segunda-feira, 3 de abril de 2017

Conto:O ENVIADO

Conto especialmente dedicado ao meu querido filho, Marcos Carlos:

Do meu livro de Contos "Transcendências":

O ENVIADO


As ordens haviam sido claras: ele devia testar, uma por uma, todas aquelas pessoas que lhe iriam sendo indicadas.
- Agora, vai, Miqueias! - Disse-lhe o seu Mestre, com um sorriso benévolo. - Quanto antes comeces a cumprir essa missão, tanto melhor! Eu irei estando ao corrente! E vou indicando-te tudo o que tenhas que ir fazendo, onde deves dirigir-te e a quem! Vai, amigo! Bom trabalho!
- Sim, Mestre! Farei tudo o que me ordenas! É uma honra e um prazer, para mim, servir-Te, obedecer-Te! Graças, por esta nova missão! Pela Tua benignidade para comigo! Graças!
Miqueias retirou-se da presença do seu Soberano e Mestre, com uma profunda e respeitosa vénia. Embarcou no carro que o levaria longe, bem rapidamente. O Mestre sorriu, satisfeito: aquele seu servo era único, exemplar!

Haveria muita gente que submeter à prova que lhe havia sido pedido que realizasse. Ele, um mensageiro distinto, já atravessara várias eras, mantendo o seu aspecto de jovem adulto: Os cabelos longos, escuros, que nunca haviam sido cortados, tal como os do Mestre, a barba lisa onde nunca passava navalha, tudo isso por ser nazireu. O seu olhar era límpido e compassivo, franco e directo. Sendo um coração puro, e não tendo nada a temer, nem a esconder, encarava fosse quem fosse com o seu olhar sereno. Sabia que, por entre a multidão de vassalos de que o seu Rei estava constantemente rodeado, nenhum havia como ele próprio, embora só os íntegros e os mais puros tivessem o privilégio de poder chegar perto do Rei. Cada um dos seus súbditos era incumbido de uma missão específica, mais ou menos duradoura, mais ou menos prolongada, consoante se apresentasse a necessidade. Miqueias já havia sido, mais de uma vez, incumbido de missões difíceis, que só ele, no dizer do seu Mestre, era capaz de realizar. E, de cada vez, havia sido agraciado com condecorações e prémios, e apontado como exemplo máximo aos seus companheiros. Cada uma dessas missões era levada a cabo com mais ou menos dificuldades, e sempre, no entanto, corajosamente. Miqueias sempre dizia aos seus companheiros que, pelo seu Mestre, Senhor e Rei, tudo valia a pena, tudo era possível de ser executado. Ele, Miqueias, amava-O mais do que a própria vida, e daria, de bom grado, essa mesma vida, sem hesitar, por Ele!

Passou cerca de um mês terrestre... Miqueias foi a vários lugares, levar as mensagens do seu Mestre a humanos que as tinham que receber. Correra vários perigos, sofrera contrariedades e atrasos indesejados, mas conseguira cumprir as ordens recebidas. Quase tudo estava cumprido. Faltava agora apenas uma localidade onde ir, e uma tarefa a pôr em prática.
Miqueias apresentava-se, normalmente, vestido consoante as épocas atravessadas, na Terra, e conforme o aspecto considerado normal nessas eras, pelos humanos, com os quais ele se tornava parecido, afim de não chocar nem escandalizar fosse quem fosse. Metamorfoseava-se como e quando era necessário... Isso não era algo de sua vontade própria, mas uma adaptação que lhe era imposta em cumprimento do dever. Era como um soldado que se caracteriza com camuflagem para passar despercebido no campo de batalha, incógnito e invisível perante os inimigos... Ele aceitava sempre essa adaptação, de bom grado, pois sabia-a necessária, e não se importava com isso: Tudo por servir ao Mestre, mais e melhor! Desta feita, em pleno século vinte e um, trajava uma simples camisa de flanela, com padrões de xadrez, um blusão de ganga, com aspecto um pouco gasto, umas calças que pareciam ser de ganga, também um tanto desgastadas, como estava nesse momento na moda, na Terra... O calçado tinha o aspecto de já ter sido usado durante algum tempo. Estava bem disfarçado, de peregrino que chega de longe, para aquilo que tinha a fazer, de momento: bater a certas portas daquela aldeia perdida na serra, testar algumas dessas pessoas, pedindo ajuda. As reacções das pessoas demonstrariam as intenções dos seus corações, e o seu humanismo. Miqueias sabia que o seu aspecto actualizado poderia convencer pelo menos algumas daquelas humildes pessoas que por ali viviam, com muito fracos recursos. Outras casas havia ali, de pessoas que haviam-nas herdado das suas famílias, e onde apenas podiam ir nas férias, por ter tido que emigrar para as cidades, em busca de trabalho. Essas eram pessoas com mais recursos. E ele, possivelmente, também convenceria alguns dos ricos, cujas mansões se encontravam por perto, embora não fossem muitos. O Mestre lhe assinalaria prontamente a que portas bater. Isso não tardou, de facto, pois de imediato, consultou-se com Ele:
-Mestre! Agora que acabei de chegar, diz-me a que portas hei-de ir bater, suplico-Te! - Pediu, num murmúrio, enquanto parava à entrada da aldeia, como que para retomar o fôlego, depois de uma árdua caminhada.
Ninguém, humanamente limitado à simples existência terrena, e sem o dom de visão espiritual, poderia ter visto que ele acabara de descer de um carro celeste. Sabia que o anjo que o transportara até ali se pusera à sua disposição, mas que, de momento, também tinha ele próprio outras tarefas a realizar, não muito longe dali.
Bateu a uma porta, depois a outra e outras, ainda. Algumas abriram-se, atendendo-o afavelmente quem à porta aparecia. Noutras nem recebeu resposta. Outras, ainda, foram entreabertas de má vontade, e com maus modos, fechando-se-lhe de seguida na cara e à bruta. Inclusive, implicaram com o facto de ele ter o cabelo comprido, e chamaram-lhe nomes, embora ele o tivesse atado atrás, para aligeirar um pouco o seu aspecto: humilde, mas asseado, limpo. Ele não se espantou com o facto, pois já estava à espera disso. Já não era a primeira vez que provocava nas pessoas esse tipo de reacções. Havia muita gente preconceituosa no mundo! Ele não as julgava pelos seus comportamentos. Apenas as estava a assinalar ao seu Mestre.
- Mestre! – Disse ele, baixinho, depois da última porta daquele pequeno arruamento se ter fechado nas suas costas. – Estão assinaladas as pessoas que me indicaste! Que mais desejas que faça, meu Senhor?
-Missão cumprida, Miqueias!Agora, deixa-os comigo! Reagiram como lhes ditaram os corações, e eu estava a dar-lhes nova oportunidade! Semearam aquilo que irão colher, em justiça! Agora, vai àquela casa, do outro lado da rua! - Disse-lhe a Voz Divina e Interior que o guiava em todo o tempo. Está lá uma das minhas filhas, muito querida, que me serve de todo o coração. É uma jovem. Quero que a conheças. Ser-te-à de muita ajuda, e receber-te-à muito cordialmente. Chama-se Isabel. Ela falará contigo e te contará pormenores da sua vida. Está avisada por Mim da tua vinda. Mas não lhe reveles que és um Imortal! Nem lhe digas que sabes o seu nome! Apresenta-te do modo que te ordenei. Deixa que ela se te apresente também, e que ela própria te fale de si! Ela apenas espera um servo de Deus, um peregrino, nada mais!
-Certo, Mestre! Assim seja! – Respondeu, baixinho, Miqueias. – Estou nas Tuas Mãos, meu Senhor!
Pouco depois, bateu à porta daquela vivenda típica. Uns passos se fizeram prontamente ouvir, e uma voz fresca, alegre e juvenil perguntou, de dentro:
-Quem é?
-Se faz favor!
Após alguns ruídos característicos de quem destranca uma porta, esta abriu-se um tanto pesadamente. Diante de Miqueias, estava, de facto, um rosto jovem. Miqueias reparou que Isabel era bonita: Cabelos pretos compridos, fartos e brilhantes, presos num rabo-de-cavalo lateral. Olhos verdes e grandes, pestanudos. Pele branca e delicada. Altura média, e um corpo bem proporcionado. Vestida simplesmente, com uma calça de ganga clara e uma blusa de algodão estampada, de mangas arregaçadas. Uns ténis simples. A simplicidade em forma de mulher! O servo de Deus apresentou-se:
- Bom dia, minha senhora! O meu nome é Miqueias, e sou um peregrino. Peço desculpa de a incomodar! Acabo de chegar a esta aldeia… Preciso de ajuda, e bati à sua porta, na esperança de que me pudesse fornecer algum alimento, pois o pouco dinheiro que eu trazia comigo se me acabou e necessito algo de comer…
-Bom dia! Ajudá-lo-ei, com certeza! Entre! – Disse prontamente a jovem, cujo sorriso juvenil se manifestava agora, depois de o ter escutado muito seriamente, e observado com atenção. Isabel acabara de conferir que Miqueias correspondia inteiramente à descrição que o Mestre lhe acabara de dar, pouco antes, a seu respeito, e que ali estava, sem mentiras, nem subterfúgios. Ela fora efectivamente avisada da vinda do peregrino, do seu aspecto e do seu nome. Havia-lhe sido pedido que o recebesse cordialmente, por se tratar de um servo de Deus, um verdadeiro cristão.
- Ouça, Miqueias: é a minha vez de me apresentar. O meu nome é Isabel!Esta é a casa dos meus pais, onde costumo passar férias. Sente-se aqui, à mesa, por favor! Descanse um pouco! E, já agora, faça-me companhia para o pequeno-almoço! – Ofereceu ela, indicando-lhe uma cadeira, na divisão onde o fizera entrar.
Tratava-se de uma cozinha rústica, que servia ao mesmo tempo de sala, como era costume nas casas de campo tradicionais. A mesa estava posta, bem fornecida, do que parecia constituir um pequeno almoço moderno.
Ele seguiu a indicação dela e sentou-se no lugar oferecido. Entretanto, Isabel aproximara-se de um antigo guarda-loiças, de onde extraiu uma antiga caneca de loiça típica da região, e um pratinho do mesmo género, para além de um copo de vidro colorido e trabalhado, coisas que apanhou ao abrir a porta dupla de vidro transparente. Dispôs os objectos na mesa, diante do lugar onde Miqueias estava, finalmente, sentado. Depois, de modo rápido e grácil, abriu uma gaveta do mesmo guarda-loiças, de onde extraiu, por sua vez, um garfo, uma faca, uma colher pequena, que lhe entregou à mão, gentilmente, dizendo, em tom de confidência e sem deixar de sorrir:
- Sirva-se! É um prazer para mim ter companhia para esta refeição matinal! Estou aqui passando umas breves férias, após as quais terei de regressar ao trabalho, a alguns quilómetros daqui!
- Se eu não estiver sendo indiscreto, em que trabalha, Isabel?
-Sou enfermeira, em Lisboa, na maternidade Alfredo da Costa!
- E gosta do seu trabalho?
- Muito! É algo para o qual sempre senti vocação: ajudar pequenos seres humanos, frágeis e indefesos, a vir ao mundo! É um tanto cansativo, por ter uma carga horária prolongada, diariamente, mas empolgante! Sabe, Miqueias? Em cada parto presenciado, em cada recém-nascido que ajudo a pôr no mundo, vejo sempre, sem cessar, o Milagre da Vida! É fascinante! E disso, não me canso nunca!
- Calculo que assim seja! Também já tive ocasião de presenciar alguns, não directamente, mas através da televisão. Sou da mesma opinião! É maravilhoso! Mexe connosco, não é verdade?
-Mesmo! Muito! E você, Miqueias? Disse-me há pouco que é peregrino…
-Sim! Já andei muito, de terra em terra... Já desempenhei alguns cargos de muita responsabilidade... Tinha de viajar muito, nesses trabalhos... Acabo de chegar de viagem, como lhe disse, e sou cristão. Também trabalho para o meu Mestre e Senhor, sempre que necessário!
A conversa prosseguiu, em ameno convívio, durante aquela refeição. Combinaram que Miqueias poderia ficar o tempo necessário naquela casa, enquanto Isabel estivesse de férias. Depois se veria o que poderiam fazer, no tocante à estadia dele ali .
Passaram ambos horas agradáveis, em que Miqueias se ofereceu para ajudar Isabel a arrumar a casa e consertar algumas coisas, fazer um pouco de limpeza nas várias divisões.
Havia já vários dias que Miqueias se encontrava a viver na casa de Isabel ... Sentia-se feliz após ter cumprido a parte essencial da missão que o seu Mestre lhe incumbira, nessa aldeia, e sabia que não estava a desobedecer de modo algum ao que lhe havia sido ordenado. Pelo contrário, fora recebendo mais directrizes do seu Senhor, e por isso se encontrava ali. A sua nova amiga era simpática. Recebera-o impecavelmente. Mas ele sentia nascer por ela algo de que não estava à espera, de todo. Em oração íntima, num momento em que ela não se encontrava perto, falou a esse respeito com o Mestre:
- Meu Senhor! Que é isto, que agora sinto? Sabes que eu nunca tive nenhuma mulher...
-Meu caro Miqueias! Não criei nenhum ser para estar só! Nem a ti! Bem o sabes!
- Mestre! Nunca pensei, como nazireu que sou, que me fosse lícito gostar alguma vez de uma mulher! Porquê este sentimento que agora me invade, então?
-Miqueias! Escuta: Eu nunca disse que não fosse lícito a um nazireu amar uma mulher, ter uma companheira! Vós, nazireus, apenas não deveis corromper-vos com mulheres, envolvendo-vos com as gananciosas, as prostitutas, e as que vivem levianamente, envolvendo-se elas próprias com quaisquer homens que lhes apareçam diante! Vós sois santos, separados para Mim! Mas nunca impedi nenhum servo meu, sendo nazireu, de ter sua esposa, seu lar, seus filhos, inclusive!
-Então, eu estive sempre com ideia errada a esse respeito, Mestre!
- Em parte, Miqueias! Apenas em parte! Fizeste bem em não te envolveres antes com nenhuma mulher! Mas agora, posso revelar-te algo... Tu sabes que os meus desígnios são secretos, meus, impenetráveis à mente humana!
- Sei, sim, meu Senhor!
-Pois então, agora, o que sentes começar dentro de ti, é o Amor, por essa tua amiga. E por isso te interrogas, certo?
- Sim, Mestre! Sabes que me sentia só, sempre que vindo em missão, não me encontrava  aí, na Tua Cidade Celestial... Sentia que me faltava algo, em todo este tempo!
- E nunca te perguntaste o que é que te faltava, amigo? Lembra-te lá! 
-Acho que me sentia como Adão, antes de lhe teres dado Eva!
- Isso mesmo! Desde sempre, reservei para ti um tempo em que poderias, por fim, viver com alguém de quem gostasses mesmo! Alguém como a Isabel! Que esteja ao mesmo diapasão que tu! Esse tempo chegou, finalmente! A tua missão principal está cumprida! Desempenhaste, finalmente, tudo o que esperava de ti, em relação a este planeta! Mas Eu conheço-te desde que te criei, conheço-te melhor do que tu mesmo, alguma vez possas pensar! E sei, ainda que possas não mos expôr, dos teus anseios mais íntimos! Isabel é a alma gémea da tua, e que reservei para ti, que sempre me obedeceste e serviste o mais fielmente possível! É essa a tua recompensa!
Miqueias, prostrado de joelhos, adora o seu Senhor, emocionado, de lágrimas nos olhos. Por fim, consegue expressar um pouco da sua gratidão:
- Graças, Mestre! Mas ela é bastante mais jovem do que eu!
- Sim! Em termos de criação, a alma dela é jovem, por assim dizer, enquanto a tua é bastante antiga! Mas isso não importa! Para Mim, a idade física é um pequeno detalhe. E a alma é eterna, intemporal! Para juntar as almas gémeas, a linha do tempo deixa de ser importante. Vocês são perfeitos um para o outro! Para ela, é também a maior das recompensas que lhe posso dar! Ela merece-te tanto como tu a mereces! E, acredita em Mim, que a conheço bem, não te vai falhar! É a companheira ideal para ti!
- E como ficaremos juntos? Não tenho eu de regressar para junto de Ti, Mestre?
- Sim, meu amado Miqueias! Claro que tens! Mas, fá-lo-ás, desta vez, junto com ela!
-Ela não vai morrer, pois não?
-Não! Vou arrebatá-la junto contigo, pois o seu tempo neste planeta já está cumprido! Vou apenas dar-vos tempo para que vos ajusteis um ao outro, e para vos unirdes legalmente.
Um sorriso de felicidade, que mais parecia um raio de sol, iluminava agora o rosto de Miqueias:
Isabel era, então, aquela por quem sempre ansiara, mesmo sem o saber! E seria sua companheira para sempre! O seu coração exultava.
Por seu lado, o Mestre sabia que a própria Isabel também se interrogava sobre o mesmo assunto.
Com efeito, fechada, por um pouco, no seu próprio quarto, a jovem mulher orava, expondo também ela ao seu Mestre o que lhe ia no coração. E Ele esperava que ela terminasse de o fazer para lhe responder também. Ela merecia-o, pois fora sempre obediente à voz do Espírito, tal como Miqueias. Ela própria escolhera não se envolver com nenhum homem, sem que Deus lho designasse e lho revelasse. Mas sentia uma confiança inusual para com Miqueias, e interrogava, agora, também ela, o Mestre:
- Senhor: sabes o que sinto, por estar perto do Miqueias! Diz-me, Mestre: acaso ele é aquele que Tu designaste para estar comigo? Será ele o homem que tens reservado para mim?
-Minha filha! Como a tua intuição te ilumina bem! Acertaste! Eu nunca permitiria que ninguém ferisse o teu coração, já que tu mo consagraste! Miqueias é, de facto, o companheiro que te tenho destinado, desde sempre! Conto contigo, para continuar a tratá-lo com todo o respeito e carinho que ele merece! Só ele te pode fazer feliz! Se o aceitares, claro! Estás disposta a ficar com ele, sujeitar-te à sua comunhão e presença na tua vida?
- Sim, Mestre! Estou disposta a isso! Sempre Te obedeci, Senhor! Sempre Te escutei! Farei o que Tu quiseres!
-Se ambos fizerdes sempre o que vos mando, podereis estar constantemente perto de Mim, e sereis felizes juntos!
-Acatarei a Tua Santa direcção, como sempre, meu Senhor! Sabes que te amo e que confio em Ti! Não desejo que nada mude em relação a isso, Mestre! Sabes que nunca me sujeitei a ninguém mais do que a Ti e aos meus pais! Agora que sou adulta, livre, posso decidir o meu caminho. E Tu sabes que sempre optei por deixar a Teu cuidado a direcção da minha vida! Estou feliz, por sempre o ter feito, desde que me tornei adulta e responsável, como Tu bem o sabes, meu Amado Mestre! A Tua Sabedoria é a minha bússola, Senhor!
- Minha amada filha! Amo-te!
- Sim, meu Senhor, meu Deus! Eu sei, e por isso, também te amo e te adoro, te venero, acima de tudo!
- Isabel! Sabes que desejo que sejas feliz! Quando chegar a hora, unir-te-ás, com a minha aprovação, ao Miqueias, e ambos virão juntar-se a Mim! A tua missão aqui está a terminar, e a de Miqueias também! Não passarás pela morte física! Nem Ele! Arrebatar-vos-ei!
- Mas teremos de aguardar o Grande Arrebatamento da Humanidade, Mestre?
- Não, minha amada! Vireis ambos em breve, antes disso! Apenas tendes de acertar algumas pequenas coisas, aí no planeta Terra, e unir legalmente as vossas vidas! Proporcionarei tudo, de modo que o possais levar a cabo sem dificuldade, pois essa porta está aberta para vós os dois, desde agora, e ninguém se interporá! Consagrareis a vossa união fisicamente, antes de virdes, para a vossa maior intimidade e felicidade. Aqui, junto a Mim, as vossas almas estarão em união completa, e tudo o que quiserdes fazer, nessa altura, fá-lo-eis unidos, em total concordância. O vosso amor será eterno e indissolúvel!
Passou algum tempo. Tudo o que o Mestre vaticinou, a essas duas almas, que O amam e servem fielmente, se cumpriu... Só ainda não partiram para junto d’Ele... Mas a hora está chegando, e eles, unidos agora de modo definitivo, vivem o seu amor intensamente. Estão felizes, não só por se amarem e estarem juntos, mas, também, por saberem e sentirem que valeu a pena toda a obediência a que se sujeitaram para com o seu Mestre adorado: a recompensa d’Ele para as suas vidas é a própria felicidade de ambos!


FIM


Nely,
2 de Abril 2017
Nota: a)Um nazireu é um rapaz/homem consagrado ao serviço de Deus desde o ventre de sua mãe. Na Bíblia, Antigo Testamento, na Lei de Moisés, encontram-se relatados  e estabelecidos os preceitos e regras específicos e rígidos, para o tipo de vida que esses escolhidos e consagrados deveriam seguir, para serem verdadeiros servos de Deus. Chama-se a isso "a lei do nazireado". Alguns desses princípios estão mencionados neste conto.
b) As situações e personagens existentes neste conto são fictícias, excepto o Mestre, pois trata-se  de Jesus Cristo.








terça-feira, 28 de março de 2017

CONTO - SOLTEIRO POR ESCOLHA PRÓPRIA

“Não têm dono os caminhos
Que pela vida pisamos
Vamos andando sozinhos
Com as forças que encontramos.”
-Isolina Alves Santos, em “ Semeei Rosas Ao Vento”, p.103

SOLTEIRO POR ESCOLHA PRÓPRIA

Apresento-me: o meu nome é Gilberto Fraga. Mais conhecido p’lo “professor Gil de Ciências Naturais”. Vivo aqui, nesta casinha, com o meu cão, Piloto. Só os dois, por escolha minha. Um pouco mais acima do que a aldeia, para estarmos mais sossegados, os dois. Gosto de aqui estar, só eu e ele.
O tempo, hoje, está um bocado fresco, e desagradável, por causa da chuva que caíu, na noite passada, e do vento que ainda se sente. Está-se bem ao pé da lareira, que costumo acender para conforto meu e do Piloto. Quando há bom tempo, costumo ir apanhar lenha miúda para acender o lume. E pinhas secas, que ajudam a preparar um bom fogo. Mas, mesmo com este tempo frio, vejo-me obrigado a sair, todavia: Se não o fizer, quem levará Piloto a dar a sua volta costumeira, de manhã, e à tardinha, afim de fazer as suas necessidades, e exercitar um pouco o seu grande e pesado corpo de cão venerável? E até eu preciso de fazer um mínimo de exercício físico! Já há dez anos que vivemos os dois sozinhos, ele e eu. Adoptei-o, resgatando-o do canil municipal da cidade onde vivi quase a minha vida toda. Um dia, à porta de um dos supermercados dessa cidade, havia um peditório para os animais. Como estava com vontade de arranjar uma companhia canina, que é uma das melhores que um homem sozinho pode arranjar, informei-me junto dos responsáveis pelo peditório, e assim que os meus afazeres me deixaram umas horitas livres, fui lá, com a minha carrinha. Agradou-me, entre muitos, este companheiro de quatro patas. Na altura, era um jovem pastor alemão a precisar de dono. Tinha sido encontrado abandonado havia pouco tempo. Demo-nos bem logo à primeira. E temos feito muita e excelente companhia um ao outro.
Fui professor durante vários anos, e quando chegou a altura da reforma, há cinco anos atrás, eu, como era - e ainda sou, e serei - solteiro, incondicionalmente, mudei-me da última cidade onde vivia e onde tinha trabalhado nos últimos tempos, para esta aldeia, onde vivo tranquilo, com este amigo de quatro patas. De vez em quando, a malta mais jovem, como vocês, que vai sabendo, pelos habitantes daqui, que fui professor, aborda-me, e fica um pouco à conversa comigo. Os jovens são esponjas autênticas, sempre desejosos de aprender, de conhecer mais e mais. Fascinam-nos as inúmeras histórias e as experiências pessoais que tenho para lhes contar e partilhar com eles. Ao princípio, alguns têm receio do Piloto. Mas, no fundo, embora ele intimide um pouco, na primeira visita, , os que vêm com boas intenções, e nos respeitam, tornam-se logo  amigos dele também.
Há mesmo uma pequenita, aqui da aldeia, de seis anitos, que adora cá vir, para brincar com este meu cão, sempre que pode. Da primeira vez, há cerca de um ano atrás, ela tinha receio, mas eu ajudei-a a aproximar-se dele, ainda me lembro:
- Não tenhas medo do Piloto, querida! – Disse-lhe eu.- Ele não morde nem os meninos, nem as meninas, como tu, que simpatizam com ele! Anda fazer-lhe festas!
A miúda veio, ainda a olhar para mim, para certificar-se que podia confiar. Chegou-se ao pé do Piloto, comigo, e fez-lhe uma tímida festa na cabeça, dizendo:
- Mimi gosta de ti, Piloto!
Depois, vendo que ele era confiável,, continuou durante um bocado, e foi dizendo, olhando-o nos olhos:
-Mimi gosta de ti! Muito! Cão lindo! Mimi amiga do Piloto, sim?
Até dava gosto de ver a cara do Piloto a olhar para ela e depois para mim, de boca aberta, como se estivesse a sorrir, a língua de fora, a semi-cerrar os olhos, e a abanar o rabo! A este cão, só lhe falta a fala! E a partir desse dia, a Mimi passou a vir sempre que pode. Traz sempre com ela um miminho para ele e põe-se a abraçá-lo, a fazer-lhe festas, a dar-lhe beijinhos, a falar com ele...  e este maganão adora a garota! O que é engraçado, é que ele percebe tudo o que ela diz! Até dá gosto ver os dois juntos! Já lhes tirei fotografias, que consegui emoldurar. Ora vejam! Cá estão, sobre este aparador! Não estão o máximo?
Se gosto de jovens? Claro que sim! Convivi uma vida inteira com jovens, tantas turmas de rapaziada! Passei por várias escolas, em todo o País! Deixei recordações, e trouxe comigo recordações também! Mas adoro visitas dos mais pequenitos, como a Mimi, e outras crianças daqui, que sempre que me encontram, com o Piloto, vêm a correr ter connosco! Chamam-me Professor Gil! Fui eu que lhes disse para me tratarem assim, ou, se quisessem, por Sr. Gil! Mas acho que eles preferem ver-me mesmo como professor! Inclusive, quando têm algumas dificuldades com as tarefas escolares, vêm ter comigo, e pedem-me ajuda. E eu ajudo sempre a esclarecer as dúvidas da garotada. Formam uma turminha, todas as tardes, durante a semana, nos períodos escolares. Estão para aqui comigo, uma horita ou duas, depois vão para casa, quando eu vou dar a minha volta com o meu cão. Acompanho-os a casa, a todos, e conversamos sempre, pelo caminho. Os pais já me quiseram remunerar como explicador, mas eu não permito tal! Já lhes fiz entender que faço isso por amizade aos garotos e garotas, como entretenga, e por gosto próprio. Então, passaram a exigir que eu aceitasse dádivas de coisas tais como uns chouriços caseiros, ovos, algum peixe apanhado na ribeira aqui perto, pão feito por eles, cozido em forno de lenha, ou outras coisas do género... tudo uma delícia! E eu, para não lhes ofender a susceptibilidade, aceito. Entretenho-me, muita vez, com as lições que dou aos miúdos, mas também me dedico à bricolagem. E eles também aprendem isso, e gostam de ajudar a montar engenhocas úteis em casa, como muitas das coisas que vocês aqui vêem! E assim, quando precisam, já sabem fazer o mesmo em casa de cada um deles...
Já fui muito louco, quando jovem, e por isso, compreendo a juventude. Já cometi muitos erros e loucuras, tal como muitos deles. Mas é sempre bom ter com quem partilhar experiências de vida e conhecimentos. Eles adoram-me, e respeitam-me. Admiram o companheirismo que existe entre mim e o meu cão. Já fomos os dois um pouco solitários, mas sempre muito unidos. Damo-nos ambos muito bem. Ele sabe quando eu não estou nos meus melhores dias. Dá-me o apoio silencioso que só no seu olhar e no seu comportamento posso advertir. E eu compreendo a sua alma límpida  e simples de cão idoso, que só precisa da minha companhia, do meu carinho e dos meus cuidados, para ser feliz.
Porque é que vivo sozinho com o Piloto? Porque decidi ficar solteiro. Fui um homem apaixonado, que foi duramente desenganado por mais do que uma mulher. A primeira chamava-se Lara, e  era estonteante. Morena, como uma cigana, longa trança negra. Olhos negros de expressão penetrante. Baixinha, magrinha. Hippie! Mas tinha um encanto muito próprio. Apaixonei-me logo, como um louco, por ela. Fui avisado para ter cuidado... Mas deixei-me levar, cego pela paixão. Não quis escutar conselhos de ninguém! Eu  tinha dezoito anos, e ela era mais velha do que eu cerca de oito... Para aquela diaba, fui um breve capricho, nada mais! Essa minha loucura durou um Verão. Eu vivia perto de uma praia. Passei os meses de  Julho e Agosto a louquejar com ela, escondidos, muitas vezes, debaixo da quilha virada de algum barco, rebolando na areia, à noite, e amando-nos como doidos. Corríamos pela praia, de mãos dadas, mas sempre à noite. Ela só vinha à noite ter comigo. Havia um velho barracão, abandonado, numa zona da praia que era pouco frequentada. Ela ia lá ter . Eu esperava ali por ela... Quase nem ia a casa... Os meus pais andavam preocupados comigo. Eu, cego, nem ligava! Quantas noites não voltei eu, mais tarde, depois de ela me ter deixado, a entrar nesse barracão, e não fiquei, ali, a relembrar essa paixão assolapada desse Verão! Sabem aquela canção do José Cid: “A Cabana Junto à Praia”?Pois a minha vida, nessa altura, era parecida com o que diz uma parte da canção. Cheguei a levar a minha guitarra, e tocava  velhas canções que eu conhecia,  e músicas que eu próprio compunha, lembrando-me dessa bandida! Esquecia de vos contar que ainda toco guitarra, e até já ensinei alguns putos daqui a tocar algumas coisitas! Eles também gostam disso à brava! Mas, voltando ao que vos estava a contar: A Lara - Essa diaba! Com ela aprendi o que é ter intimidade com mulheres. Com ela tive a minha primeira vez! Foi o suficiente para fazer estragos na minha vida! Um dia, descobri que ela me enganava, que tinha outro amor: um amante mais ou menos da mesma idade do que ela. Eu nunca o tinha visto, nunca vira os dois juntos, sequer, nem antes de eu andar metido com ela! Ele deve ter estado fora, e  voltou a ter com ela, ou a buscá-la, na única vez que  eu os vi juntos! Ela foi embora, no fim do Verão, com esse sujeito, um hippie, também, de guedelhas compridas e deslavadas, e ar de vagabundo. Descobri então que faziam par, que só estavam de passagem pela cidade. Um louco amor estival! Nada mais! Uma brincadeira, para aquela patifa! Fiquei cego de dôr e de raiva, contra ela, e sobretudo, contra mim mesmo, por me ter deixado enganar assim! Passado algum tempo, cerca de quatro anos, arranjei outra namorada... Chamava-se Celeste - que infelizmente, rimou para mim, com peste! -  loira, como um sol tropical! Olhos verdes fatais:Uma colega de turma, já no final dos meus estudos universitários.... Quando eu julgava que podíamos ser felizes ambos, e que podia voltar a acreditar no amor, ela foi embora com aquele que se dizia, e que eu julgava mesmo ser, na época, o meu melhor amigo: João Sarmindes!...Ah! Celeste! Que eu julgava, a princípio, tão celestial como um anjo! Era linda, sorridente, e mimosa, como se fosse um anjo mesmo! Mas “as aparências iludem”, como diz o velho rifão popular! E ela enganou-me bem! Parecia que não via nada mais, ninguém mais do que eu! Íamos juntos para toda a parte! Levei-a, inclusive a conhecer os meus pais! Eles adoravam-na! Parecia uma rapariga tão acertadinha! Estávamos quase a voltar para Lisboa, para iniciar outro ano lectivo, quando ela me pregou a pior partida que me podiam, alguma vez, pregar na vida: Eu, ela e o meu amigo João, tínhamos combinado abalar todos três juntos para Lisboa, para a Universidade. Mas ela e ele deixaram-me para trás, nas vésperas da data combinada. Não cumpriram com o combinado. Perdi um amigo! E desenganei-me ainda mais do que da primeira vez!  Cheguei a cortar os pulsos, mas fui salvo a tempo, por uma alma caridosa,  que me socorreu e alertou os meus familiares. A minha mãe ia morrendo de desgosto! Escusado será dizer que perdi esse ano lectivo, entre o problema de ter cortado os pulsos, que teve de ser tratado de urgência e que foi um caso muito delicado, fisicamente falando, e a depressão com que fiquei, também! E essa quase que me mata também! Tive de esperar, para me voltar a matricular, no ano seguinte, na mesma Faculdade, e que me concedessem o reingresso. Quando consegui recuperar disso tudo, lá fui, sozinho, para Lisboa, novamente! Eles de vez em quando, cruzavam comigo, com ar comprometido, mas eu evitava-os ao máximo! Tentaram vir justificar-se, mas como eu tinha o pavio curto, e estava ainda dorido moralmente, de toda essa história, não quis saber mais deles, e mandei-os nunca mais virem ter comigo, nem me falarem sequer! Então, afastaram-se de mim para sempre!  Foi o melhor que fizeram! Eu estava capaz de dar cabo deles se voltassem a meter-se comigo! Daria cabo de ambos! Aí, então, é que eu nunca mais quis saber de raparigas! Algumas ainda me rondaram e tentaram... Mas eu abdiquei! Preferi parecer um urso solitário, do arriscar-me a sofrer mais, por quem não merecia o meu sofrimento! Solteiro, sozinho, tenho vivido razoavelmente: aqui estou ainda, enquanto Deus quiser! Se o meu cão me sobreviver, espero que possa, antes disso, entregá-lo a alguma alma amiga, que cuide dos seus últimos dias... Caso contrário, se eu lhe sobreviver a ele, viverei o que me resta de vida como eu puder.
 Mulheres, meus amigos? Dessas? Nunca mais! Quando me sentia com necessidade física de estar com uma mulher, cheguei a ir a casas de prostitutas! Chegava lá, era atendido decentemente, sempre por alguma garina engraçada, mulheres que sabiam o que tinham a fazer... Não se punham com merdas!  Eram pagas, para aquela hora, e pronto! E tudo sem compromisso! Fora disso, o que penso das mulheres? Pois bem: Há mulheres maravilhosas, sim, verdadeiros exemplos de bondade, de abnegação, de coragem, ou de empreendedorismo... Minha mãe foi uma delas, um santo exemplo, que guardo em meu coração! Algumas mulheres podem ser verdadeiras e grandes amigas nossas! Não lhes retiro os seus méritos!  Havia, até há pouco tempo atrás, uma senhora viúva, aqui na aldeia, que se tornou mesmo uma verdadeira amiga minha, de coração! Uma amizade sem maldade, sem segundas intenções! Como se fosse minha irmã! Cá está a foto dela! Chamava-se Hermínia Vasco! Houve quem lhe tentasse deitar fama de ser minha amante! Mas nunca lhe toquei com um dedo, sequer! Sempre houve entre nós um grande respeito! Um dia, um dos vizinhos, aqui da aldeia, veio ter comigo, e perguntou-me se realmente eu tinha alguma coisa com ela! Conversámos e fiz-lhe ver a realidade. Ele alertou-me que ela estava a ser difamada por minha causa. Eu contei-lhe a verdade. E tudo ficou esclarecido a partir daí: pediram-nos desculpa a ambos, e nem mais se falou no assunto. Amigos, mas amigos fraternos! Se ambos tivéssemos querido, poderíamos ter sido amantes, sim senhor! Poderíamos ter vivido juntos, também, que não teria tido mal nenhum, pois então? Ninguém teria tido nada a ver com isso, e não estaríamos a prejudicar ninguém, sendo ambos sem compromisso! Conversávamos muito. Ela ajudava-me imenso, limpando o que podia da minha casa, trazendo-me, certos dias, comida, quando me sabia doente, metido à força na cama. Eu também a ajudava a ela no que me era possível! Ela até passeava o Piloto, quando eu não podia! Piloto gostava dela a valer! Mas a morte levou-me essa boa amiga, há meses atrás... Um ataque cardíaco fulminante, e fiquei sem a Hermínia! Fiquei bastante desgostoso, algum tempo, e o Piloto, coitado, gemia de meter dó! Parecia que chorava! Quando fui ao funeral dela, o Piloto foi também. Ficou gemendo, deitado ao lado da campa, um monte de tempo, até que lá consegui que voltasse para casa comigo. Esteve sem comer um par de dias. Só bebia água. Até eu perdi o apetite, durante um tempo, mas reagi! Por ele e por mim, e pela memória dessa amiga, que não havia de gostar de me ver assim! Querida Hermínia! Deus a tenha em Seu Eterno Descanso! Que a sua alma generosa e humilde bem o merece! Nunca a esquecerei! Grande mulher, valorosa e leal amiga! Mas aquelas duas, que me traíram e abandonaram, na juventude, para fugirem com outros... dessas, nem ver mais nenhuma é bom! Já vêem, não tenho tido sorte com mulheres! Ah! Mulheres! Como, sendo jovem, fui tolo! Apanhei bebedeiras de cair inerte, por causa delas! Para quê? Ia dando cabo da minha saúde, da minha vida! Até que, um dia, compreendi que o melhor, para mim, desenganado como já estava, era prosseguir sozinho. Entretanto, a vida foi passando, e tive muita gente a quem dar atenção, na minha profissão. Quantas gerações já passaram pela minha vida! Guardo belas recordações de bons  e boas colegas de profissão, de gente capaz e inteligente, de corações limpos. E os outros, pú-los para trás das costas... Também guardo gratas recordações de excelentes alunos e alunas, malta jovem com garra e inteligência, mas também com genuína amizade por mim! Alguns deles, já adultos, sabem agora onde vivo, e já me têm vindo visitar! É grato receber visitas de quem nos guardou no coração, saber que fomos bom exemplo para alguém. Que essas pessoas nos estimam e nos têm amizade. É o lado bom da minha profissão.
 Dizem por aí que sou solitário... Deixem-nos falar! Sou mais feliz assim! O Piloto é um companheiro fiel!  E, ao menos, ele, não finge gostar de mim!
Obrigada pela vossa visita, amigos! Podem voltar quando quiserem! Se trouxerem um miminho para o Piloto, tanto melhor! Para mim, as vossas visitas bastam-me, para ter algumas horas mais animadas! Sobretudo se trouxerem as vossas guitarras, para treinarmos  e tocarmos juntos alguma coisita!
Vá, Piloto! Anda daí! Vamos! Já não chove, e é de aproveitar agora! Olha, o arco-íris a brilhar, em todo o seu esplendor! Deixem-me lá tirar uma foto e guardar mais essa bela lembrança!Arco-íris!Eterna aliança de Deus com o Seu povo! Sabiam? Eu também sou do povo de Deus! Creio firmemente n’Ele! Deus não se esqueceu de mim! Nem eu d’Ele! Obrigada, Senhor, por cuidares de mim e do Piloto!


FIM


Nely, Março 2017

sexta-feira, 24 de março de 2017

CONTO "ESCOLHA DÍFICIL"

“Apesar de toda a felicidade imensa que nos espreita, sentimo-nos tristes quando partimos, porque deixamos sempre alguém para trás.” – Hervé Villard


ESCOLHA DÍFICIL

Sabina, sentada na cozinha, olha pela janela, pensativamente... é de noite, ainda... quatro horas da manhã... O dia ainda tarda, e ela, com insónia, como em tantas outras noites, levantou-se, cansada de andar às voltas na cama, sem dormir... Na sua frente, sobre a mesa, está a caneca de chá de tília que acabou de preparar, e uma lata de biscoitos dinamarqueses, comprada há dias, num dos vários hipermercados da cidade... Apenas mais um modo de conjurar o sono, que não vem...
Há poucas horas atrás, de tarde, esteve com Graciano, que, mais uma vez, lhe proporcionou umas horas encantadoras de convívio... Um convívio cheio de doçura, de música, de diversão... Aquele homem é um encanto: Belo, inteligente, culto, detentor de uma extrema elegância  e de muito bom gosto, na sua apresentação e no vestuário que usa... Sabina pensa nele, revê mentalmente o momento em que Graciano lhe falou de casamento... Graciano é dono de uma bela fortuna. Solteiro. Lindo!... Nada lhe faltaria, se aceitasse casar com ele! Nada... a não ser, talvez, sexo! Graciano acabou de confessar-lhe que há pouco tempo, ficou impotente!
Sabina adora-o, desde que o conhece... Foi como que um amor à primeira vista, como se eles se conhecessem há milénios e se reencontrassem por fim. Como decoradora de ambientes, de interiores, Sabina Menezes já possui algum renome, em Cascais, onde vive actualmente, e não só. Nessa qualidade, ela foi requisitada por Graciano, para lhe redecorar a casa, uma esplêndida vivenda, nos arredores de Almada. A partir de aí, foi nascendo um são convívio, uma bela amizade... Ao nível das ideias, dos gostos, da cultura, Graciano é a sua alma gémea... Até bem que poderia ser o seu amor platónico! Desde há uns meses que se conheceram, têm conversado sobre tudo um pouco, mas ele nunca se tinha decidido a confessar-lhe esse seu segredo inconfessável! Na sequência de um tratamento a um problema grave de saúde, Graciano ficou assim, há pouco tempo... Que lástima! Ele tem desgosto em já não poder, actualmente, satisfazer plenamente nenhuma mulher... Mas apaixonou-se por Sabina,  que se lhe tornou, a pouco e pouco, irresistível, com  as suas belas curvas sensuais e generosas, os seus cabelos ruivos longos, fartos, e bem cuidados, a sua pele muito branca, quase leitosa, os seus olhos cor de mel, grandes e amendoados, e aquela boca carnuda que, a ele, tanto lhe apetece beijar! Ela tornou-se-lhe mesmo imprescindível, também a nível emocional e de comunhão de ideias e conhecimentos. Graciano ama-a tanto, que não se importou, por fim, de lhe contar o seu comprometedor segredo, pois vê nela uma boa confidente, e também uma amiga compreensiva. Graciano já percebeu que Sabina não é o género de pessoa que conte a outrem aquilo sobre o que lhe pedem sigilo, nem outras confidências ou conversas: ela mesma é o tipo de pessoa tão reservada, que nada conta de sua própria vida a ninguém! E para poder pedi-la em casamento, ele tinha de ser sincero! Graciano achou que Sabina não se importaria com esse pormenor. Que, certamente, hão-de achar para ambos uma boa solução, caso ela aceite casar-se com ele. Sendo um homem de carácter altruísta, não se importa de não poder ser satisfeito sexualmente ele próprio... Propõe a si mesmo dar-lhe a ela toda a satisfação possível! Falaram sobre esse ponto, e ela sabe que, se ele lho promete, fará tudo por cumprir... Mas a jovem mulher tem sérias dúvidas sobre essa questão delicada.
Sabina está agora perante um grande dilema... Pediu uns dias para pensar na proposta de Graciano... Essas decisões não se tomam assim, de repente... Para ela, Graciano representa o amigo e companheiro ideal, que a incentiva  a cultivar-se, que a rodeia de mil cuidados e atenções, e se propõe mimá-la de todas as formas possíveis... Mas saber que, possivelmente, não vai poder fazer nada de jeito, na cama, com ele, para Sabina, é  algo que a deixa decepcionada... Pensava que um pedido de casamento pudesse vir, da parte dele, mas não essa sua confissão de impotência... E agora, o que fazer? Tentar levá-lo, na mesma, para a cama? Tentar descobrir se ela consegue fazê-lo sentir prazer, mesmo assim? Que situação injusta! Logo a acontecer com Graciano, que é a generosidade em pessoa!Ele deve estar a sofrer no seu amor próprio, na sua dignidade de homem, certamente!- Pensa Sabina. Ao fim ao cabo, adora-o. E pensa que, caso ele a satisfizesse, ela quereria retribuir-lhe, dar-lhe, a ele, o prazer devido e merecido, também. Será que ele não tem mesmo cura?
Todas essas interrogações a fazem ficar sem sono... Caramba!
Mas não é só o que se passa com Graciano que a aflige: Por outro lado, existe também aquele seu caso já antigo com Jerónimo, aquele “affair  sexual” que mantêm, às escondidas, com ele, já há alguns anos... Apenas sexo: Encontros decididos por ambos, certos, com periodicidade semanal... Sexo louco e apaixonado, por umas horas, que os deixa, a ambos, satisfeitos e esgotados... Depois, cada um vai à sua vida, como de costume... Sem outros compromissos... Jerónimo também é um belo homem, de tipo atlético, viril... E mostra-se louco por ela... mas ainda não lhe propôs, nunca, casamento: gosta do caso de ambos assim, como está... Já abordaram o assunto muitas vezes. Ele sempre foi categórico, mostrando-se irredutível sobre essa questão. Até que Sabina, por fim, desistiu de o fazer mudar de ideias... Jerónimo aprecia a sua própria liberdade, por cima de todo o resto...  Todas as semanas, ou quase todas, eles encontram-se, no meio de uma agenda cheia, de compromissos de trabalho e de negócios, de parte a parte...
Sendo Sabina solteira, também, e de trinta e seis anos, é livre, independente. E gosta, também ela, da sua própria liberdade... Na actualidade, não tem nenhuma amiga confidente: cada uma das suas amigas de antes foi à sua vida, e já nem se encontram, sequer... Se não fosse Jerónimo, e, há pouco tempo, Graciano, ela quase não teria, sequer, um pouco de vida social... As horas passadas com Jerónimo têm compensado, parcialmente, as suas carências afectivas e sexuais. Sabina tem adorado cada  momento íntimo com ele. Ele tem sabido dar-lhe prazer de forma única... E ela adora isso! Não pode já passar sem esses doces e luxuriosos momentos de entrega física total... Ele não será, decerto, tão rico como Graciano... Mas tem o que, a Graciano, infelizmente, agora, lhe falta... Ela quer, por um lado, tudo aquilo que Graciano lhe pode proporcionar, mais a sua glamorosa companhia, tudo aquilo que ele é, e o que faz com ela... Mas, para obter tudo isso através de um casamento, terá de renunciar a essa sua relação clandestina com Jerónimo... e também lhe custa ter de abrir mão da satisfação física que ainda recebe dele, do carinho que os une...
O ideal, era manter-se ainda assim, por algum tempo... E usufruir dos dois! Mas não pode ser! A sua integridade moral não lho permite! Ambos na casa dos quarenta anos, solteiros, sem compromisso, eles são belos homens, cada um no seu género: Graciano Meirinhos, loiro, de olhos esverdeados... O típico gentleman nórdico, encantador, cheio de carisma... herdeiro aristocrático, tão rico, que nem precisa de trabalhar... Jerónimo Palmeira, de olhos escuros, cabelo negro, estilo latino... Corrector de câmbios e executivo de negócios, muito bem sucedido, ligado à Bolsa de Valores Europeia... Um ás a fazer dinheiro! Um vulcão na cama!
Graciano desconhece que Sabina tem um amante... Jerónimo desconhece ainda que Sabina acompanha com Graciano... Ela tem conseguido, desde há meses, e também nestas últimas semanas, manter cada um deles desconhecido e ignorado do outro, no tocante à sua relação com ambos... Mas até quando poderá permanecer nessa dualidade? Alguma vez terá de se decidir... Tem medo que ambos descubram... Tem receio que nem um, nem outro, queiram continuar o seu respectivo relacionamento com ela, caso descubram o seu duplo envolvimento... Sente-se dividida! E receia ficar sem nenhum deles... Vai ter, por força, de escolher um deles e deixar para trás o outro, por muito que lhe custe...
 Passados alguns dias...
- Preciso de uma resposta da tua parte, Sabina! Ainda que não te queira pressionar, já não aguento a incerteza, querida! Já te decidiste?
- Já! Aceito a tua proposta, Graciano!
-Ah! Finalmente, querida! Fico feliz de ouvir isso! Tens mesmo a certeza?
- Tenho, meu querido!
Isso tudo é dito com intercâmbio de olhares doces entre ambos, e em tom carinhoso, de ambas as partes.
Estão na sala de estar da casa espaçosa e luxuosa de Graciano, o qual convidou Sabina mais uma vez, para ali lanchar com ele, com o pretexto de saber finalmente a resposta da jovem mulher, por quem é absolutamente louco. Sentados lado a lado, no grande sofá de assento forrado a seda adamascada cor de mostarda, naquele salão de ambiente clássico, e luxuoso, que ela decorou há pouco tempo, a seu gosto, ele toma as mãos de Sabina entre as suas, erguendo-as, e depositando nelas vários beijos.
- Verás que não te vais arrepender, minha adorada! Meu anjo! Vou fazer tudo o que esteja ao meu alcance para tornar-te feliz! Vais ver!
-Então e a questão da nossa intimidade física, como vamos resolvê-la, amor?
- Não te preocupes com isso, minha linda Sabina! Há-de resolver-se bem!
-E que tal, se procurasses um sexólogo? Talvez indo consultar médicos diferentes, obterias outros pareceres?... Quem sabe isso terá alguma solução viável, e esse médico teu não a conheça... Ao fim ao cabo, ainda és um homem novo, há mais esperança do que se já tivesses passado dos cinquenta ou sessenta anos...
- Pode ser! Uma vez que me encorajas a isso, fá-lo-ei, querida! Obrigada pelo apoio! Sinceramente! Em todo o caso, haverá sempre uma solução, até mesmo para termos filhos! Queres ter filhos, Sabina?
-Claro que quero!... Isto é, se ainda puder tê-los... Sabes que a idade avança, e isso é um factor de acréscimo de dificuldade, para qualquer mulher, a partir dos trinta anos em diante!
-Sei, pois! Mas, se não pudermos, por essa razão da tua parte, ou por impotência minha,  adoptamos um!
-Está bem! És muito prático, meu querido Graciano!
-Claro que sou! E o caso é que tenho meios para sê-lo! Então, querida, podemos dar os passos necessários para tratar do nosso casamento?
-Podemos!
- E posso beijar-te, finalmente?
- Claro que sim!
Graciano chega-se mais junto a Sabina, e envolvendo-a em seus braços, pela primeira vez, abraça-a e beija-a nos lábios, longamente. Nesse beijo, há ternura, há uma doçura inexcedível, da parte de Graciano. Sabina corresponde-lhe com muita ternura também. Ela está a começar a apaixonar-se por Graciano.
Depois, olhando-a com meiguice, ele diz-lhe:
-Espera aqui um pouco, Sabinita! Tenho uma surpresa, um presente para ti, meu amorzinho!
Graciano sai do sofá, levantando-se e dirigindo-se ao seu escritório que é contíguo àquela sala, e a que se acede por uma porta muito bem disfarçada, na parede forrada a tecido de motivos grandes de medalhões, nas mesmas tonalidades que o mobiliário ali disposto.
Graciano abre essa porta, entra no escritório de que Sabina conhece cada pormenor, tendo sido ela quem o decorou, como todo o resto da bela e espaçosa vivenda. Sabina ouve-o remexer em objectos, ouve os estalidos metalizados do código do cofre ali instalado. De novo, os mesmos estalidos, e, passados segundos, Graciano reaparece à porta do escritório, com uma caixa de veludo azul escuro nas mãos. Ele fecha a porta, atrás de si, e dirige-se com ar de mistério a Sabina. Finalmente, de caixa nas mãos, senta-se de novo a seu lado.
Sabina olha-o, na expectaviva. Sabe, por intuição, que ali está uma jóia. Mas o quê?
Graciano satisfaz-lhe a curiosidade de imediato, sem nada dizer, e abrindo o delicado invólucro. Dentro da caixa, forrada interiormente de cetim azul escuro, expõe-se um lindo colar de pérolas, de uma só volta, mas de muitas pequenas esferas brancas, de brilho alvo.
-Então, meu amor? Gostas da surpresa?- Pergunta Graciano,  sondando-lhe a expressão do rosto. Sabina, apanhada de surpresa, gagueja, coisa rara nela:
-Eu... Estou... s...sem... p...pal... avras! Não... não... esta...va à espera d...disto!
Lágrimas de emoção saltam dos olhos emocionados de Sabina.
-Então, querida? Que foi? Acalma-te lá!
- Graciano... como sabias... que eu... gosto... de... pérolas?
Entretanto, Graciano tira o colar do seu delicado escrínio, e passa-lho ao pescoço. E responde:
- Calculei... Já te vou conhecendo, querida! Já vou sabendo das tuas convicções, dos teus gostos, da tua personalidade! E a ti, o que te fica bem, são as pérolas, Sabinita! Vem cá, querida! Vem ao espelho, a ver o efeito que elas produzem em ti!- Graciano diz-lhe isso, tomando-lhe as mãos, e fazendo-a levantar do sofá, delicadamente.
Sabina obedece e deixa-se conduzir a um lindo espelho clássico de moldura dourada que existe numa das paredes dessa divisão. As mãos de Graciano, com delicadeza, a tocam nos braços e a conduzem a ver a sua imagem reflectida no espelho. Sabina gosta do que vê.
-Sabes o que dizia a Coco Chanel, acerca do uso de jóias, pelas mulheres, meu amor?- Pergunta Graciano.
- Sei, querido! Ela dizia que a finalidade do uso de jóias, na toilette feminina, não era para que as mulheres parecessem ricas, ou exibissem riqueza, mas sim para que tivessem com elas um ar mais sofisticado!
-Exactamente!
-E por isso, contam, numa das suas biografias, que a Mademoiselle até lançou a moda das jóias falsas, de pechisbeque, para que todas as mulheres tivessem acesso a adornos que estivessem ao alcance dos seus meios financeiros...
- Mas estas não são pechisbeque, fofa! São verdadeiras! Tenho meios para te oferecer jóias autênticas e tudo o que seja preciso, mas de marca genuína! E tenho-te ainda a dizer: Bravo!Também leste essa biografia! Vejo que temos mais e mais afinidades a nível das ideias, e da nossa cultura, em comum! És mesmo a mulher ideal para mim!
-Partilhamos os mesmos pontos de vista e os mesmos conhecimentos! Que bom! Comunhão perfeita de ideias!
-E cada vez estou mais apaixonado por ti!
- E fazes com que eu também me sinta assim, Graciano!
Um novo abraço, e um beijo prolongado os faz expressar o amor nascente entre ambos.

Dias depois, no encontro semanal com Jerónimo, e após terem feito amor como de costume, eles conversam:
- Encontramo-nos na próxima sexta-feira?
- Não vai dar...
- Ora essa! Porquê?
- Porque o nosso caso tem de ter um fim... E tem de ser já!
- Que conversa é essa, agora? A que vem isso? O que te deu, Sabi? Enlouqueceste?
- Vou casar!- Declara sem rodeios Sabina.
- Vais... o... quê?- Exclama, com ar incrédulo, Jerónimo, que desata a tossir, porque se engasgou com o fumo do cigarro que estava a inalar, nesse momento mesmo, e foi completamente apanhado de surpresa.
- Vou casar!- Repete ela, muito calma e naturalmente, sem alterar nada no seu tom de voz, nem nos seus modos.
- Como assim, casar? Com quem?
- É muito simples: Há meses, conheci pessoalmente o Graciano Meirinhos. Solicitou-me que redecorasse a sua vivenda. Entretanto, fizemos amizade, e ele já me convidou várias vezes para festas que tem dado nessa sua casa. Tenho aceitado esses convites. Convivemos muito. Chegámos a esta conclusão: Ele gosta de mim, e eu dele. Ele propôs-me casamento há uns dias atrás e eu aceitei!
- M...!Então e eu?
- Tu nunca quiseste modificar a nossa relação!
- Mas já te dei mil provas de gostar de ti!
- Mas não me deste a que eu mais esperava: querer casar comigo...
- Então, pretendes mesmo casar com ele?... E a nossa relação, como fica?
- Muito possivelmente, acaba aqui e agora, este nosso costume de encontros secretos... Isto não pode continuar... Será melhor deixarmos de nos encontrar a sós...
- Tens a certeza? Olha que, se acabarmos, eu já não vou voltar atrás...
-Paciência! Agora, a minha decisão está tomada, e já dei a minha resposta ao Graciano! Também não penso voltar atrás! Ele ficou muito feliz! E eu também estou!
- E eu que me f...! Mas que bem!E, já agora, responde-me uma pergunta... Tenho todo o direito de saber: já foste para a cama com ele?
- Não, não fui! Não te traí, se é isso que receavas! Até há pouco, tem sido uma relação de amizade, a que tenho desenvolvido com o Graciano... Mas agora, descobrimos que estamos apaixonados os dois!
- Bom, pelo menos isso! Ainda tens bom fundo, Sabi, como sempre achei que tinhas! Mas dói ouvir uma notícia destas! Caramba, se dói! Apanhaste-me completamente de surpresa! Não estou minimamente preparado para ficar sem ti!
- Calculo que não, meu amor! Sei bem que custa! Eu mesma até perdi o sono com esta história! Não sabia o que fazer, nem como tratar desse assunto... Jerónimo, tu bem sabes o quanto eu ainda gosto de ti! Mas, infelizmente, não quiseste, até à data, assegurar este amor com uma união legítima...
-Mas tu sempre aceitaste as minhas condições... Julgava que não te importavas, já!
- Não tinha mais remédio! Preferia isso do que perder-te...
 - Mas, agora, já não te importas de ficar sem mim, não é?
- Acredita que me custa imenso ter de deixar de me encontrar contigo... Mas, por muito que me doa, tive de escolher! Não iria conseguir continuar assim! A sentir-me dividida! E a fazer-te mal a ti, e a ele! Não tenho esse direito! Não me sentiria bem traindo-te a ti com o Graciano, mas também não me sentiria bem, traindo-o, a ele, contigo! Podemos, no entanto, continuar sendo amigos, se quiseres...
- Obrigada pela esmola, pá! E, já agora, sê feliz! Espero que ele te satisfaça tanto ou mais do que eu!- Exclama Jerónimo, frustrado.
-Veremos! Mas, não é só a parte do relacionamento físico que conta! Ele e eu temos muitas afinidades! Jerónimo, tenta compreender o meu lado! Tenta pôr-te um pouco no meu lugar...
- A culpa é toda minha, bem sei! Agora, vou perder-te! Tudo isso, por causa do meu egocentrismo, do meu egoísmo! – Exclama de novo Jerónimo, virando-se de barriga para baixo, de punhos cerrados, dando socos na cama. -Bem vejo, agora, o quanto errei! Mas agora, é demasiado tarde! – Depois, mais calmo, olha para Sabina e pergunta, em tom mais ameno:- Então, é um adeus, que estamos a dizer um ao outro, sendo assim?...
- É sim, Jerónimo!
-Por favor, Sabi, deixa-me amar-te uma última vez!
-Está bem, querido! É um presente de despedida! Perdoa-me! Não posso continuar assim!
- Entendo! Tens razão! Vou ter muitas saudades tuas!
- E eu também! Nunca te vou esquecer, Jerónimo!- Diz Sabina, de lágrimas nos olhos.
-Nem eu a ti, Sabi! Vem cá, querida!
Recomeçam a amar-se, com a consciência de ser a última vez que o fazem...
Uma hora depois, ao sair daquele lugar, por última vez, cada qual vai para sua própria casa. Sabina telefona a Graciano e ele vem buscá-la, algumas horas mais tarde, para irem jantar juntos. Na sua mente, há este pensamento: já que ela teve de perder um amor, por ter de enveredar por outro caminho, quanto mais depressa o conseguir esquecer e substituir, melhor será! Apostada em levar a cabo o seu plano de restabelecer a plena sexualidade do seu  actual noivo, Sabina começa, desde logo, a utilizar todos os meios de sedução física ao seu alcance. Quem sabe se ele, seduzido, não logra entusiasmar-se e conseguem fazer amor os dois, com sucesso?

Passaram dois meses sobre o sucedido. De casamento marcado com Graciano, e quase a cumprir-se, Sabina entregou-se-lhe de corpo e alma, tornou-se-lhe fiel, e nunca mais se encontrou com Jerónimo. De pleno acordo com o seu noivo, decidiram ambos que ela continuará a ser decoradora de interiores, como antes. Graciano apoia, plenamente, essa sua decisão, de se manter activa. Os amigos e conhecidos de Graciano já andam a solicitar-lhe, também eles, que a bela e talentosa decoradora lhes trate da remodelação das suas habitações. O que lhe concede, a ela, bastante projecção profissional e social, e lhe garante uma ocupação útil,  e satisfatória. E já não tem mãos a medir para o trabalho que lhe surge. Mas ela adora a sua profissão! Por seu lado, Jerónimo, sozinho, remói os remorsos de ter perdido, por seu único e exclusivo comodismo, a sua bela amante... Vai levar algum tempo, certamente, até encontrar quem a possa plenamente substituir... Se alguma vez o conseguir!
Graciano, felizmente para ele e para Sabina,  descobriu, ao ter intimidade física com ela, que a sua impotência, afinal, tinha cura, pois conseguiu, não só satisfazer a sua amada, mas também ele obteve já o prazer desejado. Está feliz.Vão poder amar-se plenamente, tentar ter os filhos que ambos desejam... e ser felizes juntos, em todos os aspectos. Para Sabina, foi difícil, e até mesmo penoso, decidir entre os seus dois apaixonados, e renunciar a Jerónimo. Mas, finalmente, está feliz com a escolha que fez.


FIM




Nely, Março 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

SONHOS TORNADOS REAIS


Conto Romântico- do meu livro de contos "Amor e Aventura":

SONHOS TORNADOS REAIS

Era um Sábado de manhã. Uma manhã de Primavera soalheira. Quase na hora do almoço. Nesse dia, Irene e a mãe, Eulália, haviam decidido, entre as duas, não abrir a loja de florista da família. Era uma pequena excepção, no quotidiano delas. Estavam a precisar de uma folga um pouco maior, para poderem ir às compras cedo,  e depois, fazerem o almoço entre as duas, também. Mãe e filha tinham uma belíssima relação. Eulália tinha cinquenta e um anos, e Irene acabava de cumprir vinte e cinco.
Ao chegarem a casa, minutos antes, tinham-se deparado com uma visita que, nos últimos tempos, vinha sendo cada vez mais frequente: um colega de seu pai. Mickael Lacerda trabalhava na mesma empresa do que Armando Miranda, embora este fosse cerca de vinte anos mais velho do que Mickael. Davam-se ambos bastante bem, e haviam mesmo feito amizade. Por isso, Mickael frequentava, desde havia algum tempo, e de modo já bastante assíduo, a casa do colega Armando Miranda.
Mas, naquele preciso momento, Mickael estava já de saída. Aproximou-se de Irene, sorrindo, a despedir-se:
-Até logo, Irene!
-Até logo, Mickael!- Respondeu Irene, a sorrir também . Ela simpatizara bastante com ele, desde a primeira visita que ele havia feito ali, quando Armando apresentara o rapaz à esposa e à filha. Irene já havia notado, além disso, que ele também simpatizara com ela, desde a primeiravez em que se haviam encontrado frente a frente...
Poucos instantes antes, ficara combinado entre Mickael e Armando que o rapaz voltaria à noite, para jantar com eles. O pai não dissera, ainda, todavia, diante de Irene, o porquê. Como já não era a primeira vez que ele ali era, para almoçar, ou jantar, convidado, Irene também não estranhou saber que o voltaria a ver, daí a umas escassas horas.
Na verdade, Mickael, que, tanto como Armando, não trabalhava ao fim de semana, fora ali para ter uma conversa franca e sincera com o amigo e colega, afim de expôr os seus sentimentos para com a filha de Armando. Mickael gostava bastante de Irene, e queria sondar o terreno em relação à possibilidade  de namorar e ter uma relação séria e duradoira com a jovem. Para isso, abrira-se com o pai dela, em primeiro lugar. Mas Armando, cuidadoso, não quis dizer nada de imediato, a esse respeito, diante da filha. Durante a conversa tida entre ambos, compreendera o amigo, aprovara as suas boas intenções, e aconselhara-o a sondar, directamente, a própria Irene,  para saber qual a reacção dela. Armando conhecia suficientemente Mickael, para perceber que o rapaz tinha boas intenções e respeitaria a sua filha e a família em si. Pois era uma pessoa com carácter, respeitador, trabalhador e honesto. Já não se encontravam muitas pessoas como ele, por entre as camadas mais jovens. Armando aproveitou um momento em que a filha  entrara em seu próprio quarto, para fazer pequenos gestos expressivos e insinuantes a respeito de Mickael, na direcção da esposa. Esta percebeu logo, com poucas palavras, ditas em voz bastante baixa, de que se tratava, e concordou com um aceno de cabeça.
Irene, por seu lado, ficara, também, a pensar em Mickael.  Ele era um homem belo, ainda jovem,  muito atraente e simpático: Moreno, de cabelos pretos curtos e ondulados, olhos castanhos, feições agradáveis, estatura média, bem proporcionado. Sempre bem vestido, ainda que com um estilo jovem e descontraído. Tinha uma presença marcante. Mickael, à saída, ao despedir-se dela, havia pouco, tocara discretamente com uma das mãos num dos braços dela, numa evidente carícia furtiva. Ela notara claramente, no olhar dele, que o rapaz gostava dela. Havia, agora, entre ambos, uma atracção crescente.   Ela lembrava-se de que, dia antes, ele ali tinha estado, e dirigira-lhe incessantes olhares doces. E há pouco, também. Isso agradara imenso à rapariga, que compreendera a mensagem muda, e esperava, agora, da parte dele, atitudes um pouco mais expansivas, mas talvez tivesse que dar-lhe tempo... Talvez ele fosse um bocado tímido... Ou se sentisse ainda pouco à vontade com ela...
Que sabia Irene a respeito dele? Tudo quanto era possível saber: Que ele tinha trinta e cinco anos – dez a mais do que ela, facto com que ela não se importava nada.  Que era solteiro. Um ponto a favor do que Irene esperava agora dele. Não se lhe conhecia nenhuma namorada actualmente. Tanto melhor, pois significava que estava disponível para uma possível relação entre eles.Trabalhava na mesma empresa que seu pai. Ela tinha, assim, acesso a informação mais directa a seu respeito. Era filho de famílias conhecidas e consideradas como “gente capaz”. Então, era, tanto quanto possível,  fácil de conhecer os seus antecedentes. Sabia também que o pai o considerava como um homem responsável, trabalhador, e excelente colega. Uma simpatia de pessoa! O pai também afirmava, sempre que dele se falava,  que Mickael era uma pessoa de carácter, e sincero. Ela também confirmara isso, a pouco e pouco. Então, estava presentemente na posse de toda essa informação, a respeito daquele que era, agora, o alvo das suas expectativas de rapariga solteira, pretendendo um namorado digno de ser considerado “em condições” para casar.
Irene não costumava intrometer-se muito nas conversas, quando ele ali aparecia, e que ficavam a conviver, ele, ela,  e seus pais. Até porque Irene também tinha as suas próprias amizades, por entre colegas dos tempos de escola, e de universidade, para além de alguns amigos e amigas de infância. Isso fazia com que, fora do seu horário de trabalho, também saísse bastante, ainda, com algumas dessas suas amizades. No entanto, ela simpatizara já bastante com Mickael, não sabendo até à data, ao certo, se devia esperar dele que a visse como uma amiga, apenas, ou algo mais... Mas não podia negar que o sorriso dele, o olhar franco e directo, as suas maneiras, para com toda a família, agradavam-lhe bastante. E não desdenharia dele se, daí em diante, Mickael lhe pedisse para serem namorados... Porém, agora, tinha mesmo a certeza que ele tinha algo mais a transmitir-lhe. Só perguntava a si própria quando é que ele se decidiria a abordá-la acerca disso...
Foi então que, à mesa, Armando, virando-se para a filha, disse de modo directo e explícito:
- Convidei o Mickael, para vir jantar connosco, logo à noite. Irene, vê se consegues não te atrasar! Sei que ele engraça bastante contigo! Ficávamos mal vistos, se não estivesses cá a horas, para jantarmos todos juntos!
- Claro que não me vou atrasar, pai! Eu também engraço com ele, se queres saber! Vou sair um pouco esta tarde, porque tenho uma saída já combinada com a Marta e a Sarita. Mas não vai ser muito demorada! Apenas um pequeno convívio! Cerca de uma ou duas horas, nada mais!
- E além disso, eu também vou precisar de ti, para ajudar  a preparar o jantar!- Acrescentou a mãe.
-Claro que sim, mãe! Podes contar comigo!
A tarde passou rapidamente.  Depois de regressar a casa, Irene, conforme prometera,  ajudou a mãe a elaborar uma parte do jantar, e a pôr a mesa.
Eulália  aproveitou, então, que estavam as duas sós na cozinha, já que Armando estava no quintal a fazer grelhados, e Mickael ainda não chegara. Falou com a filha, a respeito do rapaz:
- Não me tem escapado o modo como o Mickael olha para ti, Irene... Cá por mim, ele está apaixonado! Não achas?
-Talvez! Eu também já reparei! Até o pai se apercebeu! Mas, se ele gosta realmente de mim, não deveria manifestar-se, dizer-me alguma coisa?
- Pois sim! Pode ser que ainda diga!
- Não achas muita a diferença entre as nossas idades, mãe? Dez anos...
- Não! Que ideia!
- Eu, pessoalmente, não me importo nada com isso! Mas, e tu e o pai?
- Nós? Não! Com trinta e cinco anos, ele ainda é um jovem! Ainda para mais, sendo tão bom moço, solteiro, trabalhador, responsável... E já tem maturidade! Não é um criançolas, nem um bandalho qualquer! É um excelente partido! Queres mais? Ele gosta mesmo  de ti... Nota-se-lhe na cara... Gostas dele, Irene?
-Bem... a dizer verdade... sim! – Admitiu a rapariga, ruborizada.
-Tens vinte e cinco anos, és uma jovem! Mas, também já tens idade mais que suficiente para teres um namorado a sério, e até mesmo para casar!
-Casar? Eu? Tão cedo?
-Qual é o espanto? Eu casei mais nova do que tu!- Replicou a mãe, olhando-a nos olhos, e parando no meio da cozinha, com alguns pratos nas mãos. – E hoje, vocês, moças actuais, com essas idades, sois muito mais novas, e ainda com o futuro pela frente! Muita coisa mudou, desde a minha juventude!
-Está bem, mãe! Tens razão! Vou pensar nisso!
Dito isto, Eulália saiu da cozinha para a casa de jantar, com algumas loiças para pôr na mesa. Escassos minutos depois, voltou para a cozinha. Irene acabava de extrair do frigorífico uma grande tigela de salada de verduras, e colocava lá a sobremesa acabada de preparar, a qual necessitava de ficar um pouco ao fresco, até que chegasse o momento de a servir, para que ficasse no ponto desejado. O pai, no quintal da casa térrea, de luzes acesas, vigiava ainda os grelhados  no barbecue.
Eulália voltou à carga:
- Irene: vou-te ser franca! O teu pai falou comigo, esta tarde, enquanto saiste. A razão do Mickael ter vindo cá vê-lo, esta manhã, diz-te mesmo respeito.
- Como assim?
- Ele veio abrir o seu coração perante o teu pai e quis saber se o teu pai concordava  que ele te pedisse para namorarem...
- Ai sim? E o pai, o que lhe respondeu?- Perguntou Irene, ruborizando-se de novo.
- O teu pai disse-lhe que estava de acordo, mas que era contigo que ele devia falar, uma vez que tu és maior de idade, e que cabe a ti decidires directamente esses assuntos que te dizem respeito. Disse-lhe que falasse contigo, para saber se tu também gostas dele...
- E por isso, vem cá jantar? Para falar comigo? Por isso estavas tu própria  a falar-me agora mesmo dele! Estavas a sondar-me, mãe! Confessa!
- Sim! Estava! Por isso mesmo!
-Bom! Ainda bem! Agora, já sabes que também gosto dele... Até que enfim! Tentarei entender-me com ele, sendo assim... Apanhou-me um bocado de surpresa, de início, com as suas atitudes, os seus olhares... Só o estava a ver como um amigo, há uns tempos atrás... Mas as coisas evoluíram entre nós, ao que me foi dado perceber... se agora, ele quer mesmo namorar... a coisa muda de figura...
- Pois muda, filha! Gostas mesmo dele? Tens a certeza?
- Gosto! Claro que sim! Não estou a brincar, nem penso enganá-lo, ou fazer-lhe perder tempo! Espero que ele também não, no que a mim me toca...
- Estás, então, a pensar em aceitar namorar com ele?
-Com certeza, mãe!
A campainha da porta de entrada tocou, nesse mesmo instante, interrompendo a conversa. Irene tirou o avental de fugida, largou tudo, e foi a correr abrir a porta. Mickael, sorrindo, cumprimentou-a com dois beijos no rosto, um deles mesmo ao pé da boca. Irene ficou com a certeza absoluta de que ele tinha vontade de lhe dar outro tipo de beijos... Mickael entregou-lhe, de imediato, um presente muito bem embrulhado, que se revelou ser uma caixa dos melhores chocolates belgas, os seus preferidos: frutos do mar. Ela agradeceu a sorrir, mas ruborizada:
- Obrigada, Mickael! Como sabias que adoro esses chocolates?
- Foi um passarinho que me contou... – Disse o rapaz, com um ar maroto e ao mesmo tempo de mistério.
- Um passarinho, ou um passarão? Talvez que esse passarinho, teu cúmplice, tenha nome... E até julgo que sei de quem se trata: Armando Miranda...- Disse ela, em tom de brincadeira, olhando-o a sorrir.
- Pois foi! – Riu-se Mickael, por sua vez. -Apanhaste-me, Irene! Eu tinha que saber algo acerca das tuas preferências pessoais, para te conseguir trazer um presente ao teu gosto... Então, como o teu pai me convidou, eu perguntei-lhe o que achava que poderia oferecer-te...
-Está certo! Já vi que sabes como agradar a uma rapariga!
- Flores não eram supostas, pois tu já és florista... Chocolates eram, portanto, o presente certo!
- Claro! Tens toda a razão!- Disse a rapariga a sorrir ainda.
Satisfeita, por ver que Mickael fora sincero, e que mostrava preocupação em ser agradável para com ela, Irene ficou ainda mais predisposta a aceitar o namoro com ele. Mickael, por sua vez, ao ver a boa receptividade  de que estava a ser alvo, da parte de Irene, sentia-se agora mais confiante, no tocante à proposta de namoro que lhe iria tentar apresentar nessa mesma noite.
Entretanto,  cada um dos detalhes do que ia sucedendo entre ambos, do que lhe demonstravam as atitudes dele,  no momento presente, dava  a Irene mais vontade de o ter como namorado. Não quisera dizer nada a ninguém, sobre os sonhos que vinha tendo, frequentemente, com Mickael, e em que ele a abraçava e beijava. E agora, os sonhos recentes estavam a pouco tempo, certamente, de se realizarem... Ainda na noite anterior, tinha sonhado com ele! Sonhos doces e românticos que ela ansiava que acontecessem realmente!
O jantar decorreu animado. Depois de, por fim, todos apreciarem devidamente a sobremesa deliciosa, que a própria Irene havia confeccionado, Mickael julgou então propício o momento, para pedir licença, sair, e levar Irene com ele, por um bocado. Achara que essa era a altura ideal de darem ambos um pequeno passeio a sós, ideia com que tanto ela como os pais concordaram. Estava na hora de verificar, por fim, se ele e Irene se iriam mesmo entender... Ao fim e ao cabo, ela era maior de idade, e não iria suceder nada entre os dois, que ela não desejasse. Mickael queria respeitar Irene. Até porque pressentia, agora, que ela também queria que ambos fossem namorados... Os olhares doces e envergonhados dela para ele, os seus sorrisos... tudo, nela, dizia a Mickael que aquela rapariga gostava mesmo dele! E tinham ambos idade e maturidade suficiente para saberem estar a sós, sem interferências, nem preocupação de ninguém.
Então, uma vez a sós, na rua, e a andarem devagar, Mickael decidiu-se:
- Irene, sabes certamente o motivo pelo qual vim jantar hoje convosco, não é verdade?
- Claro que sim, Mickael! Sei que me queres pedir para namorarmos...
-Efectivamente! Só me atrevi a falar com o teu pai, a esse respeito, hoje de manhã, porque notei, na tua maneira de lidar comigo, que não te sou indiferente... Ou estarei enganado?- Perguntou ele, olhando-a nos olhos, um tanto ansioso.
-Não estás enganado, não! – Confessou Irene, mantendo o olhar, mas ficando um tanto envergonhada, e ruborizando-se de novo. Ela nunca tinha tido um namorado a sério, apenas pequenos namoricos sem importância, uns anos atrás... Com Mickael, as coisas iriam, decerto, ser bem diferentes, sérias mesmo. Dali, a rapariga, esperava, por conseguinte, o desenlace de uma proposta de noivado, e inclusive, de um casamento. Tinha muitas expectativas a esse respeito. Foi isso mesmo que ela lhe explicou, de um modo um tanto tímido, a princípio, mas sincero. Ele escutou-a atentamente, e concluiu, então:
-Isso significa que aceitas que namoremos?
- Sim! Aceito, perfeitamente! Digamos que eu até estava à espera que tomasses uma atitude, conforme eu disse há bocado à minha mãe!
- Pois, se querias ver uma atitude da minha parte, aqui a tens! Juro-te que não te arrependerás, Irene! Vou tentar ser o melhor namorado, o melhor noivo possível para ti!
- E eu vou fazer tudo, também, para corresponder às tuas próprias expectativas a meu respeito, Mickael! Só espero que também o possas reconhecer, e que o nosso namoro seja uma benção para nós ambos!
Mickael apanhou a mão dela, prendendo-a com a sua, e levou-a à boca, beijando-lhe as costas da mão, enquanto paravam ambos no meio da rua, e ela sorria, embevecida com tal gesto romântico.
-Irene, posso dar-te um beijo? Não sabes a vontade que tenho de te beijar, querida!
- Podes, sim, Mickael! Eu também desejo isso!- Concedeu Irene, sorrindo e corando,  estando, agora, também ela, desejosa de que Mickael a beijasse.
Então, Mickael abraçou-a, chegando-a mais para junto dele, acariciou-lhe o rosto, devagar,  e os cabelos negros longos e soltos, olhando-a nos grandes olhos cor de avelã, sem pressas, devagar. E, aproximando, então, a sua boca da de Irene, foi aflorando lenta e cuidadosamente os lábios femininos, com os seus, saboreando-os,  e entreabrindo-lhe a boca, por fim, para colar ambas as bocas uma contra a outra, explorando-lhe o interior  da dela com a língua, de modo suave.
Irene deixou-se fazer, deliciada com a ternura com que ele o fazia, e começou também ela a corresponder-lhe às carícias bucais, que duraram algum tempo. Estavam num canto mais discreto de uma rua não muito frequentada. Quando o beijo terminou, Mickael suspirou e disse:
- Que beijo maravilhoso! Meu amor! Adoro-te! Adorei este beijo! Tu correspondeste-me de uma forma tão doce!
-Também eu o adorei,  Mickael! Que bom! Que delicioso! Posso tratar-te por Mika, querido?
- Claro que podes! Como queiras! Estou tão feliz por me aceitares, por me corresponderes, Irene! Muito mesmo, querida!
- Acho que também te adoro, Mika! Nunca conheci ninguém como tu!
-Nem eu conheci nunca nenhuma rapariga como tu, meu amor!
-Eu também estou feliz por namorarmos, Mika! Ainda bem que saímos sozinhos, para podermos confessar os nossos sentimentos um ao outro...
- Sim! Eu ardia de vontade de estar contigo, assim, a sós... De que me aceitasses, de que nos beijássemos, meu amorzinho! Que bom!
- Eu também estava desejando estar a sós contigo, querido! Diante dos meus pais, não estava à vontade...
- Namoro e paixão são coisas para viver a dois, sem necessitar de mais ninguém por perto...
- Mesmo! Não te vais rir, se te confessar algo?
-Rir de ti, eu? Não, nunca! Porquê, meu amor?
-Porque tenho sonhado contigo, Mika! Nos meus sonhos, namoramos e tu me beijas e abraças, como acabaste agora mesmo de o fazer...
- Uau! Fico feliz por me contares isso! Eu também cheguei a sonhar contigo, precisamente a mesma coisa! Vem cá, querida!
Mickael estreitou um pouco mais Irene contra si, e deu-lhe um beijo na testa, perto dos cabelos, suavemente, passando-lhe um braço por cima dos ombros. Irene não esperou mais para passar, por sua vez, o braço pela cintura de Mickael, para seguirem assim pela rua, enlaçados, olhando-se nos olhos, constantemente, e murmurando doçuras um ao outro. Entraram finalmente num café, onde havia pouca gente, e sentaram-se num canto discreto, ao lado um do outro.
Irene preferiu tomar um chá, pois confessou que o café era algo que não a deixaria dormir, se o tomasse àquelas horas... Pelo contrário, seria garantia de uma noite de insónia.  E ela precisava de dormir, para descansar, aproveitando um pouco mais, porque o dia a seguir seria Domingo, e não trabalharia, portanto, na loja de flores. Mickael concordou em absoluto, e também preferiu beber um cálice de licor de whisky, em vez de café.
- Nunca bebi tal coisa! Que tal sabe isso?- Perguntou Irene, curiosa.
- Prova lá, então!- Convidou Mickael, estendendo-lhe o seu cálice, a que não tinha tocado ainda. -Já me dizes se gostas, minha linda!
Irene provou um poucochinho e saboreou o licor adocicado. Gostou.
- Então, minha princesa? Que tal?
- Muito bom! Tens bom gosto!
 -Pois tenho! E ao escolher-te a ti, como namorada, isso também  prova que tenho bom gosto: és linda, doce e inteligente! E ainda por cima, também gostas de mim!
- Claro que gosto! Eu também tenho bom gosto, vês? És lindo, romântico, e um homem com H grande! Querido Mika!
-Adoro quando me tratas por esse diminutivo, e nesse teu jeito doce, cheio de carinho!  Vou passar a tratar-te por Nini, quando estivermos sozinhos! Se gostares,  e aceitares, é claro...
-Que diminutivo tão fofo! E que carinhoso, também! Claro que aceito!
Irene sorriu, bebeu um gole do seu chá, e pausadamente, virou-se por um momento, apanhando algo dentro da mala de mão. Mickael olhava-a, curioso. Sorriu, ao ver o que ela tinha agora na mão: Era um bombom, dos que ele lhe tinha oferecido. Ela tinha metido uns quantos na mala, antes de sair,  sem ele ver. Chegou o bombom ao pé da boca de Mickael, e deu-lho a provar.
- Mmm...  que delícia! -Disse ele, trincando um bocadinho do bombom, de modo guloso, após o que ela meteu o resto na própria boca.
- É mesmo uma delícia! – Concordou a rapariga. E apanhou mais um, que partilharam do mesmo modo.
-Marota! Que gulosa e sensual que és!- Disse-lhe ele, baixinho, ao ouvido... Um dia, quando fizermos amor, vou querer lembrar-me de, também, comermos chocolates destes, partilhando-os, e partilhando também licor deste. Os teus lábios devem saber divinamente, com a mistura de chocolate e licor!
- E os teus, também! Daqui a bocado, poderemos tirar isso a limpo!- Respondeu ela no mesmo tom. Depois, ficou séria, e ruborizou-se, ao dizer, num murmúrio, ao ouvido dele:- Quando é que vais querer fazer amor comigo?
- Algum dia, minha adorada!- Respondeu ele, também segredando ao ouvido dela. E continuou:
-Vamos com calma, querida, que lá chegaremos! Quero muito que façamos tudo decentemente, e a seu tempo! Quero também poder fazer as coisas de modo seguro, sem atropelos, e de forma a podermos desfrutar disso ao máximo, os dois! Não concordas, Nini?
- Está bem, Mika! Claro que concordo contigo, amor!
- Vamos dar mais uma voltinha? A noite está linda, e apetece-me estar contigo, ainda um bocado, mas em outro lugar, a sós, longe de olhos e ouvidos indiscretos...
- Para darmos mais uns beijinhos doces...
-Sim, querida! É isso mesmo!
Saíram, depois dele pagar a conta, e voltaram a ir pela rua, abraçados, até chegarem a um jardim. Num certo sítio desse jardim, havia um abrigo natural,  que Mickael conhecia, e onde alguns casais de namorados se escondiam, por vezes, em busca de privacidade. Era formado por alguns arbustos, que ocultavam da vista exterior um banco. Constituía, assim, uma espécie de nicho. Ali, ao abrigo de olhares indiscretos, com a cumplicidade da escuridão da noite, e a pouca iluminação local, sentaram-se e beijaram-se intensamente. Ficaram algum tempo abraçados, em silêncio, gozando  essa sua intimidade recente. Irene decidiu então dizer algo que achou importante:
 -Mika: eu sou virgem, sabes? Nunca fiz amor com ninguém...
-Ainda bem, querida! Eu saberei ser paciente e cuidadoso, sendo assim, quando chegar a hora de termos intimidade física! E fica sossegada, que não vai ser já! Mas agradeço que te tenhas guardado até agora! Pois fizeste-o para mim!
- Sempre achei que devia continuar virgem até casar!  A possibilidade de intimidade física, do dom do meu corpo, a um possível parceiro, sempre foi para mim, algo muito sério! Acho que é algo a ser muito bem ponderado, e que só está certo ao abrigo de um casamento!
- E pensaste muitíssimo bem! Eu também sou da mesma opinião! Se tudo continuar a correr bem, entre nós, havemos de nos casar, meu amor! Depois, então, pertenceremos um ao outro, sem barreiras, nem problemas! Com todo o nosso amor, e respeito mútuos!
E por ali ficaram, mais uns momentos, beijando-se apaixonadamente, sem ninguém  ver nem espiar aqueles doces abraços e beijos, que dispensavam testemunhas.
 Os dias seguintes foram trazendo algumas mudanças na vida social de Irene. Pois em vez de sair tanto com as suas amizades como antes, tinha, forçosamente de ter muita disponibilidade para estar com Mickael, o que, para ambos, era fundamental, fora das muitas horas de trabalho de ambos, e da vida e convívio familiar. Os telemóveis de ambos enviavam agora frequentes mensagens carinhosas, diariamente. Encontros e saídas eram combinados constantemente.
As duas amigas mais chegadas de Irene, Sarita e  Marta, comentavam, certo dia, entre si:
- Já viste a sonsa da Irene? Parecia que não partia um prato! E zás! De repente, arranja um namorado!
 -Pois! Mas também, o que lhe deu, para aceitar aquele gajo, tão mais velho do que ela? Estará assim tão faltada de namorado?
- Aquilo foi namoro arranjado pelos pais! Não ouviste o que ela disse, outro dia? Que o namorado que ela agora tem, é colega do pai dela!
-Está na cara que ele cobiçou-se dela, e os pais dela concordaram com isso!
-Mas, apesar de ser mais velho, isso não é defeito: ele tem maturidade, ao menos!
-E o gajo é lindo! Que pedaço de homem!
-E um bom partido, ao que parece!
- Agora, ela já quase não vai querer sair connosco...
-Bom... Se calhar não pode...
- Pois é!Pensando bem, certamente, que, se alguma de nós duas tivesse namorado, também não teríamos tanto tempo disponível, para sairmos juntas...
- Sim, lá isso é verdade!
-O que importa é que ela seja feliz!
-Parecem gostar tanto um do outro!
-Ele parece doido por ela!
-Pois parece, efectivamente!
-E ela também anda doida por ele!
-Pois anda!Ela é boa moça! Merece ser feliz!
-Também acho!
Entretanto, o clima era de romance intenso entre os dois apaixonados, que decidiram, passado pouco tempo, avançar com o noivado, e marcar a data do casamento. Os pais de Irene rejubilavam com isso, tal como os de Mickael, que viam, por fim, o filho mais velho decidido a casar-se, e que engraçavam bastante com Irene.
Quanto ao casal de apaixonados, Mickael e Irene queriam organizar a vida de ambos, de modo a viverem juntos, quanto antes. Faziam muitos planos, que eram discutidos entusiasticamente entre ambos, e depois submetidos às opiniões de ambas as famílias. Mickael havia já apresentado Irene a seus pais. A jovem havia sido muito bem recebida pela família dele. Faltava só pôr os respectivos pais em contacto uns com os outros, para que os planos relativos ao casamento fossem postos em execução.
Uma tarde, Mickael disse a Irene:
- Querida, precisamos de falar com os teus pais sobre o assunto da nossa futura habitação.
-Certo, Mika!
- Gostaria que tanto tu, como os teus pais, me acompanhassem a visitar uma casa que recebi, recentemente, de herança dos meus avós. Necessita de algumas obras, afim de a preparar para ser uma habitação condigna para nós, depois de casarmos... Vou querer as opiniões deles, principalmente a do teu pai, que é um entendido em arquitectura e construção civil!
- Onde fica essa casa?
 - A poucas ruas daqui donde estamos! Queres ir vê-la, já?
- Sim, claro!
Encontravam-se, naquele momento, na loja de florista de Irene, sozinhos. Eulália havia tido de sair, por algum tempo, a tratar de alguns assuntos referentes ao negócio. Era de tarde. Como estava já na hora de fechar, embora a mãe não estivesse ali, Irene decidiu fazê-lo, e telefonar à mãe. Esta não atendeu o telefone. Irene enviou-lhe uma mensagem.
Saíram, e foram ver o que, afinal, era um belo casarão, antigo e nobre, mas, realmente, a precisar de algumas obras, pinturas, adaptações. Irene gostou, no entanto, da casa.
Estavam lá dentro, sozinhos. A claridade já era pouca. Parando, de repente, de falar da casa, olharam um para o outro, e abraçaram-se, como já o faziam constantemente. Era irresistível a paixão que os dominava, e o desejo constante de se beijarem e acariciarem, sempre que se encontravam a sós, ao abrigo de olhares ou presenças indiscretas.
- Querida! Apetece-me levar-te a passear, sozinhos os dois, ao campo, no meu carro! Que achas? Aceitas a proposta?
- Aceito, pois! Quando e onde?
- Quando estivermos de folga ambos! E vamos por aí, pela serra algarvia, a descobrir as belas paisagens que poderemos encontrar... Gostas do campo, Nini?
 -Adoro! É tranquilizante, é lindo!
- Também acho! Que tal se passássemos a nossa lua de mel num lugar desses?
- Onde?
- Num desses palacetes antigos,  no meio da serra, reabertos e adaptados como hotéis de turismo rural, com todo o conforto, e todo o sossego, para estarmos só nós dois, todo o tempo que nos apetecer...
- Que ideia maravilhosa!
- Vou mostrar-te alguma da informação que encontrei a esse respeito, e vais ver, vais adorar, tal como eu adorei!
Mickael pegou no seu telemóvel de última geração, e fez uma pequena busca rápida. Depois, mostrou o que encontrara a Irene. A rapariga foi vendo, com seu noivo, todas as fotos e informação escrita que iam descobrindo.
- É fabuloso! Mas que maravilha! E sai muito mais barato do que viagens ao estranjeiro! Aqui, ao menos, estamos em terra nossa, à vontade!
- Foi isso mesmo que pensei, querida! Não perderemos tanto tempo precioso, em viagem. Não nos cansaremos em vão, com transportes demorados e perigosos!  E teremos muito mais tempo para estarmos a sós, nós dois! E num ambiente calmo, paradisíaco!
- Cada dia gosto mais de ti, Mika, do que tu programas, do que tu imaginas e do que tu demonstras, com tudo isso, a meu respeito, meu amor!
- Tudo o que eu possa fazer por ti, é pouco, Nini! Adoro-te! Quero muito que sejamos felizes juntos!
Olharam um para o outro, com paixão, e mais uma vez, beijaram-se com entrega total. Uma terna amizade incipiente havia-se transformado em paixão, para aqueles dois seres, que viviam, agora, um para o outro. Só se sentiam felizes e realizados estando juntos. O futuro sorria-lhes, como o sol, quando brilha intensamente, em dia de Verão.

FIM

Nely, 
Março de 2017