos, são, na nossa vida, como lastro excessivo e inútil num barco. E esse lastro é mesmo prejudicial, em certas ocasiões da nossa vida! A vida de cada ser humano é como uma travessia de um rio ou de um mar, e há que saber quando largar, borda fora, o lastro excessivo, e retirar assim o peso, o fardo que impede o barco de navegar mais facilmente!
-Gosto da forma como explicas as coisas! É tremenda!
- É Jesus que me inspira a forma de falar, e  o que dizer, quando é preciso, Geninha!8
-Graças a Deus! Agradeço a Jesus por ter-te como amiga, e pela tua preciosa ajuda! Sem ti, onde é que eu estaria?
-Apenas faço a vontade do meu Mestre! E gosto de poder ser útil!
- Do nosso Mestre! Agora, eu também já sou discípula de Jesus!
- E eu  fico feliz por tudo isso! É gratificante ver o resultado da minha obediência a Jesus, actuando na tua vida! E o resultado da tua disposição em mudar de vida e querer aceitar o domínio de Jesus sobre ti!
- Eu estou muito feliz, Matilde! Nunca pensei que a minha vida poderia mudar tanto e de eu vir a ser tão feliz como sou actualmente!
Eugénia vai, a pouco e pouco, por meio de oração e atitude humilde diante de Deus, conseguindo uma feliz mudança em seu viver. Perdoou e contactou os seus familiares, que, a princípio, estavam duvidosos sobre a modificação sofrida por Eugénia. Mas, algum tempo depois, foram-se convencendo da realidade: Eugénia telefona-lhes. Envia-lhes fotos suas, da loja de Matilde onde continua a trabalhar. Dos seus trabalhos, que estão a obter bastante sucesso. Das feiras em que participam ambas. Fala-lhes de Jesus, a quem deve essa grande mudança. Em troca, eles mostram-se satisfeitos, e dão-lhe, inclusive, a notícia de que Abílio foi apanhado, finalmente, pela polícia.  Está preso, desde há pouco tempo, tendo usado de violência contra outra mulher, que também o denunciou às autoridades.
-Falta-te perdoar em teu coração, a essa pessoa! – Diz-lhe Matilde, quando Eugénia lhe transmite a notícia recebida.
-Perdoar? Mas mesmo que ele saia da prisão, nada mais quero com ele!
- Claro que não, Geninha! Mas vais ver que te vais sentir mais leve! Deus manda-nos perdoar os nossos inimigos, e aqueles que andam vivendo desordenadamente. Mas não devemos, sequer, voltar a acompanhar com eles, mas sim desviar-nos! Porém, ao perdoar, estamos a ficar mais limpos de coração, e isso agrada a Jesus!
- Dessa maneira, sim, de acordo! Que Deus me ajude a perdoar e esquecer o Abílio!
- E deverias orar, ainda,  para que a vida dele se modifique! Quem sabe, na prisão, ele não tem uma oportunidade de mudar?
- Achas mesmo?
- E porque não? Não sei se sabes, mas há pastores e missionários, que vão periodicamente visitar os presos, e pregar-lhes a Palavra de Deus, tocando assim nas consciências dessas pessoas. E alguns convertem-se mesmo!
-Ainda bem para eles!
-O principal, aqui entre nós, e no que te diz respeito, é que tu própria tenhas já o coração aberto aos ensinamentos de Deus, e  a disposição para os pôr em prática! Isso faz toda a diferença em ti, na tua personalidade, na tua maneira de estar na vida, na tua felicidade!
-Abençoado o dia em que aceitei Jesus como Salvador!
-Amén!
E assim, Eugénia mudou de vida, e segue sendo feliz, vivendo ainda,  e colaborando, com Matilde, como irmãs em Cristo, e como artesãs profissionais. De vez em quando, Eugénia recebe a visita de familiares seus. Fizeram as pazes com ela. No entanto, para seu próprio bem, e de acordo com eles, ela não pretende voltar à terra onde vivia antes. Mas, junto de Matilde, nessa pequena vila do interior da Serra Algarvia, está em paz, e segue aprendendo, como discípula do Senhor Jesus.


FIM
Notas:
* Ev.S. João, cap.14, vers. 6 – (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida).
 1) Extraído da obra “Os Pescadores” de Raul Brandão.
2) O candomblé é uma religião de origem brasileira/africana.
3)Ver o Ev. S. Mateus, cap. 6:1-18 (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida).
4)“Ele Está P’ra Chegar”- Tema de Roberto Carlos.
5) Ver a 2ª Epístola de  S. Paulo a Timóteo, cap.1, vers. 7 (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida). “Deus não nos tem dado espírito de temor, mas sim de fortaleza, e de amor, e de moderação.”
6)Conforme  nos diz Lauro Trevisan em “O Poder da Mente”.
7)Fernanda de Castro, em “Ao Fim Da Memória”.
8) Inspiração dada por Deus, para falarmos aos outros: Ev. S. Mateus, cap.10, vers.19, 20. (Biblia Sagrada, Novo Testamento, Ed. Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida)

Conto: O Enviado

Este conto é especialmente dedicado ao meu querido filho, Marcos Carlos.

O   ENVIADO

As ordens haviam sido claras: ele devia testar, uma por uma, todas aquelas pessoas que lhe iriam sendo indicadas.
- Agora, vai, Miqueias! - Disse-lhe o seu Mestre, com um sorriso benévolo. - Quanto antes comeces a cumprir essa missão, tanto melhor! Eu irei estando ao corrente! E vou indicando-te tudo o que tenhas que ir fazendo, onde deves dirigir-te e a quem! Vai, amigo! Bom trabalho!
- Sim, Mestre! Farei tudo o que me ordenas! É uma honra e um prazer, para mim, servir-Te, obedecer-Te! Graças, por esta nova missão! Pela Tua benignidade para comigo! Graças!
Miqueias retirou-se da presença do seu Soberano e Mestre, com uma profunda e respeitosa vénia. Embarcou no carro que o levaria longe, bem rapidamente. O Mestre sorriu, satisfeito: aquele seu servo era único, exemplar!
Haveria muita gente que submeter à prova que lhe havia sido pedido que realizasse. Ele, um mensageiro distinto, já atravessara várias eras, mantendo o seu aspecto de jovem adulto: Os cabelos longos, escuros, que nunca haviam sido cortados, tal como os do Mestre, a barba lisa onde nunca passava navalha, tudo isso por ser nazireu. O seu olhar era límpido e compassivo, franco e directo. Sendo um coração puro, e não tendo nada a temer, nem a esconder, encarava fosse quem fosse com o seu olhar sereno. Sabia que, por entre a multidão de vassalos de que o seu Rei estava constantemente rodeado, nenhum havia como ele próprio, embora só os íntegros e os mais puros tivessem o privilégio de poder chegar perto do Rei. Cada um dos seus súbditos era incumbido de uma missão específica, mais ou menos duradoura, mais ou menos prolongada, consoante se apresentasse a necessidade. Miqueias já havia sido, mais de uma vez, incumbido de missões difíceis, que só ele, no dizer do seu Mestre, era capaz de realizar. E, de cada vez, havia sido agraciado com condecorações e prémios, e apontado como exemplo máximo aos seus companheiros. Cada uma dessas missões era levada a cabo com mais ou menos dificuldades, e sempre, no entanto, corajosamente. Miqueias sempre dizia aos seus companheiros que, pelo seu Mestre, Senhor e Rei, tudo valia a pena, tudo era possível de ser executado. Ele, Miqueias, amava-O mais do que a própria vida, e daria, de bom grado, essa mesma vida, sem hesitar, por Ele!
Passou cerca de um mês terrestre... Miqueias foi a vários lugares,  levar as mensagens do seu Mestre a humanos que as tinham que receber. Correra vários perigos, sofrera contrariedades e atrasos indesejados, mas conseguira cumprir as ordens recebidas. Quase tudo estava cumprido. Faltava agora apenas uma localidade onde ir, e uma tarefa a pôr em prática.
Miqueias apresentava-se, normalmente, vestido consoante as épocas atravessadas, na Terra, e conforme o aspecto considerado normal nessas eras, pelos humanos, com os quais ele se tornava parecido, afim de não chocar nem escandalizar fosse quem fosse. Metamorfoseava-se como e quando era necessário... Isso não era algo de sua vontade própria, mas uma adaptação que lhe era imposta em cumprimento do dever. Era como um soldado que se caracteriza com camuflagem para passar despercebido no campo de batalha, incógnito e invísivel perante os inimigos... Ele aceitava sempre essa adaptação, de bom grado, pois sabia-a necessária, e não se importava com isso: Tudo por servir ao Mestre, mais e melhor! Desta feita, em pleno século vinte e um, trajava uma simples camisa de flanela, com padrões de xadrez, um blusão de ganga, com aspecto um pouco gasto, umas calças que pareciam ser de ganga, também um tanto desgastadas, como estava nesse momento na moda, na Terra... O calçado tinha o aspecto de já ter sido usado durante algum tempo. Estava bem disfarçado, de peregrino que chega de longe, para aquilo que tinha a fazer, de momento: bater a certas portas daquela aldeia perdida na serra, testar algumas dessas pessoas, pedindo ajuda. As reacções das pessoas demonstrariam as intenções dos seus corações, e o seu humanismo. Miqueias sabia que o seu aspecto actualizado poderia convencer pelo menos algumas daquelas humildes pessoas que por ali viviam, com muito fracos recursos. Outras casas havia ali, de pessoas que haviam-nas herdado das suas famílias, e onde apenas podiam ir nas férias, por ter tido que emigrar para as cidades, em busca de trabalho. Essas eram pessoas com mais recursos. E ele, possivelmente, também convenceria alguns dos ricos, cujas mansões se encontravam por perto, embora não fossem muitos. O Mestre lhe assinalaria prontamente a que portas bater. Isso não tardou, de facto, pois de imediato, consultou-se com Ele:
-Mestre! Agora que acabei de chegar, diz-me a que portas hei-de ir bater, suplico-Te! - Pediu, num murmúrio, enquanto parava à entrada da aldeia, como que para retomar o fôlego, depois de uma árdua caminhada.
Ninguém, humanamente limitado à simples existência terrena, e sem o dom de visão espiritual, poderia ter visto que ele acabara de descer de um carro celeste. Sabia que o anjo que o transportara até ali se pusera à sua disposição, mas que, de momento, também tinha ele próprio outras tarefas a realizar, não muito longe dali.
Bateu a uma porta, depois a outras e outras, ainda. Algumas abriram-se, atendendo-o afavelmente quem à porta aparecia. Noutras nem recebeu resposta. Outras, ainda, foram entreabertas de má vontade, e com maus modos, fechando-se-lhe de seguida na cara e à bruta. Inclusive, implicaram com o facto de ele ter o cabelo comprido, e chamaram-lhe nomes, embora ele o tivesse atado atrás, para aligeirar um pouco o seu aspecto: humilde, mas asseado, limpo. Ele não se espantou com o facto, pois já estava à espera disso. Já não era a primeira vez que provocava nas pessoas esse tipo de reacções. Havia muita gente preconceituosa no mundo! Ele não as julgava pelos seus comportamentos. Apenas as estava a assinalar ao seu Mestre.
- Mestre! – Disse ele, baixinho, depois da última porta daquele pequeno arruamento se ter fechado nas suas costas. – Estão assinaladas as pessoas que me indicaste! Que mais desejas que faça, meu Senhor?
-Missão cumprida, Miqueias! Agora, deixa-os comigo! Reagiram como lhes ditaram os corações, e eu estava a dar-lhes nova oportunidade! Semearam aquilo que irão colher, em justiça! Agora, vai àquela casa, do outro lado da rua! - Disse-lhe a Voz Divina e Interior que o guiava em todo o tempo. Está lá uma das minhas filhas, muito querida, que me serve de todo o coração. É uma jovem. Quero que a conheças. Ser-te-á de muita ajuda, e receber-te-á muito cordialmente. Chama-se Isabel. Ela falará contigo e te contará pormenores da sua vida. Está avisada por Mim da tua vinda. Mas não lhe reveles que és um Imortal! Nem lhe digas que sabes o seu nome! Apresenta-te do modo que te ordenei.  Deixa que ela se te apresente também, e que ela própria te fale de si! Ela apenas espera um servo de Deus, um peregrino, nada mais!
-Certo, Mestre! Assim seja! – Respondeu, baixinho, Miqueias. – Estou nas Tuas Mãos, meu Senhor!
Pouco depois, bateu à porta daquela vivenda típica. Uns passos se fizeram prontamente ouvir, e uma voz fresca, alegre e juvenil perguntou, de dentro:
-Quem é?
-Se faz favor!
Após alguns ruídos característicos de quem destranca uma porta, esta abriu-se um tanto pesadamente. Diante de Miqueias, estava, de facto, um rosto jovem. Miqueias reparou que Isabel era bonita: Cabelos pretos compridos, fartos e brilhantes, presos num rabo-de-cavalo lateral. Olhos verdes e grandes, pestanudos. Pele branca e delicada. Altura média, e um corpo bem proporcionado. Vestida simplesmente, com uma calça de ganga clara e uma blusa de algodão estampada, de mangas arregaçadas. Uns ténis simples. A simplicidade em forma de mulher! O servo de Deus apresentou-se:
- Bom dia, minha senhora! O meu nome é Miqueias, e sou um peregrino. Peço desculpa de a incomodar! Acabo de chegar a esta aldeia… Preciso de ajuda, e bati à sua porta, na esperança de que me pudesse fornecer algum alimento, pois o pouco dinheiro que eu trazia comigo se me acabou e necessito algo de comer…
-Bom dia! Ajudá-lo-ei, com certeza! Entre! – Disse prontamente a jovem, cujo sorriso juvenil se manifestava agora, depois de o ter escutado muito seriamente, e observado com atenção. Isabel acabara de conferir que Miqueias correspondia inteiramente à descrição que o Mestre lhe acabara de dar, pouco antes, a seu respeito, e que ali estava, sem mentiras, nem subterfúgios. Ela fora efectivamente avisada da vinda do peregrino, do seu aspecto e do seu nome. Havia-lhe sido pedido que o recebesse cordialmente, por se tratar de um servo de Deus, um verdadeiro cristão.
- Ouça, Miqueias: é a minha vez de me apresentar. O meu nome é Isabel! Esta é a casa dos meus pais, onde costumo passar férias. Sente-se aqui, à mesa, por favor! Descanse um pouco! E, já agora,  faça-me companhia para o pequeno-almoço! – Ofereceu ela, indicando-lhe uma cadeira, na divisão onde o fizera entrar.
Tratava-se de uma cozinha rústica, que servia ao mesmo tempo de sala, como era costume nas casas de campo tradicionais.  A mesa estava posta, bem fornecida, do que parecia constituir um pequeno almoço moderno.
Ele seguiu a indicação dela e sentou-se no lugar oferecido. Entretanto, Isabel aproximara-se de um  antigo guarda-loiças, de onde extraiu uma antiga caneca de loiça típica da região, e um pratinho do mesmo género, para além de um copo de vidro colorido e trabalhado, coisas que apanhou ao abrir a porta dupla de vidro transparente. Dispôs os objectos na mesa, diante do lugar onde Miqueias estava finalmente sentado. Depois, de modo rápido e grácil, abriu uma gaveta do mesmo guarda-loiças, de onde extraiu, por sua vez, um garfo, uma faca, uma colher pequena, que lhe entregou à mão, gentilmente, dizendo, em tom de confidência e sem deixar de sorrir:
- Sirva-se! É um prazer para mim ter companhia para esta refeição matinal! Estou aqui passando umas breves férias, após as quais terei de regressar ao trabalho,  a alguns quilómetros daqui!
- Se eu não estiver sendo indiscreto, em que trabalha, Isabel?
-Sou enfermeira, em Lisboa, na maternidade Alfredo da Costa!
- E gosta do seu trabalho?
- Muito! É algo para o qual sempre senti vocação: ajudar pequenos seres humanos, frágeis e indefesos, a vir ao mundo! É um tanto cansativo, por ter uma carga horária prolongada, diariamente, mas empolgante! Sabe, Miqueias, em cada parto presenciado, em cada recém-nascido que ajudo a pôr no mundo, vejo sempre, sem cessar, o Milagre da Vida! É fascinante! E disso, não me canso nunca!
- Calculo que assim seja! Também já tive ocasião de presenciar alguns, não directamente, mas através da televisão. Sou da mesma opinião! É maravilhoso! Mexe connosco, não é verdade?
-Mesmo! Muito! E você, Miqueias? Disse-me há pouco que é peregrino…
-Sim! Já andei muito, de terra em terra... Já desempenhei alguns cargos de muita  responsabilidade... Tinha de viajar muito, nesses trabalhos... Acabo de chegar de viagem, como lhe disse, e sou cristão.  Também trabalho para o meu Mestre e Senhor, sempre que necessário!
A conversa prosseguiu, em ameno convívio, durante aquela refeição. Combinaram que Miqueias poderia ficar o tempo necessário naquela casa, enquanto Isabel estivesse de férias. Depois se veria o que poderiam fazer, no tocante à estadia dele ali .
Passaram ambos horas agradáveis, em que Miqueias se ofereceu para ajudar Isabel a arrumar  a casa e consertar algumas coisas, fazer um pouco de limpeza nas várias divisões.
Havia já vários dias que Miqueias se encontrava a viver na casa de Isabel ... Sentia-se feliz após ter cumprido a parte essencial da missão que o seu Mestre lhe incumbira, nessa aldeia, e sabia que não estava a desobedecer de modo algum ao que lhe havia sido ordenado. Pelo contrário, fora recebendo mais directrizes do seu Senhor, e por isso se encontrava ali.  A sua nova amiga era simpática. Recebera-o impecavelmente. Mas ele sentia nascer por ela algo de que não estava à espera, de todo. Em oração íntima, num momento em que ela não se encontrava perto,  falou a esse respeito com o Mestre:
- Meu Senhor! Que é isto, que agora sinto? Sabes que eu nunca tive nenhuma mulher...
-Meu caro Miqueias! Não criei nenhum ser para estar só! Nem a ti! Bem o sabes!
- Mestre! Nunca pensei, como nazireu que sou, que me fosse lícito gostar alguma vez de uma mulher! Porquê este sentimento que agora me invade, então?
-Miqueias! Escuta: Eu nunca disse que não fosse lícito a um nazireu amar uma mulher, ter uma companheira! Vós, nazireus, apenas não deveis corromper-vos com mulheres, envolvendo-vos com as gananciosas, as prostitutas, e as que vivem levianamente, envolvendo-se elas próprias com quaisquer homens que lhes apareçam diante! Vós sois santos, separados para Mim! Mas nunca impedi nenhum servo meu, sendo nazireu, de ter sua esposa, seu lar, seus filhos, inclusive!
-Então, eu estive sempre com ideia errada a esse respeito, Mestre!
- Em parte, Miqueias! Apenas em parte! Fizeste bem em não te envolveres antes com nenhuma mulher! Mas agora, posso revelar-te algo... Tu sabes que os meus desígnios são secretos, meus, impenetráveis à mente humana!
- Sei, sim, meu Senhor!
-Pois então, agora, o que sentes começar dentro de ti, é o Amor, por essa tua amiga. E por isso te interrogas, certo?
- Sim, Mestre! Sabes que me sentia só, quando, tantas vezes, vinha em cumprimento de algumas missões,  afastado de Ti e da Tua Cidade Celestial... Sentia que me faltava algo, em todo este tempo!
- E nunca te perguntaste  o que é que te faltava, amigo? Lembra-te lá!
-Agora que penso nisso, Mestre, posso dizer que me sentia como Adão, antes de lhe teres dado Eva!
- Exactamente!Desde sempre, reservei para ti um tempo em que poderias, por fim, viver com alguém de quem gostasses mesmo! Alguém como a Isabel! Que esteja ao mesmo diapasão que tu! Esse tempo chegou, finalmente! A tua missão principal está cumprida! Desempenhaste, finalmente, tudo o que esperava de ti, em relação a este planeta! Mas Eu conheço-te desde que te criei, conheço-te melhor do que tu mesmo, alguma vez possas pensar! E sei, ainda que possas não mos expôr, dos teus anseios mais íntimos! Isabel é a alma gémea da tua, e que reservei para ti, que sempre me obedeceste e serviste o mais fielmente possível! É essa a tua recompensa!
Miqueias, prostrado de joelhos, adora o seu Senhor, emocionado, de lágrimas nos olhos. Por fim, consegue expressar um pouco da sua gratidão:
- Graças, Mestre! Mas ela é bastante mais jovem do que eu!
- Sim! Em termos de criação,  a alma dela é jovem, por assim dizer, enquanto a tua é bastante antiga! Mas isso não importa! Para Mim, a idade física é um pequeno detalhe. E a  alma é eterna, intemporal! Para juntar as almas gémeas, a linha do tempo deixa de ser importante. Vocês são perfeitos um para o outro! Para ela, é também a maior das recompensas que lhe posso dar! Ela merece-te tanto como tu a  mereces! E, acredita em Mim, que a conheço bem, não te vai falhar! É a companheira ideal para ti!
- E como ficaremos juntos? Não tenho eu  de regressar para junto de Ti, Mestre?
- Sim, meu amado Miqueias! Claro que tens! Mas, fá-lo-ás, desta vez, junto com ela!
-Ela não vai morrer, pois não?
-Não! Vou arrebatá-la junto contigo, pois o seu tempo neste planeta já está cumprido! Vou apenas dar-vos tempo para que  vos ajusteis um ao outro, e para vos unirdes legalmente.
Um sorriso de felicidade, que mais parecia um raio de sol, iluminava agora o rosto de Miqueias:
Isabel era, então, aquela por quem sempre ansiara, mesmo sem o saber! E seria sua companheira para sempre! O seu coração exultava.
Por seu lado, o Mestre sabia que a própria Isabel também se interrogava sobre o mesmo assunto.
Com efeito, fechada, por um pouco, no seu próprio quarto, a jovem mulher orava, expondo também ela ao seu Mestre o que lhe ia no coração. E Ele esperava que ela terminasse de o fazer para lhe responder também. Ela merecia-o, pois fora sempre obediente à voz do Espírito, tal como Miqueias. Ela própria escolhera não se envolver com nenhum homem, sem que Deus lho designasse e lho revelasse. Mas sentia uma confiança inusual para com Miqueias, e interrogava, agora, também ela, o Mestre:
- Senhor: sabes o que sinto, por estar perto do Miqueias! Diz-me, Mestre: acaso ele é aquele que Tu designaste para estar comigo? Será ele o homem que tens reservado para mim?
-Minha filha!  Como a tua intuição te ilumina bem! Acertaste! Eu nunca permitiria que ninguém ferisse o teu coração, já que tu mo consagraste! Miqueias é, de facto,  o companheiro que te tenho destinado, desde sempre! Conto contigo, para continuar a tratá-lo com todo o respeito e carinho que ele merece! Só ele te pode fazer feliz! Se o aceitares, claro! Estás disposta a ficar com ele, sujeitar-te  à sua comunhão e presença na tua vida?
- Sim, Mestre! Estou disposta a isso! Sempre Te obedeci, Senhor! Sempre Te escutei! Farei o que Tu quiseres!
-Se ambos fizerdes sempre o que vos mando, podereis estar constantemente perto de Mim, e sereis felizes juntos!
-Acatarei a Tua Santa direcção, como sempre, meu Senhor! Sabes que te amo e que confio em Ti! Não desejo que nada mude em relação a isso, Mestre! Sabes que nunca me sujeitei a ninguém mais do que a Ti e aos meus pais! Agora que sou adulta, livre, posso decidir o meu caminho. E Tu sabes que sempre optei por deixar a Teu cuidado a direcção da minha vida! Estou feliz, por sempre o ter feito, desde que me tornei adulta e responsável,  como Tu bem o sabes, meu Amado Mestre! A Tua Sabedoria é a minha bússola, Senhor!
- Minha amada filha! Amo-te!
- Sim, meu Senhor, meu Deus! Eu sei, e por isso, também te amo e te adoro, te venero, acima de tudo!
- Isabel! Sabes que desejo que sejas feliz! Quando chegar a hora, unir-te-ás, com a minha aprovação, ao Miqueias, e ambos virão juntar-se a Mim! A tua missão aqui está a terminar, e a de Miqueias também! Não passarás pela morte física! Nem Ele! Arrebatar-vos-ei!
 - Mas teremos de aguardar o Grande Arrebatamento da Humanidade, Mestre?
- Não, minha amada! Vireis ambos em breve, antes disso! Apenas tendes de acertar algumas pequenas coisas, aí no planeta Terra, e unir legalmente as vossas vidas! Proporcionarei tudo, de modo que o possais levar a cabo sem dificuldade, pois essa porta está aberta para vós os dois, desde agora, e ninguém se interporá! Consagrareis a vossa união fisicamente, antes de virdes, para a vossa maior intimidade e felicidade. Aqui, junto a Mim, as vossas almas estarão em união completa, e tudo o que quiserdes fazer, nessa altura, fá-lo-eis unidos, em total concordância.  O vosso amor será eterno e indissolúvel!
 Passou algum tempo. Tudo o que o Mestre vaticinou a essas duas almas, que O amam e servem fielmente, se cumpriu... Só ainda não partiram para junto d’Ele... Mas a hora está chegando, e eles, unidos agora de modo definitivo, vivem o seu amor intensamente. Estão felizes, não só por se amarem e estarem juntos, mas, também, por saberem e sentirem que valeu a pena toda a obediência a que se sujeitaram, para com o seu Mestre adorado: a recompensa d’Ele para as suas vidas é a própria felicidade de ambos!

FIM

Nely,
2 de Abril 2017
Nota: a) As personagens e situações desta narrativa são fictícias, excepto o Mestre: trata-se de Jesus.
b) Nazireu é o nome que é dado, na Bíblia, a todo o rapaz/homem consagrado desde o ventre de sua mãe,para servir a Deus. Na Lei de Moisés, presente no Antigo Testamento da Bíblia, estão estipulados os preceitos e regras bastantes rígidos para a vida dessas pessoas. Alguns desses preceitos estão descritos neste conto.



terça-feira, 28 de março de 2017

CONTO - SOLTEIRO POR ESCOLHA PRÓPRIA

“Não têm dono os caminhos
Que pela vida pisamos
Vamos andando sozinhos
Com as forças que encontramos.”
-Isolina Alves Santos, em “ Semeei Rosas Ao Vento”, p.103

SOLTEIRO POR ESCOLHA PRÓPRIA

Apresento-me: o meu nome é Gilberto Fraga. Mais conhecido p’lo “professor Gil de Ciências Naturais”. Vivo aqui, nesta casinha, com o meu cão, Piloto. Só os dois, por escolha minha. Um pouco mais acima do que a aldeia, para estarmos mais sossegados, os dois. Gosto de aqui estar, só eu e ele.
O tempo, hoje, está um bocado fresco, e desagradável, por causa da chuva que caíu, na noite passada, e do vento que ainda se sente. Está-se bem ao pé da lareira, que costumo acender para conforto meu e do Piloto. Quando há bom tempo, costumo ir apanhar lenha miúda para acender o lume. E pinhas secas, que ajudam a preparar um bom fogo. Mas, mesmo com este tempo frio, vejo-me obrigado a sair, todavia: Se não o fizer, quem levará Piloto a dar a sua volta costumeira, de manhã, e à tardinha, afim de fazer as suas necessidades, e exercitar um pouco o seu grande e pesado corpo de cão venerável? E até eu preciso de fazer um mínimo de exercício físico! Já há dez anos que vivemos os dois sozinhos, ele e eu. Adoptei-o, resgatando-o do canil municipal da cidade onde vivi quase a minha vida toda. Um dia, à porta de um dos supermercados dessa cidade, havia um peditório para os animais. Como estava com vontade de arranjar uma companhia canina, que é uma das melhores que um homem sozinho pode arranjar, informei-me junto dos responsáveis pelo peditório, e assim que os meus afazeres me deixaram umas horitas livres, fui lá, com a minha carrinha. Agradou-me, entre muitos, este companheiro de quatro patas. Na altura, era um jovem pastor alemão a precisar de dono. Tinha sido encontrado abandonado havia pouco tempo. Demo-nos bem logo à primeira. E temos feito muita e excelente companhia um ao outro.
Fui professor durante vários anos, e quando chegou a altura da reforma, há cinco anos atrás, eu, como era - e ainda sou, e serei - solteiro, incondicionalmente, mudei-me da última cidade onde vivia e onde tinha trabalhado nos últimos tempos, para esta aldeia, onde vivo tranquilo, com este amigo de quatro patas. De vez em quando, a malta mais jovem, como vocês, que vai sabendo, pelos habitantes daqui, que fui professor, aborda-me, e fica um pouco à conversa comigo. Os jovens são esponjas autênticas, sempre desejosos de aprender, de conhecer mais e mais. Fascinam-nos as inúmeras histórias e as experiências pessoais que tenho para lhes contar e partilhar com eles. Ao princípio, alguns têm receio do Piloto. Mas, no fundo, embora ele intimide um pouco, na primeira visita, , os que vêm com boas intenções, e nos respeitam, tornam-se logo  amigos dele também.
Há mesmo uma pequenita, aqui da aldeia, de seis anitos, que adora cá vir, para brincar com este meu cão, sempre que pode. Da primeira vez, há cerca de um ano atrás, ela tinha receio, mas eu ajudei-a a aproximar-se dele, ainda me lembro:
- Não tenhas medo do Piloto, querida! – Disse-lhe eu.- Ele não morde nem os meninos, nem as meninas, como tu, que simpatizam com ele! Anda fazer-lhe festas!
A miúda veio, ainda a olhar para mim, para certificar-se que podia confiar. Chegou-se ao pé do Piloto, comigo, e fez-lhe uma tímida festa na cabeça, dizendo:
- Mimi gosta de ti, Piloto!
Depois, vendo que ele era confiável,, continuou durante um bocado, e foi dizendo, olhando-o nos olhos:
-Mimi gosta de ti! Muito! Cão lindo! Mimi amiga do Piloto, sim?
Até dava gosto de ver a cara do Piloto a olhar para ela e depois para mim, de boca aberta, como se estivesse a sorrir, a língua de fora, a semi-cerrar os olhos, e a abanar o rabo! A este cão, só lhe falta a fala! E a partir desse dia, a Mimi passou a vir sempre que pode. Traz sempre com ela um miminho para ele e põe-se a abraçá-lo, a fazer-lhe festas, a dar-lhe beijinhos, a falar com ele...  e este maganão adora a garota! O que é engraçado, é que ele percebe tudo o que ela diz! Até dá gosto ver os dois juntos! Já lhes tirei fotografias, que consegui emoldurar. Ora vejam! Cá estão, sobre este aparador! Não estão o máximo?
Se gosto de jovens? Claro que sim! Convivi uma vida inteira com jovens, tantas turmas de rapaziada! Passei por várias escolas, em todo o País! Deixei recordações, e trouxe comigo recordações também! Mas adoro visitas dos mais pequenitos, como a Mimi, e outras crianças daqui, que sempre que me encontram, com o Piloto, vêm a correr ter connosco! Chamam-me Professor Gil! Fui eu que lhes disse para me tratarem assim, ou, se quisessem, por Sr. Gil! Mas acho que eles preferem ver-me mesmo como professor! Inclusive, quando têm algumas dificuldades com as tarefas escolares, vêm ter comigo, e pedem-me ajuda. E eu ajudo sempre a esclarecer as dúvidas da garotada. Formam uma turminha, todas as tardes, durante a semana, nos períodos escolares. Estão para aqui comigo, uma horita ou duas, depois vão para casa, quando eu vou dar a minha volta com o meu cão. Acompanho-os a casa, a todos, e conversamos sempre, pelo caminho. Os pais já me quiseram remunerar como explicador, mas eu não permito tal! Já lhes fiz entender que faço isso por amizade aos garotos e garotas, como entretenga, e por gosto próprio. Então, passaram a exigir que eu aceitasse dádivas de coisas tais como uns chouriços caseiros, ovos, algum peixe apanhado na ribeira aqui perto, pão feito por eles, cozido em forno de lenha, ou outras coisas do género... tudo uma delícia! E eu, para não lhes ofender a susceptibilidade, aceito. Entretenho-me, muita vez, com as lições que dou aos miúdos, mas também me dedico à bricolagem. E eles também aprendem isso, e gostam de ajudar a montar engenhocas úteis em casa, como muitas das coisas que vocês aqui vêem! E assim, quando precisam, já sabem fazer o mesmo em casa de cada um deles...
Já fui muito louco, quando jovem, e por isso, compreendo a juventude. Já cometi muitos erros e loucuras, tal como muitos deles. Mas é sempre bom ter com quem partilhar experiências de vida e conhecimentos. Eles adoram-me, e respeitam-me. Admiram o companheirismo que existe entre mim e o meu cão. Já fomos os dois um pouco solitários, mas sempre muito unidos. Damo-nos ambos muito bem. Ele sabe quando eu não estou nos meus melhores dias. Dá-me o apoio silencioso que só no seu olhar e no seu comportamento posso advertir. E eu compreendo a sua alma límpida  e simples de cão idoso, que só precisa da minha companhia, do meu carinho e dos meus cuidados, para ser feliz.
Porque é que vivo sozinho com o Piloto? Porque decidi ficar solteiro. Fui um homem apaixonado, que foi duramente desenganado por mais do que uma mulher. A primeira chamava-se Lara, e  era estonteante. Morena, como uma cigana, longa trança negra. Olhos negros de expressão penetrante. Baixinha, magrinha. Hippie! Mas tinha um encanto muito próprio. Apaixonei-me logo, como um louco, por ela. Fui avisado para ter cuidado... Mas deixei-me levar, cego pela paixão. Não quis escutar conselhos de ninguém! Eu  tinha dezoito anos, e ela era mais velha do que eu cerca de oito... Para aquela diaba, fui um breve capricho, nada mais! Essa minha loucura durou um Verão. Eu vivia perto de uma praia. Passei os meses de  Julho e Agosto a louquejar com ela, escondidos, muitas vezes, debaixo da quilha virada de algum barco, rebolando na areia, à noite, e amando-nos como doidos. Corríamos pela praia, de mãos dadas, mas sempre à noite. Ela só vinha à noite ter comigo. Havia um velho barracão, abandonado, numa zona da praia que era pouco frequentada. Ela ia lá ter . Eu esperava ali por ela... Quase nem ia a casa... Os meus pais andavam preocupados comigo. Eu, cego, nem ligava! Quantas noites não voltei eu, mais tarde, depois de ela me ter deixado, a entrar nesse barracão, e não fiquei, ali, a relembrar essa paixão assolapada desse Verão! Sabem aquela canção do José Cid: “A Cabana Junto à Praia”?Pois a minha vida, nessa altura, era parecida com o que diz uma parte da canção. Cheguei a levar a minha guitarra, e tocava  velhas canções que eu conhecia,  e músicas que eu próprio compunha, lembrando-me dessa bandida! Esquecia de vos contar que ainda toco guitarra, e até já ensinei alguns putos daqui a tocar algumas coisitas! Eles também gostam disso à brava! Mas, voltando ao que vos estava a contar: A Lara - Essa diaba! Com ela aprendi o que é ter intimidade com mulheres. Com ela tive a minha primeira vez! Foi o suficiente para fazer estragos na minha vida! Um dia, descobri que ela me enganava, que tinha outro amor: um amante mais ou menos da mesma idade do que ela. Eu nunca o tinha visto, nunca vira os dois juntos, sequer, nem antes de eu andar metido com ela! Ele deve ter estado fora, e  voltou a ter com ela, ou a buscá-la, na única vez que  eu os vi juntos! Ela foi embora, no fim do Verão, com esse sujeito, um hippie, também, de guedelhas compridas e deslavadas, e ar de vagabundo. Descobri então que faziam par, que só estavam de passagem pela cidade. Um louco amor estival! Nada mais! Uma brincadeira, para aquela patifa! Fiquei cego de dôr e de raiva, contra ela, e sobretudo, contra mim mesmo, por me ter deixado enganar assim! Passado algum tempo, cerca de quatro anos, arranjei outra namorada... Chamava-se Celeste - que infelizmente, rimou para mim, com peste! -  loira, como um sol tropical! Olhos verdes fatais:Uma colega de turma, já no final dos meus estudos universitários.... Quando eu julgava que podíamos ser felizes ambos, e que podia voltar a acreditar no amor, ela foi embora com aquele que se dizia, e que eu julgava mesmo ser, na época, o meu melhor amigo: João Sarmindes!...Ah! Celeste! Que eu julgava, a princípio, tão celestial como um anjo! Era linda, sorridente, e mimosa, como se fosse um anjo mesmo! Mas “as aparências iludem”, como diz o velho rifão popular! E ela enganou-me bem! Parecia que não via nada mais, ninguém mais do que eu! Íamos juntos para toda a parte! Levei-a, inclusive a conhecer os meus pais! Eles adoravam-na! Parecia uma rapariga tão acertadinha! Estávamos quase a voltar para Lisboa, para iniciar outro ano lectivo, quando ela me pregou a pior partida que me podiam, alguma vez, pregar na vida: Eu, ela e o meu amigo João, tínhamos combinado abalar todos três juntos para Lisboa, para a Universidade. Mas ela e ele deixaram-me para trás, nas vésperas da data combinada. Não cumpriram com o combinado. Perdi um amigo! E desenganei-me ainda mais do que da primeira vez!  Cheguei a cortar os pulsos, mas fui salvo a tempo, por uma alma caridosa,  que me socorreu e alertou os meus familiares. A minha mãe ia morrendo de desgosto! Escusado será dizer que perdi esse ano lectivo, entre o problema de ter cortado os pulsos, que teve de ser tratado de urgência e que foi um caso muito delicado, fisicamente falando, e a depressão com que fiquei, também! E essa quase que me mata também! Tive de esperar, para me voltar a matricular, no ano seguinte, na mesma Faculdade, e que me concedessem o reingresso. Quando consegui recuperar disso tudo, lá fui, sozinho, para Lisboa, novamente! Eles de vez em quando, cruzavam comigo, com ar comprometido, mas eu evitava-os ao máximo! Tentaram vir justificar-se, mas como eu tinha o pavio curto, e estava ainda dorido moralmente, de toda essa história, não quis saber mais deles, e mandei-os nunca mais virem ter comigo, nem me falarem sequer! Então, afastaram-se de mim para sempre!  Foi o melhor que fizeram! Eu estava capaz de dar cabo deles se voltassem a meter-se comigo! Daria cabo de ambos! Aí, então, é que eu nunca mais quis saber de raparigas! Algumas ainda me rondaram e tentaram... Mas eu abdiquei! Preferi parecer um urso solitário, do arriscar-me a sofrer mais, por quem não merecia o meu sofrimento! Solteiro, sozinho, tenho vivido razoavelmente: aqui estou ainda, enquanto Deus quiser! Se o meu cão me sobreviver, espero que possa, antes disso, entregá-lo a alguma alma amiga, que cuide dos seus últimos dias... Caso contrário, se eu lhe sobreviver a ele, viverei o que me resta de vida como eu puder.
 Mulheres, meus amigos? Dessas? Nunca mais! Quando me sentia com necessidade física de estar com uma mulher, cheguei a ir a casas de prostitutas! Chegava lá, era atendido decentemente, sempre por alguma garina engraçada, mulheres que sabiam o que tinham a fazer... Não se punham com merdas!  Eram pagas, para aquela hora, e pronto! E tudo sem compromisso! Fora disso, o que penso das mulheres? Pois bem: Há mulheres maravilhosas, sim, verdadeiros exemplos de bondade, de abnegação, de coragem, ou de empreendedorismo... Minha mãe foi uma delas, um santo exemplo, que guardo em meu coração! Algumas mulheres podem ser verdadeiras e grandes amigas nossas! Não lhes retiro os seus méritos!  Havia, até há pouco tempo atrás, uma senhora viúva, aqui na aldeia, que se tornou mesmo uma verdadeira amiga minha, de coração! Uma amizade sem maldade, sem segundas intenções! Como se fosse minha irmã! Cá está a foto dela! Chamava-se Hermínia Vasco! Houve quem lhe tentasse deitar fama de ser minha amante! Mas nunca lhe toquei com um dedo, sequer! Sempre houve entre nós um grande respeito! Um dia, um dos vizinhos, aqui da aldeia, veio ter comigo, e perguntou-me se realmente eu tinha alguma coisa com ela! Conversámos e fiz-lhe ver a realidade. Ele alertou-me que ela estava a ser difamada por minha causa. Eu contei-lhe a verdade. E tudo ficou esclarecido a partir daí: pediram-nos desculpa a ambos, e nem mais se falou no assunto. Amigos, mas amigos fraternos! Se ambos tivéssemos querido, poderíamos ter sido amantes, sim senhor! Poderíamos ter vivido juntos, também, que não teria tido mal nenhum, pois então? Ninguém teria tido nada a ver com isso, e não estaríamos a prejudicar ninguém, sendo ambos sem compromisso! Conversávamos muito. Ela ajudava-me imenso, limpando o que podia da minha casa, trazendo-me, certos dias, comida, quando me sabia doente, metido à força na cama. Eu também a ajudava a ela no que me era possível! Ela até passeava o Piloto, quando eu não podia! Piloto gostava dela a valer! Mas a morte levou-me essa boa amiga, há meses atrás... Um ataque cardíaco fulminante, e fiquei sem a Hermínia! Fiquei bastante desgostoso, algum tempo, e o Piloto, coitado, gemia de meter dó! Parecia que chorava! Quando fui ao funeral dela, o Piloto foi também. Ficou gemendo, deitado ao lado da campa, um monte de tempo, até que lá consegui que voltasse para casa comigo. Esteve sem comer um par de dias. Só bebia água. Até eu perdi o apetite, durante um tempo, mas reagi! Por ele e por mim, e pela memória dessa amiga, que não havia de gostar de me ver assim! Querida Hermínia! Deus a tenha em Seu Eterno Descanso! Que a sua alma generosa e humilde bem o merece! Nunca a esquecerei! Grande mulher, valorosa e leal amiga! Mas aquelas duas, que me traíram e abandonaram, na juventude, para fugirem com outros... dessas, nem ver mais nenhuma é bom! Já vêem, não tenho tido sorte com mulheres! Ah! Mulheres! Como, sendo jovem, fui tolo! Apanhei bebedeiras de cair inerte, por causa delas! Para quê? Ia dando cabo da minha saúde, da minha vida! Até que, um dia, compreendi que o melhor, para mim, desenganado como já estava, era prosseguir sozinho. Entretanto, a vida foi passando, e tive muita gente a quem dar atenção, na minha profissão. Quantas gerações já passaram pela minha vida! Guardo belas recordações de bons  e boas colegas de profissão, de gente capaz e inteligente, de corações limpos. E os outros, pú-los para trás das costas... Também guardo gratas recordações de excelentes alunos e alunas, malta jovem com garra e inteligência, mas também com genuína amizade por mim! Alguns deles, já adultos, sabem agora onde vivo, e já me têm vindo visitar! É grato receber visitas de quem nos guardou no coração, saber que fomos bom exemplo para alguém. Que essas pessoas nos estimam e nos têm amizade. É o lado bom da minha profissão.
 Dizem por aí que sou solitário... Deixem-nos falar! Sou mais feliz assim! O Piloto é um companheiro fiel!  E, ao menos, ele, não finge gostar de mim!
Obrigada pela vossa visita, amigos! Podem voltar quando quiserem! Se trouxerem um miminho para o Piloto, tanto melhor! Para mim, as vossas visitas bastam-me, para ter algumas horas mais animadas! Sobretudo se trouxerem as vossas guitarras, para treinarmos  e tocarmos juntos alguma coisita!
Vá, Piloto! Anda daí! Vamos! Já não chove, e é de aproveitar agora! Olha, o arco-íris a brilhar, em todo o seu esplendor! Deixem-me lá tirar uma foto e guardar mais essa bela lembrança!Arco-íris!Eterna aliança de Deus com o Seu povo! Sabiam? Eu também sou do povo de Deus! Creio firmemente n’Ele! Deus não se esqueceu de mim! Nem eu d’Ele! Obrigada, Senhor, por cuidares de mim e do Piloto!


FIM


Nely, Março 2017

sexta-feira, 24 de março de 2017

CONTO "ESCOLHA DÍFICIL"

“Apesar de toda a felicidade imensa que nos espreita, sentimo-nos tristes quando partimos, porque deixamos sempre alguém para trás.” – Hervé Villard


ESCOLHA DÍFICIL

Sabina, sentada na cozinha, olha pela janela, pensativamente... é de noite, ainda... quatro horas da manhã... O dia ainda tarda, e ela, com insónia, como em tantas outras noites, levantou-se, cansada de andar às voltas na cama, sem dormir... Na sua frente, sobre a mesa, está a caneca de chá de tília que acabou de preparar, e uma lata de biscoitos dinamarqueses, comprada há dias, num dos vários hipermercados da cidade... Apenas mais um modo de conjurar o sono, que não vem...
Há poucas horas atrás, de tarde, esteve com Graciano, que, mais uma vez, lhe proporcionou umas horas encantadoras de convívio... Um convívio cheio de doçura, de música, de diversão... Aquele homem é um encanto: Belo, inteligente, culto, detentor de uma extrema elegância  e de muito bom gosto, na sua apresentação e no vestuário que usa... Sabina pensa nele, revê mentalmente o momento em que Graciano lhe falou de casamento... Graciano é dono de uma bela fortuna. Solteiro. Lindo!... Nada lhe faltaria, se aceitasse casar com ele! Nada... a não ser, talvez, sexo! Graciano acabou de confessar-lhe que há pouco tempo, ficou impotente!
Sabina adora-o, desde que o conhece... Foi como que um amor à primeira vista, como se eles se conhecessem há milénios e se reencontrassem por fim. Como decoradora de ambientes, de interiores, Sabina Menezes já possui algum renome, em Cascais, onde vive actualmente, e não só. Nessa qualidade, ela foi requisitada por Graciano, para lhe redecorar a casa, uma esplêndida vivenda, nos arredores de Almada. A partir de aí, foi nascendo um são convívio, uma bela amizade... Ao nível das ideias, dos gostos, da cultura, Graciano é a sua alma gémea... Até bem que poderia ser o seu amor platónico! Desde há uns meses que se conheceram, têm conversado sobre tudo um pouco, mas ele nunca se tinha decidido a confessar-lhe esse seu segredo inconfessável! Na sequência de um tratamento a um problema grave de saúde, Graciano ficou assim, há pouco tempo... Que lástima! Ele tem desgosto em já não poder, actualmente, satisfazer plenamente nenhuma mulher... Mas apaixonou-se por Sabina,  que se lhe tornou, a pouco e pouco, irresistível, com  as suas belas curvas sensuais e generosas, os seus cabelos ruivos longos, fartos, e bem cuidados, a sua pele muito branca, quase leitosa, os seus olhos cor de mel, grandes e amendoados, e aquela boca carnuda que, a ele, tanto lhe apetece beijar! Ela tornou-se-lhe mesmo imprescindível, também a nível emocional e de comunhão de ideias e conhecimentos. Graciano ama-a tanto, que não se importou, por fim, de lhe contar o seu comprometedor segredo, pois vê nela uma boa confidente, e também uma amiga compreensiva. Graciano já percebeu que Sabina não é o género de pessoa que conte a outrem aquilo sobre o que lhe pedem sigilo, nem outras confidências ou conversas: ela mesma é o tipo de pessoa tão reservada, que nada conta de sua própria vida a ninguém! E para poder pedi-la em casamento, ele tinha de ser sincero! Graciano achou que Sabina não se importaria com esse pormenor. Que, certamente, hão-de achar para ambos uma boa solução, caso ela aceite casar-se com ele. Sendo um homem de carácter altruísta, não se importa de não poder ser satisfeito sexualmente ele próprio... Propõe a si mesmo dar-lhe a ela toda a satisfação possível! Falaram sobre esse ponto, e ela sabe que, se ele lho promete, fará tudo por cumprir... Mas a jovem mulher tem sérias dúvidas sobre essa questão delicada.
Sabina está agora perante um grande dilema... Pediu uns dias para pensar na proposta de Graciano... Essas decisões não se tomam assim, de repente... Para ela, Graciano representa o amigo e companheiro ideal, que a incentiva  a cultivar-se, que a rodeia de mil cuidados e atenções, e se propõe mimá-la de todas as formas possíveis... Mas saber que, possivelmente, não vai poder fazer nada de jeito, na cama, com ele, para Sabina, é  algo que a deixa decepcionada... Pensava que um pedido de casamento pudesse vir, da parte dele, mas não essa sua confissão de impotência... E agora, o que fazer? Tentar levá-lo, na mesma, para a cama? Tentar descobrir se ela consegue fazê-lo sentir prazer, mesmo assim? Que situação injusta! Logo a acontecer com Graciano, que é a generosidade em pessoa!Ele deve estar a sofrer no seu amor próprio, na sua dignidade de homem, certamente!- Pensa Sabina. Ao fim ao cabo, adora-o. E pensa que, caso ele a satisfizesse, ela quereria retribuir-lhe, dar-lhe, a ele, o prazer devido e merecido, também. Será que ele não tem mesmo cura?
Todas essas interrogações a fazem ficar sem sono... Caramba!
Mas não é só o que se passa com Graciano que a aflige: Por outro lado, existe também aquele seu caso já antigo com Jerónimo, aquele “affair  sexual” que mantêm, às escondidas, com ele, já há alguns anos... Apenas sexo: Encontros decididos por ambos, certos, com periodicidade semanal... Sexo louco e apaixonado, por umas horas, que os deixa, a ambos, satisfeitos e esgotados... Depois, cada um vai à sua vida, como de costume... Sem outros compromissos... Jerónimo também é um belo homem, de tipo atlético, viril... E mostra-se louco por ela... mas ainda não lhe propôs, nunca, casamento: gosta do caso de ambos assim, como está... Já abordaram o assunto muitas vezes. Ele sempre foi categórico, mostrando-se irredutível sobre essa questão. Até que Sabina, por fim, desistiu de o fazer mudar de ideias... Jerónimo aprecia a sua própria liberdade, por cima de todo o resto...  Todas as semanas, ou quase todas, eles encontram-se, no meio de uma agenda cheia, de compromissos de trabalho e de negócios, de parte a parte...
Sendo Sabina solteira, também, e de trinta e seis anos, é livre, independente. E gosta, também ela, da sua própria liberdade... Na actualidade, não tem nenhuma amiga confidente: cada uma das suas amigas de antes foi à sua vida, e já nem se encontram, sequer... Se não fosse Jerónimo, e, há pouco tempo, Graciano, ela quase não teria, sequer, um pouco de vida social... As horas passadas com Jerónimo têm compensado, parcialmente, as suas carências afectivas e sexuais. Sabina tem adorado cada  momento íntimo com ele. Ele tem sabido dar-lhe prazer de forma única... E ela adora isso! Não pode já passar sem esses doces e luxuriosos momentos de entrega física total... Ele não será, decerto, tão rico como Graciano... Mas tem o que, a Graciano, infelizmente, agora, lhe falta... Ela quer, por um lado, tudo aquilo que Graciano lhe pode proporcionar, mais a sua glamorosa companhia, tudo aquilo que ele é, e o que faz com ela... Mas, para obter tudo isso através de um casamento, terá de renunciar a essa sua relação clandestina com Jerónimo... e também lhe custa ter de abrir mão da satisfação física que ainda recebe dele, do carinho que os une...
O ideal, era manter-se ainda assim, por algum tempo... E usufruir dos dois! Mas não pode ser! A sua integridade moral não lho permite! Ambos na casa dos quarenta anos, solteiros, sem compromisso, eles são belos homens, cada um no seu género: Graciano Meirinhos, loiro, de olhos esverdeados... O típico gentleman nórdico, encantador, cheio de carisma... herdeiro aristocrático, tão rico, que nem precisa de trabalhar... Jerónimo Palmeira, de olhos escuros, cabelo negro, estilo latino... Corrector de câmbios e executivo de negócios, muito bem sucedido, ligado à Bolsa de Valores Europeia... Um ás a fazer dinheiro! Um vulcão na cama!
Graciano desconhece que Sabina tem um amante... Jerónimo desconhece ainda que Sabina acompanha com Graciano... Ela tem conseguido, desde há meses, e também nestas últimas semanas, manter cada um deles desconhecido e ignorado do outro, no tocante à sua relação com ambos... Mas até quando poderá permanecer nessa dualidade? Alguma vez terá de se decidir... Tem medo que ambos descubram... Tem receio que nem um, nem outro, queiram continuar o seu respectivo relacionamento com ela, caso descubram o seu duplo envolvimento... Sente-se dividida! E receia ficar sem nenhum deles... Vai ter, por força, de escolher um deles e deixar para trás o outro, por muito que lhe custe...
 Passados alguns dias...
- Preciso de uma resposta da tua parte, Sabina! Ainda que não te queira pressionar, já não aguento a incerteza, querida! Já te decidiste?
- Já! Aceito a tua proposta, Graciano!
-Ah! Finalmente, querida! Fico feliz de ouvir isso! Tens mesmo a certeza?
- Tenho, meu querido!
Isso tudo é dito com intercâmbio de olhares doces entre ambos, e em tom carinhoso, de ambas as partes.
Estão na sala de estar da casa espaçosa e luxuosa de Graciano, o qual convidou Sabina mais uma vez, para ali lanchar com ele, com o pretexto de saber finalmente a resposta da jovem mulher, por quem é absolutamente louco. Sentados lado a lado, no grande sofá de assento forrado a seda adamascada cor de mostarda, naquele salão de ambiente clássico, e luxuoso, que ela decorou há pouco tempo, a seu gosto, ele toma as mãos de Sabina entre as suas, erguendo-as, e depositando nelas vários beijos.
- Verás que não te vais arrepender, minha adorada! Meu anjo! Vou fazer tudo o que esteja ao meu alcance para tornar-te feliz! Vais ver!
-Então e a questão da nossa intimidade física, como vamos resolvê-la, amor?
- Não te preocupes com isso, minha linda Sabina! Há-de resolver-se bem!
-E que tal, se procurasses um sexólogo? Talvez indo consultar médicos diferentes, obterias outros pareceres?... Quem sabe isso terá alguma solução viável, e esse médico teu não a conheça... Ao fim ao cabo, ainda és um homem novo, há mais esperança do que se já tivesses passado dos cinquenta ou sessenta anos...
- Pode ser! Uma vez que me encorajas a isso, fá-lo-ei, querida! Obrigada pelo apoio! Sinceramente! Em todo o caso, haverá sempre uma solução, até mesmo para termos filhos! Queres ter filhos, Sabina?
-Claro que quero!... Isto é, se ainda puder tê-los... Sabes que a idade avança, e isso é um factor de acréscimo de dificuldade, para qualquer mulher, a partir dos trinta anos em diante!
-Sei, pois! Mas, se não pudermos, por essa razão da tua parte, ou por impotência minha,  adoptamos um!
-Está bem! És muito prático, meu querido Graciano!
-Claro que sou! E o caso é que tenho meios para sê-lo! Então, querida, podemos dar os passos necessários para tratar do nosso casamento?
-Podemos!
- E posso beijar-te, finalmente?
- Claro que sim!
Graciano chega-se mais junto a Sabina, e envolvendo-a em seus braços, pela primeira vez, abraça-a e beija-a nos lábios, longamente. Nesse beijo, há ternura, há uma doçura inexcedível, da parte de Graciano. Sabina corresponde-lhe com muita ternura também. Ela está a começar a apaixonar-se por Graciano.
Depois, olhando-a com meiguice, ele diz-lhe:
-Espera aqui um pouco, Sabinita! Tenho uma surpresa, um presente para ti, meu amorzinho!
Graciano sai do sofá, levantando-se e dirigindo-se ao seu escritório que é contíguo àquela sala, e a que se acede por uma porta muito bem disfarçada, na parede forrada a tecido de motivos grandes de medalhões, nas mesmas tonalidades que o mobiliário ali disposto.
Graciano abre essa porta, entra no escritório de que Sabina conhece cada pormenor, tendo sido ela quem o decorou, como todo o resto da bela e espaçosa vivenda. Sabina ouve-o remexer em objectos, ouve os estalidos metalizados do código do cofre ali instalado. De novo, os mesmos estalidos, e, passados segundos, Graciano reaparece à porta do escritório, com uma caixa de veludo azul escuro nas mãos. Ele fecha a porta, atrás de si, e dirige-se com ar de mistério a Sabina. Finalmente, de caixa nas mãos, senta-se de novo a seu lado.
Sabina olha-o, na expectaviva. Sabe, por intuição, que ali está uma jóia. Mas o quê?
Graciano satisfaz-lhe a curiosidade de imediato, sem nada dizer, e abrindo o delicado invólucro. Dentro da caixa, forrada interiormente de cetim azul escuro, expõe-se um lindo colar de pérolas, de uma só volta, mas de muitas pequenas esferas brancas, de brilho alvo.
-Então, meu amor? Gostas da surpresa?- Pergunta Graciano,  sondando-lhe a expressão do rosto. Sabina, apanhada de surpresa, gagueja, coisa rara nela:
-Eu... Estou... s...sem... p...pal... avras! Não... não... esta...va à espera d...disto!
Lágrimas de emoção saltam dos olhos emocionados de Sabina.
-Então, querida? Que foi? Acalma-te lá!
- Graciano... como sabias... que eu... gosto... de... pérolas?
Entretanto, Graciano tira o colar do seu delicado escrínio, e passa-lho ao pescoço. E responde:
- Calculei... Já te vou conhecendo, querida! Já vou sabendo das tuas convicções, dos teus gostos, da tua personalidade! E a ti, o que te fica bem, são as pérolas, Sabinita! Vem cá, querida! Vem ao espelho, a ver o efeito que elas produzem em ti!- Graciano diz-lhe isso, tomando-lhe as mãos, e fazendo-a levantar do sofá, delicadamente.
Sabina obedece e deixa-se conduzir a um lindo espelho clássico de moldura dourada que existe numa das paredes dessa divisão. As mãos de Graciano, com delicadeza, a tocam nos braços e a conduzem a ver a sua imagem reflectida no espelho. Sabina gosta do que vê.
-Sabes o que dizia a Coco Chanel, acerca do uso de jóias, pelas mulheres, meu amor?- Pergunta Graciano.
- Sei, querido! Ela dizia que a finalidade do uso de jóias, na toilette feminina, não era para que as mulheres parecessem ricas, ou exibissem riqueza, mas sim para que tivessem com elas um ar mais sofisticado!
-Exactamente!
-E por isso, contam, numa das suas biografias, que a Mademoiselle até lançou a moda das jóias falsas, de pechisbeque, para que todas as mulheres tivessem acesso a adornos que estivessem ao alcance dos seus meios financeiros...
- Mas estas não são pechisbeque, fofa! São verdadeiras! Tenho meios para te oferecer jóias autênticas e tudo o que seja preciso, mas de marca genuína! E tenho-te ainda a dizer: Bravo!Também leste essa biografia! Vejo que temos mais e mais afinidades a nível das ideias, e da nossa cultura, em comum! És mesmo a mulher ideal para mim!
-Partilhamos os mesmos pontos de vista e os mesmos conhecimentos! Que bom! Comunhão perfeita de ideias!
-E cada vez estou mais apaixonado por ti!
- E fazes com que eu também me sinta assim, Graciano!
Um novo abraço, e um beijo prolongado os faz expressar o amor nascente entre ambos.

Dias depois, no encontro semanal com Jerónimo, e após terem feito amor como de costume, eles conversam:
- Encontramo-nos na próxima sexta-feira?
- Não vai dar...
- Ora essa! Porquê?
- Porque o nosso caso tem de ter um fim... E tem de ser já!
- Que conversa é essa, agora? A que vem isso? O que te deu, Sabi? Enlouqueceste?
- Vou casar!- Declara sem rodeios Sabina.
- Vais... o... quê?- Exclama, com ar incrédulo, Jerónimo, que desata a tossir, porque se engasgou com o fumo do cigarro que estava a inalar, nesse momento mesmo, e foi completamente apanhado de surpresa.
- Vou casar!- Repete ela, muito calma e naturalmente, sem alterar nada no seu tom de voz, nem nos seus modos.
- Como assim, casar? Com quem?
- É muito simples: Há meses, conheci pessoalmente o Graciano Meirinhos. Solicitou-me que redecorasse a sua vivenda. Entretanto, fizemos amizade, e ele já me convidou várias vezes para festas que tem dado nessa sua casa. Tenho aceitado esses convites. Convivemos muito. Chegámos a esta conclusão: Ele gosta de mim, e eu dele. Ele propôs-me casamento há uns dias atrás e eu aceitei!
- M...!Então e eu?
- Tu nunca quiseste modificar a nossa relação!
- Mas já te dei mil provas de gostar de ti!
- Mas não me deste a que eu mais esperava: querer casar comigo...
- Então, pretendes mesmo casar com ele?... E a nossa relação, como fica?
- Muito possivelmente, acaba aqui e agora, este nosso costume de encontros secretos... Isto não pode continuar... Será melhor deixarmos de nos encontrar a sós...
- Tens a certeza? Olha que, se acabarmos, eu já não vou voltar atrás...
-Paciência! Agora, a minha decisão está tomada, e já dei a minha resposta ao Graciano! Também não penso voltar atrás! Ele ficou muito feliz! E eu também estou!
- E eu que me f...! Mas que bem!E, já agora, responde-me uma pergunta... Tenho todo o direito de saber: já foste para a cama com ele?
- Não, não fui! Não te traí, se é isso que receavas! Até há pouco, tem sido uma relação de amizade, a que tenho desenvolvido com o Graciano... Mas agora, descobrimos que estamos apaixonados os dois!
- Bom, pelo menos isso! Ainda tens bom fundo, Sabi, como sempre achei que tinhas! Mas dói ouvir uma notícia destas! Caramba, se dói! Apanhaste-me completamente de surpresa! Não estou minimamente preparado para ficar sem ti!
- Calculo que não, meu amor! Sei bem que custa! Eu mesma até perdi o sono com esta história! Não sabia o que fazer, nem como tratar desse assunto... Jerónimo, tu bem sabes o quanto eu ainda gosto de ti! Mas, infelizmente, não quiseste, até à data, assegurar este amor com uma união legítima...
-Mas tu sempre aceitaste as minhas condições... Julgava que não te importavas, já!
- Não tinha mais remédio! Preferia isso do que perder-te...
 - Mas, agora, já não te importas de ficar sem mim, não é?
- Acredita que me custa imenso ter de deixar de me encontrar contigo... Mas, por muito que me doa, tive de escolher! Não iria conseguir continuar assim! A sentir-me dividida! E a fazer-te mal a ti, e a ele! Não tenho esse direito! Não me sentiria bem traindo-te a ti com o Graciano, mas também não me sentiria bem, traindo-o, a ele, contigo! Podemos, no entanto, continuar sendo amigos, se quiseres...
- Obrigada pela esmola, pá! E, já agora, sê feliz! Espero que ele te satisfaça tanto ou mais do que eu!- Exclama Jerónimo, frustrado.
-Veremos! Mas, não é só a parte do relacionamento físico que conta! Ele e eu temos muitas afinidades! Jerónimo, tenta compreender o meu lado! Tenta pôr-te um pouco no meu lugar...
- A culpa é toda minha, bem sei! Agora, vou perder-te! Tudo isso, por causa do meu egocentrismo, do meu egoísmo! – Exclama de novo Jerónimo, virando-se de barriga para baixo, de punhos cerrados, dando socos na cama. -Bem vejo, agora, o quanto errei! Mas agora, é demasiado tarde! – Depois, mais calmo, olha para Sabina e pergunta, em tom mais ameno:- Então, é um adeus, que estamos a dizer um ao outro, sendo assim?...
- É sim, Jerónimo!
-Por favor, Sabi, deixa-me amar-te uma última vez!
-Está bem, querido! É um presente de despedida! Perdoa-me! Não posso continuar assim!
- Entendo! Tens razão! Vou ter muitas saudades tuas!
- E eu também! Nunca te vou esquecer, Jerónimo!- Diz Sabina, de lágrimas nos olhos.
-Nem eu a ti, Sabi! Vem cá, querida!
Recomeçam a amar-se, com a consciência de ser a última vez que o fazem...
Uma hora depois, ao sair daquele lugar, por última vez, cada qual vai para sua própria casa. Sabina telefona a Graciano e ele vem buscá-la, algumas horas mais tarde, para irem jantar juntos. Na sua mente, há este pensamento: já que ela teve de perder um amor, por ter de enveredar por outro caminho, quanto mais depressa o conseguir esquecer e substituir, melhor será! Apostada em levar a cabo o seu plano de restabelecer a plena sexualidade do seu  actual noivo, Sabina começa, desde logo, a utilizar todos os meios de sedução física ao seu alcance. Quem sabe se ele, seduzido, não logra entusiasmar-se e conseguem fazer amor os dois, com sucesso?

Passaram dois meses sobre o sucedido. De casamento marcado com Graciano, e quase a cumprir-se, Sabina entregou-se-lhe de corpo e alma, tornou-se-lhe fiel, e nunca mais se encontrou com Jerónimo. De pleno acordo com o seu noivo, decidiram ambos que ela continuará a ser decoradora de interiores, como antes. Graciano apoia, plenamente, essa sua decisão, de se manter activa. Os amigos e conhecidos de Graciano já andam a solicitar-lhe, também eles, que a bela e talentosa decoradora lhes trate da remodelação das suas habitações. O que lhe concede, a ela, bastante projecção profissional e social, e lhe garante uma ocupação útil,  e satisfatória. E já não tem mãos a medir para o trabalho que lhe surge. Mas ela adora a sua profissão! Por seu lado, Jerónimo, sozinho, remói os remorsos de ter perdido, por seu único e exclusivo comodismo, a sua bela amante... Vai levar algum tempo, certamente, até encontrar quem a possa plenamente substituir... Se alguma vez o conseguir!
Graciano, felizmente para ele e para Sabina,  descobriu, ao ter intimidade física com ela, que a sua impotência, afinal, tinha cura, pois conseguiu, não só satisfazer a sua amada, mas também ele obteve já o prazer desejado. Está feliz.Vão poder amar-se plenamente, tentar ter os filhos que ambos desejam... e ser felizes juntos, em todos os aspectos. Para Sabina, foi difícil, e até mesmo penoso, decidir entre os seus dois apaixonados, e renunciar a Jerónimo. Mas, finalmente, está feliz com a escolha que fez.


FIM




Nely, Março 2017